O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

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0203 - Faianças do Largo de Santos

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Nas escavações do Largo de Santos foram identificados fragmentos de faiança que sugerem estar ligados aos despejos de alguma olaria de finais do século XVII ou primeiras décadas do século XVIII, localizada nas proximidades. Esta cronologia é avançada com base nos fragmentos de pratos recolhidos onde predominam os covilhetes (pequenos pratos sem decoração) muito requisitados pelos conventos portugueses e que parecem ter ditado uma moda de utilização doméstica. Surgem igualmente alguns fragmentos decorados com faixas barrocas e contas, decoração que sabemos prevalecer a partir dos finais de seiscentos e muito comuns nos contextos do Terramoto de 1755.

A localização destes achados não é de todo estranha atendendo à proximidade da zona onde, a partir dos finais do século XVI, se desenvolveram as olarias de branco em Lisboa, como comprovado pela diversa documentação que coloca variadas oficinas naquela região de Lisboa (Mangucci, 1996). Seria efectivamente zona privilegiada para os despejos dos restos de produção.

Os vestígios revelaram diversas peças em biscoito, a faiança após a primeira cozedura, mas antes do banho de vidrado que irá revestir a sua superfície com o vidrado branco opaco. Entre os achados destacam-se três fragmentos de caixas ou casetas, recipientes em cerâmica refractária com o propósito de levaram as peças de faiança ao lume, evitando a sua exposição ao fogo directo, minimizando as hipóteses de acidentes de cozedura, identificados nas UE 5006, e 1079. Estes exemplares revelam-se do mesmo estilo de outros que haviam sido recolhidos no Largo de Jesus (Santos, 2007), onde foi encontrada igualmente zona de despejos de olaria, embora aqui tenham sido igualmente identificados restos da fornalha de forno. Tratam-se recipientes cilíndricos com base plana e com fundo aberto. O diâmetro daqueles varia entre os 0,280 m e os 0,190 m, pelo que certamente serviriam para produzir diferentes tipos de louça, com distintas formas e tamanhos. Estranhamente e, ao contrário do que aconteceu no arqueossítio acima mencionado, não foram identificados trempes, cuja função seria separar, dentro das caixas, peças como pratos e taças, durante a cozedura.

 

 

 

Foram solicitados alguns fragmentos para a realização de análises de espectroscopia de Raman, oriundos de recolhas de superfície e da UE 115. Os objectivos desta técnica passam por identificar elementos utilizados na composição das pastas e vidrados comprovando cientificamente as informações que a documentação seiscentista nos tem vindo a indicar acerca da proveniência e utilização de diversas matérias-primas. Esta técnica vai incidir ainda nos pigmentos utilizados na coloração dos elementos decorativos comprovando a sua natureza, bem como algumas das técnicas utilizadas na produção desses mesmos vidrados, nomeadamente a temperatura de cozedura, com a vantagem de não ser destrutiva.

 

 

 

De entre os achados foram identificados alguns fragmentos de cerâmica revestida a esmalte azul com decoração a azul, tradicionalmente identificados como produções sevilhanas do século XVII. A grande dispersão destes achados em Portugal e nomeadamente em Lisboa, muitas vezes associadas a zonas de produção, pode sugerir tratarem-se produções lisboetas, pelo que um dos fragmentos recolhido no Largo de Santos (UE 115), irá ser submetido a análises de pasta e comparado com as análises das chacotas, comprovando se utilizaram os dois a mesma pasta, provando a sua produção lisboeta.

Os resultados obtidos através das análises destas peças serão ainda comparados com as informações obtidas através de análises semelhantes em peças recolhidas de caqueiros das zonas de produção de Coimbra e Vila Nova, tentando identificar diferenças ou semelhanças entre os três centros produtores.

Bibliografia 

SANTOS, M. (2007) - Largo de Jesus. Contributo para a História Incógnita de Lisboa Antiga. Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 10(1), pp. 381-399.

MANGUCCI, A. (1996) - Olarias de louça e azulejo da freguesia de Santos-o-Velho dos meados dos séculos XVI aos meados do século XVIII. Almadan. Almada. Centro de Arqueologia de Almada, pp. 155-168

Inês Mendes da Silva

Tânia Casimiro


0202 - IMPRESSÕES 4º CONGRESSO ALQUEVA

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 Parte I

Estando a trabalhar na ERA Arqueologia desde 2002, embora não seja arqueólogo ou desempenhe qualquer trabalho directamente relacionado com arqueologia (trabalho na área financeira), desafio-me (quando o dia-a-dia o permite) a participar em congressos "puramente" de Arqueologia. Este objectivo, tendo por detrás algum interesse próprio, visa um objectivo maior que é inteirar-me com mais detalhe do tipo de trabalhos que estão a ser desenvolvidos pelas diversas empresas (onde se inclui a empresa onde trabalho e a sua concorrência, claro), tipo de contextos que estão a ser encontrados, como é transmitida essa informação para o exterior, enfim, conhecer o mercado onde actuamos. Foi com esta perspectiva, que decidi participar no 4º Congresso de Arqueologia do Alqueva.

Antes de mais, deve ser enaltecida a iniciativa levada a cabo pela EDIA afim de partilhar ao público os resultados dos trabalhos. Entenda-se aqui público como comunidade científica e não o público em geral. Sobre este aspecto, gostaria de dizer que, dada a dimensão, densidade geográfica, quantidade e importância dos trabalhos que estão a ser desenvolvidos no Alqueva, situação absolutamente ímpar no país nos últimos 5 anos, é uma pena que, mesmo nesta fase em que os trabalhos ainda se encontram a decorrer, não haja uma maior exposição pública dos referidos trabalhos, por forma a valorizar, não só os resultados obtidos das intervenções, mas, sobretudo, o que aporta para a sociedade em termos culturais, sociais etc. Neste sentido, este congresso ficou aquém das minhas expectativas porque quero assumir, inocentemente talvez, que a função primeira (ou última se quiserem) destas (e de todas) intervenções de arqueologia, para além da salvaguarda, registo do conhecimento, etc, é, inquestionavelmente, uma função social, entenda-se de partilha de conhecimento com o público em geral. Se o património, neste caso, as intervenções efectuadas e respectivas descobertas, não são, por si só, motivo suficiente para potenciar a sua divulgação, em termos financeiros, questão a que sou particularmente sensível, o investimento dispendido talvez merecesse um outro retorno à sociedade. Imagino que, no final dos trabalhos (2014???), vão ser publicadas monografias, eventualmente, realizadas exposições, teses de mestrado e talvez até doutoramento, para além de acções de comunicação, nomeadamente, seminários, "press-release" e outros. De qualquer forma, considerando que os trabalhos ainda estão longe de ser concluídos, creio ser uma oportunidade sem igual para ir mais além, promovendo social e culturalmente a arqueologia no melhor sentido, os institutos que a tutelam, empresas responsáveis pelas intervenções, em suma, a arqueologia e todos os envolvidos.

Parte II

No que se refere às comunicações, é facilmente percebida a indiscutível relevância dos contextos arqueológicos descobertos e a importância que representam no contexto da arqueologia portuguesa. Independentemente da empresa que o fez, e note-se que me estou a referir em termos muito gerais, logo com excepções, assisti a apresentações absolutamente descritivas e muito pouco interpretativas, o que me surpreendeu. Mediante o período cronológico e a descrição apresentada, em todas as comunicações temos estruturas, fossas, fossos, silos , fornos, hipogeus, de todos os formatos e feitios, em alguns casos concentrados em área, outros mais dispersos. Depois temos necrópoles, sepulturas com vários tipos de disposição e materiais como cerâmicas, líticos, lâminas, pontas de seta, campaniformes, contas etc. Ou seja, dada a semelhança entre as comunicações, à terceira ou quarta comunicação, confesso que era mais do mesmo. Não quero desvalorizar a importância destas informações (que na maioria dos casos até já deve estar publicado nos relatórios) para quem as analisa e consegue, seguramente melhor do que eu, tirar outras conclusões mas, mais uma vez, vi em grande parte destas comunicações descrições do que foi escavado, como foi escavado e o que foi encontrado, mas muito pouco da definição do que poderia ter sido o sítio e a interpretação que cada um podia fazer sobre o sítio. Compreendo que isto pode ser o mais complicado em arqueologia mas é também o mais desafiante e interessante na arqueologia. Sendo algo sintomático em praticamente todas as comunicações que assisti, e repito isto é uma conclusão pessoal, pergunto-me se será o facto dos trabalhos ainda estarem a decorrer a razão para as comunicações serem meramente "descritivas" ou se este facto será resultante de alguma lacuna mais estrutural na arqueologia praticada em Portugal. Isto leva-me a perguntar se, numa base na "arqueologia descritiva", não podemos considerar que temos uma arqueologia "mecânica" na medida em que basta seguir as regras básicas de "como escavar"? Deve a arqueologia limitar-se a "descobrir" e a revelar essas descobertas ou deve cada arqueólogo/empresa imprimir o seu cunho pessoal nas intervenções através da sua interpretação própria? O que me leva ainda a perguntar, neste contexto, sobre o que determina a importância de um sítio arqueológico: a importância dos sítios manifesta-se pela importância do que descobrimos ou pela importância que atribuímos ao que descobrimos? Mas se não interpretamos o que descobrimos, como podemos saber a importância dos sítios?

 Parte III

Outro aspecto que não posso deixar passar em claro nas comunicações a que assisti é o formato das apresentações e à performance dos oradores. Estando eu habituado a comunicações noutras áreas de actividade, confesso que é com alguma estranheza que assisto a comunicações feitas de costas para a audiência, a olhar para o chão, de mãos na cintura ou em "posição de sargento", já para não falar nas comunicações lidas, umas vezes até mal lidas, outras vezes lidas a 250km/hora. Evidentemente que este é um pormenor. Mas, efectivamente, se a arqueologia pretende aportar valor à sociedade em geral, através do património histórico e arqueológico, com um contributo social e culturalmente útil e fundamental nos dias de hoje, tem de dar uma imagem de si, antes de tudo, consistente, clara, interessante e, em muitos casos, adaptada aos diversos públicos. Nunca este objectivo será alcançado com este tipo de exposição pública a que assistimos que, enquanto público em geral, é pobre e não passa uma mensagem cativante. Repito mais uma vez que estou a falar em termos gerais. Esta situação agrava-se ainda mais quando, no caso das empresas que, por serem isso mesmo, empresas, deviam ser profissionais e competentes nas suas apresentações. Obviamente que não é um problema unicamente da arqueologia, mas confesso que num projecto de arqueologia, dada a importância que a exposição pública assume, este problema é bem mais notório.

Luís Nuno


0201 - Regulação do mercado

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 Enquanto as autorizações de trabalhos arqueológicos forem concedidas exclusivamente a pessoas individuais, para que servirá a institucionalização de um sistema de alvarás na actividade arqueológica portuguesa? Nesse caso, as empresas estarão credenciadas para quê? A actual autorização, pouco exigente e só concedida a arqueólogos, corresponde a um alvará, não existindo empresas no enquadramento legal específico da nossa Arqueologia. Um sistema cego de alvarás ou de autorizações para execução de trabalho que não implique as empresas mais não será do que uma ficção, podendo as mesmas continuar no mercado sob a fachada de autorizações concedidas individualmente aos seus arqueólogos. De facto, se as empresas não forem agregadas ao sistema, quem irá solicitar o alvará? Mesmo criando mecanismos que obriguem a adquirir alvarás, por parte das empresas cujos estatutos incluam a actividade arqueológica, poderemos obter como resultado um mero mecanismo de cobrança de taxas pelo estado, podendo empresas de muito baixa qualidade e evidentes comportamentos desviantes do ponto de vista ético continuar tranquilamente no mercado, desde que reúnam a estrutura orgânica e financeira exigida.

Esperemos que a reforma preconizada pelo IGESPAR e em preparação seja muito ponderada para poder ser consequente. Caso contrário, temo que tudo fique na mesma, desresponsabilizando as más empresas de Arqueologia, confortavelmente refugiadas por trás dos arqueólogos e escudadas no actual modelo de baixo nível de exigência. Inaceitável!

Miguel Lago, Março de 2010

 


0200 - Do que não se fala não há

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O blog do NIA atinge o seu post nº 200. Estes números "redondos" são normalmente aproveitados para balanços, olhares retrospectivos e coisas desse género. Não fugindo a essa regra (e até porque alguns se têm dedicado ultimamente a discutir professias realizadas num passado recente), resolvi olhar um pouco para trás, não para uma professia, mas para um diagnóstico.

Em 2003, na introdução à secção temática da revista ERA Arqueologia nº 6 dedicada ao tema "Arqueologia Portuguesa e Produção Teórica" (publicada em 2004), escrevia:

"Disciplinarmente, contudo, este desenvolvimento tem sido desequilibrado. Face a um crescente número de sítios intervencionados, de textos publicados, de graus académicos obtidos, de projectos apresentados, de intervenções de minimização e salvamento realizadas, o panorama no que respeita a preocupações teóricas, quer de natureza epistemológica, quer no âmbito das "teorias de enquadramento" ou dos modelos, tem-se revelado particularmente deficitário.

Uma grande parte (demasiado grande) da Arqueologia Portuguesa parece viver despreocupada com as questões relativas à natureza da produção de conhecimento e das suas vinculações teóricas e ideológicas, quer em termos gerais, quer na sua área disciplinar específica."

Nessa mesma secção temática, Lucy Evangelista escrevia, na sua colaboração intitulada "Da perpetuação do discurso à normalização da prática", o seguinte:

"O verdadeiro amadurecimento da disciplina dar-se-á apenas quando estas questões, nos termos em que aqui são colocadas, deixarem de ser motivo de discussão e já não for necessário colocar em causa a fraca recorrência dos temas teóricos no quotidiano da Arqueologia. Esse, sim, será um sinal claro de progresso e de evolução qualitativa da Arqueologia"

Passados sete anos, contam-se pelos dedos de uma mão (e ainda sobram) os textos escritos que falam do assunto, sobretudo no contexto que mais Arqueologia pratica: o comercial. Na net, os jovens arqueólogos reclamam sobre tudo, mas nem uma linha sobre este assunto. Nos colóquios somos encharcados de dados. Aparentemente, é um assunto que não motiva a discussão.

Daqui se concluiria, segundo a equação de Lucy Evangelista, que estamos perante um sinal de "progresso e de evolução qualitativa". Se não falamos dos problemas é porque eles já não existem.

Mas está a Arqueologia portuguesa realmente sem problemas? Não! Claro que não. Os salários são baixos, o trabalho precário e com más condições, suspeita-se de comportamentos pouco éticos, a incompetência prospera, a componente legal está velhinha, etc. Estes são assuntos que se debatem ciclicamente ao longo do ano. Logo existem. A questão da produção teórica não. Portanto, não existe. Do que não se fala não há.

De facto, uma Arqueologia sem problemáticas dispensa qualquer teoria. Libertámo-nos dos problemas teóricos. E como conseguimos esta proeza que mais ninguém parece conseguir? À boa maneira do regime da actualidade política: se ninguém parece conseguir, baixa-se a exigência; se ainda assim não cumpre, anula-se a exigência. Problema resolvido. É assim que se está a resolver o problema do sucesso escolar e necessidade de qualificação e será assim que se vai tratar de outros.

Finalmente a prática, liberta dos constrangimentos complicados, entediantes e supérfluos da teoria, livre de "filosofisses" e escritas ininteligíveis, pode desenvolver-se livremente, construindo o seu mundo de fazeres sem porquês.

O que eu ainda não percebi é como é que um fazer sem "porquês" vai conseguir gerar uma área de actividade profissional, no campo da ciência e do património, socialmente reconhecida, bem paga e com boas condições de trabalho. Mas isso deve ser porque me apego à aparente complexidade das coisas, descurando a sua óbvia simplicidade.

António Carlos Valera


0199 - Era uma vez o património 34

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Álvaras de Arqueologia. Não, obrigado!

 

 

A Arqueologia portuguesa parece precisar de ser organizada. Infelizmente, são cada vez mais aqueles que pretendem que a faceta comercial da actividade, actualmente (e provavelmente no futuro que antecipamos) a que enquadra a esmagadora maioria dos projectos, seja fortemente regulada, de forma estritamente quantitativa e não qualitativa: falamos das propostas que preconizam um sistema assente em alvarás, ou seja, num documento que garanta a autorização para o funcionamento das estruturas empresariais que actuam na Arqueologia.

Será esta a receita, ou parte da receita, para resolver os problemas de falta de qualidade, densidade, credibilidade ou visibilidade da nossa actuação? Não creio, de maneira nenhuma.

Ciclicamente, somos varridos por momentos de maior empenhamento na mudança. E então, surgem as fórmulas milagrosas: a Associação Profissional, a Ordem Profissional, o 2º ciclo como patamar mínimo para o efectivo exercício da profissão, o alvará para as empresas,...

A origem dos nossos problemas está na falta de rigor da classe arqueológica e na dificuldade que a tutela demonstra em definir uma Visão para o futuro e uma incapacidade em assentar de vez patamares de exigência ao licenciar, fiscalizar e aprovar projectos.

Uma deontologia profissional amplamente valorizada e uma clareza ao nível das exigências técnicas e científicas inerentes à apreciação de planos de trabalho (incluindo a avaliação dos recursos humanos e técnicos associados), à fiscalização ou apreciação final de trabalhos executados, permitiriam resultados concretos. Isso, sim.

De pouco servirão a Ordem, os alvarás ou os regulamentos que não passem pelo efectivo incremento das boas práticas consensualizadas e pela rigorosa definição dos níveis de exigência pretendidos para a prática arqueológica. Sem isso, tais medidas  apenas garantirão o status quo e a defesa dos interesses instalados.

Não aprecio uma estratégia assente em regras que procuram limitar a liberdade de actuação a partir de critérios que em nada se relacionam com a nossa actividade. A título de exemplo, será legitimo limitar uma empresa a concorrer à execução de um projecto apenas porque não tem no seu quadro operários, ou porque o seu capital social é mais limitado? Serão estes os critérios relevantes para assegurar qualidade e profundidade na execução em Arqueologia?

A procissão vai no adro. Vamos discutir as boas ideias para o futuro.

Miguel Lago, Fevereiro de 2010


0198 - Revivendo o Passado (2)

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Necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo, Rua do Instituto Bacteriológico, Lisboa

No decorrer do acompanhamento arqueológico para a EPAL , em 2005, na Rua do Instituto Bacteriológico identificaram-se contextos funerários preservados na área de afectação da obra, tendo-se preconizado a escavação integral desses contextos na área a afectar (51,50 m²).

 

 

Os resultados da escavação arqueológica e da pesquisa bibliográfica indicam que a zona intervencionada se reporta à necrópole do Colégio Jesuíta de Santo Antão-o-Novo, fornecendo dados importantes para a caracterização de uma parcela específica da população de Lisboa nos Séculos XVII-XVIII.

Identificaram-se 138 enterramentos, na sua quase totalidade pertencentes ao sexo masculino, no entanto, não correspondem a esqueletos completos, reportando-se muitas vezes simplesmente à parte distal dos membros inferiores ou ao crânio e vértebras cervicais. Destacam-se as seguintes excepções:  as presenças de uma mulher, de um recém-nascido (não se encontram associados) e de um indivíduo não europeu levantam questões para as quais apenas podem ser colocadas hipóteses. Ainda assim, estes elementos funcionam como indicadores de uma complexidade social mais abrangente, que excede o âmbito da estrutura eclesiástica/ colegial que funcionou neste espaço.

 

 

A análise preliminar dos materiais recolhidos na escavação arqueológica da Rua do Instituto Bacteriológico permite verificar a escassez de espólio associado aos enterramentos. A maioria da componente artefactual é proveniente de depósitos cuja formação ocorreu num período em que o espaço já não era utilizado como necrópole, inviabilizando que sejam atribuídas datações. Existem três moedas e apenas duas delas se encontram associadas a enterramentos. O restante espólio nestas condições é muito escasso, resumindo-se a objectos metálicos, alfinetes e um possível anel, e apenas num caso se identificaram contas, provavelmente de rosário.

 

  

 

(a informação aqui apresentada foi recolhida do "Relatório Final dos Trabalhos Arqueológicos daRua do Instituto Bacteriológico - Necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo", Iola Filipe, Era-Arqueologia, 2005)

Estes trabalhos foram apresentados em:

Filipe, I. & Figueiredo, A., "A necrópole do Convento de Santana (Lisboa): Intervenção de emergência no âmbito da renovação da rede da Epal", no Colóquio Era 5 (2006).

Filipe, I. & Godinho, R., "Dinâmica cultural na Lisboa do Período Moderno: contributo da intervenção arqueológica/ antropológica na necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo", Congresso Português de Arqueologia Empresarial (2008).

E publicados em:

Filipe, I. & Figueiredo, A. (2008), "Necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo : síntese dos preliminar dos resultados arqueológicos e antropológicos", na Revista da Era, nº8, Colibri, Lisboa, p.70-91.

Godinho , R. (2008), "Vestígios de um império passado: a necrópole do colégio de Santo Antão-o-Novo e a Lisboa dos séc. XVI - XVIII", Mestrado em Evolução Humana, Universidade de Coimbra.

Maria João Jacinto


0197 - Era uma vez o património 33

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Quem pode fazer Arqueologia?

 

 

Face à realidade da Arqueologia no nosso tempo, é obviamente insustentável a defesa de que a sua prática só pode ser autorizada a pessoas individuais, fazendo assim tábua rasa das pessoas colectivas, públicas ou privadas, que exercem legalmente essa actividade (ex: universidades, fundações, associações, municípios, museus, empresas). A perpetuação do modelo actualmente em vigor, assente na figura quase solitária do requerente arqueólogo, não é compatível com a profissionalização desta área, nem com a situação dos arqueólogos portugueses, de forma esmagadora integrados em instituições que concretizam projectos de Arqueologia, de que se destacam as empresas especializadas (umas melhor, outras bem pior).

Face ao impacte económico, social e cultural da Arqueologia do nosso tempo; face às implicações legais das responsabilidades inerentes à actuação sobre bens comuns de cariz patrimonial, apenas a co-responsabilização no requerimento de trabalhos arqueológicos entre as partes envolvidas pela execução técnica e científica dará plenas garantias de uma efectiva solidariedade perante tais responsabilidades legais.

Naturalmente, no caso do requerente ser uma instituição vocacionada para a prática arqueológica, deveria ser obrigatória a indicação do Arqueólogo responsável.

Este é um passo que me parece necessário e libertador de constrangimentos para os arqueólogos que, da actual solidão de responsabilidades em que são colocados por entidades para as quais trabalham, passariam a partilhar, para o bem e para o mal, tudo o que resulta da sua actuação conjunta.

De maneira a salvaguardar as questões de qualidade, poderiam ser claramente definidos os requisitos necessários para a credenciação de instituições como entidades requerentes. Mas cuidado, que os requisitos não funcionem como factor propiciador de tentações de cartelização ou de mecanismo de constrangimento ao empreendedorismo dos recém chegados à profissão. Para isso, não contém com a ERA.

Miguel Lago, Fevereiro de 2010

 


 

 

 

Onde é que nos "perdemos"?....

Remonta a 1872 a denominação Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos Portugueses e à década de 60 do mesmo século o período em que foram discutidas as directrizes orientadoras desta associação. Entre outras de cariz mais "arquitectónico", destacam-se: "(...) memórias descritivas dos principais edifícios públicos; criação de um museu de antiguidades arquitectónicas; (...); prelecções sobre história da arte e dos monumentos; exposições de objectos artísticos e de projectos de arquitectura; representações ao Governo sobre a conservação de monumentos históricos e arqueológicos; concurso às exposições internacional portuense de 1865 e universal de Paris em 1867"...em suma, procuravam-se obter verdadeiras medidas de alcance social.

A determinada altura, no início do século XX (1902), com a crescente consciencialização profissional, surge a Sociedade dos Arquitectos Portugueses, que acompanharia o fim da monarquia e, sobretudo, a primeira república. Esta, por sua vez, transforma-se em sindicato, depois, associação e, finalmente, nos anos 90, é homolgado o projecto associativo que dá origem à Ordem dos Arquitectos...Um caminho longo mas que resulta da crescente afirmação e implantação dos arquitectos na sociedade portuguesa, assim como da nova realidade portuguesa decorrente da integração europeia.

A esta altura, coloca-se a questão: no meio deste processo com um arranque tão vibrante, tão cheio de projectos e tão ligado à sociedade, onde é que ficaram os arqueólogos? Onde é que está a classe que foi responsável pela organização de alguns dos eventos culturais de maior importância realizados em Portugal? Onde estão os elementos cuja opinião contava nas horas de decisão governamental?

Sabemos, é claro, que "os tempos são outros", que a conjuntura se alterou, que as oportunidades não se repetem...mas onde é que tem estado a vontade das pessoas? O prazer de se envolverem de, efectivamente, marcarem uma diferença? Não nos referimos a acções pontuais, sem sentido e que, aos olhos da sociedade, parecem "mais mal do que bem". Falamos de acções integradas, reveladoras de uma clara consciência social e que conduzam à implementação de medidas efectivas, à criação de organismos dinâmicos e adaptados à nova realidade.

Numa fase em que surge a necessidade de renovação do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos e onde se observa uma tentativa sincera por parte dos organismos públicos de envolverem todas as partes interessadas em processos decisivos que nos influenciam a todos, porque não "aproveitar a onda" e dirigir esta articulação de interesses para a construção de algo que, efectivamente, nos una e nos confira, novamente, a "força dos outros tempos"?...

Inês Mendes da Silva


0195 - "Ler" na Biblioteca

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Encontram-se em curso os trabalhos arqueológicos na Biblioteca Municipal de Mértola, dando continuidade à intervenção anteriormente realizada naquele espaço pelo Campo Arqueológico de Mértola.

Estes trabalhos enquadram-se numa perspectiva de minimização de impactes sobre o património decorrente das obras de ampliação/remodelação do edifício. Na área a intervencionar foi possível identificar um conjunto de novas estruturas, destacando-se um compartimento de pequenas dimensões cujos níveis de abandono (em fase de escavação) apresentam materiais arqueológicos que se enquadram grosso modo no período Medieval Islâmico / Baixa Idade Média.

Marina Pinto


0194 - Era uma vez o património - 32

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Falta de Visão

A Arqueologia portuguesa está frente a uma janela aberta de oportunidades. Os projectos sucedem-se, os profissionais existem, o mercado funciona, as universidades disponibilizam inúmeros cursos e a tutela prepara um novo enquadramento legal.

Infelizmente, parece faltar uma Visão para o futuro, uma ideia do que se pretende para a Arqueologia e da Arqueologia. Em suma, falta um sonho e uma ambição concreta. Esta incapacidade de assumir o futuro sem ser através das rotinas estabelecidas e do fazer como fazíamos vinca uma tendência para simular a mudança.

O grande problema da Arqueologia em Portugal e em muitos países do mundo é o sentimento da sua limitada utilidade para os processos de conhecimento e a tendencial irrelevância social dos investimentos realizados, nomeadamente na Arqueologia Contratual. É aqui, nestes aspectos, que devemos centrar a ruptura com o passado. Para tanto, a legislação deve assentar nessa Visão de Futuro, preconizando obrigações concretas e aplicáveis, porque claras e objectivas. É nesta fase que a ERA está empenhada: definição de Visão, caminho a seguir e regras a aplicar. Tudo isto porque ambicionamos criar condições para transmitir ao país e aos cidadãos a noção de que os projectos de Arqueologia em que investimos podem dar fortes contributos sociais, económicos e culturais.

Afinal, podemos continuar a desrespeitar e desbaratar a herança que nos legaram as gerações passadas?

 

 

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2010


 

Em 2004 a Era-Arqueologia realizou uma importante intervenção arqueológica no Teatro Gregório Mascarenhas, em Silves. Este trabalho foi dirigido pela Dra. Ana Cristina Ramos e revelou importantes informações sobre a ocupação daquele espaço desde o século XI até à actualidade, com especial entre os séculos XI a XIII.

Na área intervencionada (296 m2) foram identificadas estruturas de carácter doméstico, pavimentos, estruturas de combustão, saneamento básico (como canalizações e uma latrina), lixeiras em fossas e tanques do período islâmico.

 

 

 

 

O conjunto artefactual era composto por uma grande variabilidade de formas de uso doméstico que vão desde os pratos, tigelas, malgas, caçoilas, panelas, púcaros e pucarinhas, bules, cântaros, infusas e alguidares, até aos recipientes de armazenagem como os potes e as grandes talhas. Também os elementos de iluminação encontram-se representados pela presença de diversos candis de diferentes formas e técnicas de produção. Ainda em cerâmica, temos a presença de variados fragmentos de alcatruzes, tampas, marcas de jogo e cossoiros.

 

 

 

 

No que diz respeito a outro tipo de artefactos, foram recuperados diversos elementos de metal de uso pessoal, como é o caso de um anel, ou ainda relacionados com algumas das actividades económicas como sejam a tecelagem, a agricultura e a pesca (entre outros, as diversas pontas de fuso, um dedal, alfinetes, agulhas, uma foice, um sacho e um anzol).

 

 

 

Os recipientes em vidro estão igualmente presentes, mas correspondem a fragmento inclassificáveis e a uma conta de colar em pasta vítrea e alguns bordos pertencentes a recipientes fechados e com gargalo.

Já os artefactos em osso são quase todos relacionados com a tecelagem, nomeadamente, torres de roca e cossoiros. Registou-se ainda um botão de forma bitroncocónica. 

Por último destacam-se os artefactos líticos dos quais se destinguem parte de um molde, um fragmento de peso de rede , diversos projecteis de funda e um tabuleiro de jogo, gravado numa das lajes de arenito de um Pavimento.

De salientar a presença de vestígios relacionados com a alimentação da população, o qual é constituído por fauna malacológica, fauna mamalógica e avifauna.

Os resultados obtidos nesta intervenção permitiram, em parte, preencher a grande lacuna  de informação referente a toda a área exterior da alcáçova do castelo no que respeita às ocupações antigas da cidade de Silves.

 

(a informação aqui apresentada foi recolhida do "Relatório Final dos Trabalhos Arqueológicos no Teatro Gregório Mascarenhas, Silves", Ana Cristina Ramos, Era-Arqueologia, 2004)

Este trabalho foi publicado em:

Ramos, A. C.(2006)- Arqueologia Urbana Em Silves. A Intervenção no Teatro Gregório Mascarenhas. Xelb, Câmara Municipal de Silves, Silves, 6 (Actas do III Encontro de Arqueologia do Algarve).

e apresentada a comunicação "Aspectos do urbanismo islâmico na Silves do século XII: a intervenção no Teatro Gregório Mascarenhas" no Colóquio Era 4 (2005).

Maria João Jacinto


0192 - Era uma vez o Património – 31

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  Mudanças?

 

Luchino Visconti realizou, no início dos anos sessenta, "O Leopardo", adaptando o romance de Tomasi di Lampedusa.

Neste filme, há uma frase tremendamente reveladora de determinados posicionamentos políticos, morais e ideológicos: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude." Isto dito perante as mudanças revolucionárias inerentes ao processo de unificação italiana, protagonizado por Garibaldi.

Esperemos, sem demasiadas expectativas, que o processo actualmente em curso de revisão do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos seja frutuoso. E que as mudanças sejam efectivas, bem ponderadas e capazes de responder às necessidades de implementar em Portugal uma Arqueologia plenamente madura, evoluída e respeitada dos pontos de vista científico, social e profissional.

Voltaremos a este assunto...

 

  

  

Miguel Lago, Fevereiro de 2010


As obras associadas à instalação da ETAR de Chaves e sua rede de saneamento urbano, empreendimento a cargo das Águas de Trás-os-montes e Alto Douro, têm vindo a decorrer desde o mês de Março de 2009. Visando a minimização de impactes destes trabalhos sobre o património arqueológico local, a Era tem vindo a realizar um conjunto de trabalhos arqueológicos na cidade de Chaves, envolvendo diferentes equipas de arqueólogos e antropólogos.

Assim, todos os trabalhos de remoção de terras e revolvimento do subsolo têm vindo a ser alvo de acompanhamento arqueológico, algumas sondagens de diagnóstico foram realizadas em áreas de maior sensibilidade e trabalhos de escavação decorrem ainda em áreas onde foram identificados contextos arqueológicos preservados.

A zona da Madalena, na margem esquerda do Tâmega, destaca-se pela presença de algumas realidades preservadas que conduziram já a realização de diferentes fases de escavação arqueológica, estando presentemente a decorrer trabalhos neste âmbito.

 

 

 

  Figura 1 - Trabalhos de escavação arqueológica na zona da Madalena.

Neste local foram identificados e escavados oito enterramentos humanos associáveis à necrópole de um hospital de campanha contemporâneo das Invasões Francesas, alguns contextos estruturais datados de época Medieval / Moderna (muros e níveis de pavimentação) e também uma possível calçada de época Romana.

 
 
 

Figura 2 - Estruturas identificadas na zona da Madalena.

Inês Simão


0190 - Colóquio ERA 8

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Foi no Sábado passado. Na imagem, a equipa do projecto da Fábrica Romana da Casa do Governador da Torre de Belém a apresentar os resultados do primeiro ano do projecto.

Mais do que tecer considerações sobre o encontro, convida-se os que por aqui passarem a dar a sua opinião (tendo ido ou não, haverá sempre opinião).


0189 - Era uma vez o património 30

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  Novidades do Alqueva

 

 

 

 

 

A ERA tem desenvolvido, desde 1998, um intenso trabalho para a EDIA. Inicialmente, incidindo sobre contextos e problemáticas relacionadas com a área a afectar pela albufeira da Barragem do Alqueva; mais tarde, no âmbito do processo de minimização de impactes sobre o património nas áreas de implantação do vasto sistema de rega e de barragem subsidiárias do Grande Lago. É neste ponto que estamos actualmente envolvidos, decorrendo hoje perto de uma dezena de escavações arqueológicas.

Os grandes avanços ocorridos nestas intervenções têm relação directa com a Pré-história recente, nomeadamente com os fenómenos da morte, sendo hoje evidente que no Baixo Alentejo floresceram sociedades que privilegiavam a deposição dos seus mortos em estruturas subterrâneas.

Nestas regiões o megalitismo é residual e os tholos, monumentos com câmara em falsa cúpula (ou outras soluções de cobertura ainda pouco claras), parecem mais filiados nas estruturas escavadas do que nas soluções arquitectónicas do megalitismo. Se morfologicamente são evidentes especificidades nas sepulturas que têm vindo a ser intervencionadas, no que respeita aos fenómenos culturais que lhes estão inerentes, quase tudo nos continua a escapar.

A ERA tem uma enorme responsabilidade pela frente, devendo ser dados passos seguros para uma Arqueologia verdadeiramente consequente já que, em Portugal, a Arqueologia que decorre deste tipo de processos tende a não ser mais do que um acumular de registos de escavação, muito truncados pelas limitações inerentes às perspectivas que lhes estão a montante.

Esta grande oportunidade de ocorrerem avanços significativos em processos de conhecimento pode e deve ser inserida numa perspectiva de afirmação de uma jovem geração de arqueólogos. Para estes, o desafio é claro: maturação como Arqueólogos e não como meros técnicos de Arqueologia.

 

 

Miguel Lago, Dezembro de 2009


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