O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

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0198 - Revivendo o Passado (2)

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Necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo, Rua do Instituto Bacteriológico, Lisboa

No decorrer do acompanhamento arqueológico para a EPAL , em 2005, na Rua do Instituto Bacteriológico identificaram-se contextos funerários preservados na área de afectação da obra, tendo-se preconizado a escavação integral desses contextos na área a afectar (51,50 m²).

 

 

Os resultados da escavação arqueológica e da pesquisa bibliográfica indicam que a zona intervencionada se reporta à necrópole do Colégio Jesuíta de Santo Antão-o-Novo, fornecendo dados importantes para a caracterização de uma parcela específica da população de Lisboa nos Séculos XVII-XVIII.

Identificaram-se 138 enterramentos, na sua quase totalidade pertencentes ao sexo masculino, no entanto, não correspondem a esqueletos completos, reportando-se muitas vezes simplesmente à parte distal dos membros inferiores ou ao crânio e vértebras cervicais. Destacam-se as seguintes excepções:  as presenças de uma mulher, de um recém-nascido (não se encontram associados) e de um indivíduo não europeu levantam questões para as quais apenas podem ser colocadas hipóteses. Ainda assim, estes elementos funcionam como indicadores de uma complexidade social mais abrangente, que excede o âmbito da estrutura eclesiástica/ colegial que funcionou neste espaço.

 

 

A análise preliminar dos materiais recolhidos na escavação arqueológica da Rua do Instituto Bacteriológico permite verificar a escassez de espólio associado aos enterramentos. A maioria da componente artefactual é proveniente de depósitos cuja formação ocorreu num período em que o espaço já não era utilizado como necrópole, inviabilizando que sejam atribuídas datações. Existem três moedas e apenas duas delas se encontram associadas a enterramentos. O restante espólio nestas condições é muito escasso, resumindo-se a objectos metálicos, alfinetes e um possível anel, e apenas num caso se identificaram contas, provavelmente de rosário.

 

  

 

(a informação aqui apresentada foi recolhida do "Relatório Final dos Trabalhos Arqueológicos daRua do Instituto Bacteriológico - Necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo", Iola Filipe, Era-Arqueologia, 2005)

Estes trabalhos foram apresentados em:

Filipe, I. & Figueiredo, A., "A necrópole do Convento de Santana (Lisboa): Intervenção de emergência no âmbito da renovação da rede da Epal", no Colóquio Era 5 (2006).

Filipe, I. & Godinho, R., "Dinâmica cultural na Lisboa do Período Moderno: contributo da intervenção arqueológica/ antropológica na necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo", Congresso Português de Arqueologia Empresarial (2008).

E publicados em:

Filipe, I. & Figueiredo, A. (2008), "Necrópole do Colégio de Santo Antão-o-Novo : síntese dos preliminar dos resultados arqueológicos e antropológicos", na Revista da Era, nº8, Colibri, Lisboa, p.70-91.

Godinho , R. (2008), "Vestígios de um império passado: a necrópole do colégio de Santo Antão-o-Novo e a Lisboa dos séc. XVI - XVIII", Mestrado em Evolução Humana, Universidade de Coimbra.

Maria João Jacinto


0197 - Era uma vez o património 33

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Quem pode fazer Arqueologia?

 

 

Face à realidade da Arqueologia no nosso tempo, é obviamente insustentável a defesa de que a sua prática só pode ser autorizada a pessoas individuais, fazendo assim tábua rasa das pessoas colectivas, públicas ou privadas, que exercem legalmente essa actividade (ex: universidades, fundações, associações, municípios, museus, empresas). A perpetuação do modelo actualmente em vigor, assente na figura quase solitária do requerente arqueólogo, não é compatível com a profissionalização desta área, nem com a situação dos arqueólogos portugueses, de forma esmagadora integrados em instituições que concretizam projectos de Arqueologia, de que se destacam as empresas especializadas (umas melhor, outras bem pior).

Face ao impacte económico, social e cultural da Arqueologia do nosso tempo; face às implicações legais das responsabilidades inerentes à actuação sobre bens comuns de cariz patrimonial, apenas a co-responsabilização no requerimento de trabalhos arqueológicos entre as partes envolvidas pela execução técnica e científica dará plenas garantias de uma efectiva solidariedade perante tais responsabilidades legais.

Naturalmente, no caso do requerente ser uma instituição vocacionada para a prática arqueológica, deveria ser obrigatória a indicação do Arqueólogo responsável.

Este é um passo que me parece necessário e libertador de constrangimentos para os arqueólogos que, da actual solidão de responsabilidades em que são colocados por entidades para as quais trabalham, passariam a partilhar, para o bem e para o mal, tudo o que resulta da sua actuação conjunta.

De maneira a salvaguardar as questões de qualidade, poderiam ser claramente definidos os requisitos necessários para a credenciação de instituições como entidades requerentes. Mas cuidado, que os requisitos não funcionem como factor propiciador de tentações de cartelização ou de mecanismo de constrangimento ao empreendedorismo dos recém chegados à profissão. Para isso, não contém com a ERA.

Miguel Lago, Fevereiro de 2010

 


 

 

 

Onde é que nos "perdemos"?....

Remonta a 1872 a denominação Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos Portugueses e à década de 60 do mesmo século o período em que foram discutidas as directrizes orientadoras desta associação. Entre outras de cariz mais "arquitectónico", destacam-se: "(...) memórias descritivas dos principais edifícios públicos; criação de um museu de antiguidades arquitectónicas; (...); prelecções sobre história da arte e dos monumentos; exposições de objectos artísticos e de projectos de arquitectura; representações ao Governo sobre a conservação de monumentos históricos e arqueológicos; concurso às exposições internacional portuense de 1865 e universal de Paris em 1867"...em suma, procuravam-se obter verdadeiras medidas de alcance social.

A determinada altura, no início do século XX (1902), com a crescente consciencialização profissional, surge a Sociedade dos Arquitectos Portugueses, que acompanharia o fim da monarquia e, sobretudo, a primeira república. Esta, por sua vez, transforma-se em sindicato, depois, associação e, finalmente, nos anos 90, é homolgado o projecto associativo que dá origem à Ordem dos Arquitectos...Um caminho longo mas que resulta da crescente afirmação e implantação dos arquitectos na sociedade portuguesa, assim como da nova realidade portuguesa decorrente da integração europeia.

A esta altura, coloca-se a questão: no meio deste processo com um arranque tão vibrante, tão cheio de projectos e tão ligado à sociedade, onde é que ficaram os arqueólogos? Onde é que está a classe que foi responsável pela organização de alguns dos eventos culturais de maior importância realizados em Portugal? Onde estão os elementos cuja opinião contava nas horas de decisão governamental?

Sabemos, é claro, que "os tempos são outros", que a conjuntura se alterou, que as oportunidades não se repetem...mas onde é que tem estado a vontade das pessoas? O prazer de se envolverem de, efectivamente, marcarem uma diferença? Não nos referimos a acções pontuais, sem sentido e que, aos olhos da sociedade, parecem "mais mal do que bem". Falamos de acções integradas, reveladoras de uma clara consciência social e que conduzam à implementação de medidas efectivas, à criação de organismos dinâmicos e adaptados à nova realidade.

Numa fase em que surge a necessidade de renovação do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos e onde se observa uma tentativa sincera por parte dos organismos públicos de envolverem todas as partes interessadas em processos decisivos que nos influenciam a todos, porque não "aproveitar a onda" e dirigir esta articulação de interesses para a construção de algo que, efectivamente, nos una e nos confira, novamente, a "força dos outros tempos"?...

Inês Mendes da Silva


0195 - "Ler" na Biblioteca

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Encontram-se em curso os trabalhos arqueológicos na Biblioteca Municipal de Mértola, dando continuidade à intervenção anteriormente realizada naquele espaço pelo Campo Arqueológico de Mértola.

Estes trabalhos enquadram-se numa perspectiva de minimização de impactes sobre o património decorrente das obras de ampliação/remodelação do edifício. Na área a intervencionar foi possível identificar um conjunto de novas estruturas, destacando-se um compartimento de pequenas dimensões cujos níveis de abandono (em fase de escavação) apresentam materiais arqueológicos que se enquadram grosso modo no período Medieval Islâmico / Baixa Idade Média.

Marina Pinto


0194 - Era uma vez o património - 32

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Falta de Visão

A Arqueologia portuguesa está frente a uma janela aberta de oportunidades. Os projectos sucedem-se, os profissionais existem, o mercado funciona, as universidades disponibilizam inúmeros cursos e a tutela prepara um novo enquadramento legal.

Infelizmente, parece faltar uma Visão para o futuro, uma ideia do que se pretende para a Arqueologia e da Arqueologia. Em suma, falta um sonho e uma ambição concreta. Esta incapacidade de assumir o futuro sem ser através das rotinas estabelecidas e do fazer como fazíamos vinca uma tendência para simular a mudança.

O grande problema da Arqueologia em Portugal e em muitos países do mundo é o sentimento da sua limitada utilidade para os processos de conhecimento e a tendencial irrelevância social dos investimentos realizados, nomeadamente na Arqueologia Contratual. É aqui, nestes aspectos, que devemos centrar a ruptura com o passado. Para tanto, a legislação deve assentar nessa Visão de Futuro, preconizando obrigações concretas e aplicáveis, porque claras e objectivas. É nesta fase que a ERA está empenhada: definição de Visão, caminho a seguir e regras a aplicar. Tudo isto porque ambicionamos criar condições para transmitir ao país e aos cidadãos a noção de que os projectos de Arqueologia em que investimos podem dar fortes contributos sociais, económicos e culturais.

Afinal, podemos continuar a desrespeitar e desbaratar a herança que nos legaram as gerações passadas?

 

 

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2010


 

Em 2004 a Era-Arqueologia realizou uma importante intervenção arqueológica no Teatro Gregório Mascarenhas, em Silves. Este trabalho foi dirigido pela Dra. Ana Cristina Ramos e revelou importantes informações sobre a ocupação daquele espaço desde o século XI até à actualidade, com especial entre os séculos XI a XIII.

Na área intervencionada (296 m2) foram identificadas estruturas de carácter doméstico, pavimentos, estruturas de combustão, saneamento básico (como canalizações e uma latrina), lixeiras em fossas e tanques do período islâmico.

 

 

 

 

O conjunto artefactual era composto por uma grande variabilidade de formas de uso doméstico que vão desde os pratos, tigelas, malgas, caçoilas, panelas, púcaros e pucarinhas, bules, cântaros, infusas e alguidares, até aos recipientes de armazenagem como os potes e as grandes talhas. Também os elementos de iluminação encontram-se representados pela presença de diversos candis de diferentes formas e técnicas de produção. Ainda em cerâmica, temos a presença de variados fragmentos de alcatruzes, tampas, marcas de jogo e cossoiros.

 

 

 

 

No que diz respeito a outro tipo de artefactos, foram recuperados diversos elementos de metal de uso pessoal, como é o caso de um anel, ou ainda relacionados com algumas das actividades económicas como sejam a tecelagem, a agricultura e a pesca (entre outros, as diversas pontas de fuso, um dedal, alfinetes, agulhas, uma foice, um sacho e um anzol).

 

 

 

Os recipientes em vidro estão igualmente presentes, mas correspondem a fragmento inclassificáveis e a uma conta de colar em pasta vítrea e alguns bordos pertencentes a recipientes fechados e com gargalo.

Já os artefactos em osso são quase todos relacionados com a tecelagem, nomeadamente, torres de roca e cossoiros. Registou-se ainda um botão de forma bitroncocónica. 

Por último destacam-se os artefactos líticos dos quais se destinguem parte de um molde, um fragmento de peso de rede , diversos projecteis de funda e um tabuleiro de jogo, gravado numa das lajes de arenito de um Pavimento.

De salientar a presença de vestígios relacionados com a alimentação da população, o qual é constituído por fauna malacológica, fauna mamalógica e avifauna.

Os resultados obtidos nesta intervenção permitiram, em parte, preencher a grande lacuna  de informação referente a toda a área exterior da alcáçova do castelo no que respeita às ocupações antigas da cidade de Silves.

 

(a informação aqui apresentada foi recolhida do "Relatório Final dos Trabalhos Arqueológicos no Teatro Gregório Mascarenhas, Silves", Ana Cristina Ramos, Era-Arqueologia, 2004)

Este trabalho foi publicado em:

Ramos, A. C.(2006)- Arqueologia Urbana Em Silves. A Intervenção no Teatro Gregório Mascarenhas. Xelb, Câmara Municipal de Silves, Silves, 6 (Actas do III Encontro de Arqueologia do Algarve).

e apresentada a comunicação "Aspectos do urbanismo islâmico na Silves do século XII: a intervenção no Teatro Gregório Mascarenhas" no Colóquio Era 4 (2005).

Maria João Jacinto


0192 - Era uma vez o Património – 31

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  Mudanças?

 

Luchino Visconti realizou, no início dos anos sessenta, "O Leopardo", adaptando o romance de Tomasi di Lampedusa.

Neste filme, há uma frase tremendamente reveladora de determinados posicionamentos políticos, morais e ideológicos: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude." Isto dito perante as mudanças revolucionárias inerentes ao processo de unificação italiana, protagonizado por Garibaldi.

Esperemos, sem demasiadas expectativas, que o processo actualmente em curso de revisão do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos seja frutuoso. E que as mudanças sejam efectivas, bem ponderadas e capazes de responder às necessidades de implementar em Portugal uma Arqueologia plenamente madura, evoluída e respeitada dos pontos de vista científico, social e profissional.

Voltaremos a este assunto...

 

  

  

Miguel Lago, Fevereiro de 2010


As obras associadas à instalação da ETAR de Chaves e sua rede de saneamento urbano, empreendimento a cargo das Águas de Trás-os-montes e Alto Douro, têm vindo a decorrer desde o mês de Março de 2009. Visando a minimização de impactes destes trabalhos sobre o património arqueológico local, a Era tem vindo a realizar um conjunto de trabalhos arqueológicos na cidade de Chaves, envolvendo diferentes equipas de arqueólogos e antropólogos.

Assim, todos os trabalhos de remoção de terras e revolvimento do subsolo têm vindo a ser alvo de acompanhamento arqueológico, algumas sondagens de diagnóstico foram realizadas em áreas de maior sensibilidade e trabalhos de escavação decorrem ainda em áreas onde foram identificados contextos arqueológicos preservados.

A zona da Madalena, na margem esquerda do Tâmega, destaca-se pela presença de algumas realidades preservadas que conduziram já a realização de diferentes fases de escavação arqueológica, estando presentemente a decorrer trabalhos neste âmbito.

 

 

 

  Figura 1 - Trabalhos de escavação arqueológica na zona da Madalena.

Neste local foram identificados e escavados oito enterramentos humanos associáveis à necrópole de um hospital de campanha contemporâneo das Invasões Francesas, alguns contextos estruturais datados de época Medieval / Moderna (muros e níveis de pavimentação) e também uma possível calçada de época Romana.

 
 
 

Figura 2 - Estruturas identificadas na zona da Madalena.

Inês Simão


0190 - Colóquio ERA 8

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Foi no Sábado passado. Na imagem, a equipa do projecto da Fábrica Romana da Casa do Governador da Torre de Belém a apresentar os resultados do primeiro ano do projecto.

Mais do que tecer considerações sobre o encontro, convida-se os que por aqui passarem a dar a sua opinião (tendo ido ou não, haverá sempre opinião).


0189 - Era uma vez o património 30

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  Novidades do Alqueva

 

 

 

 

 

A ERA tem desenvolvido, desde 1998, um intenso trabalho para a EDIA. Inicialmente, incidindo sobre contextos e problemáticas relacionadas com a área a afectar pela albufeira da Barragem do Alqueva; mais tarde, no âmbito do processo de minimização de impactes sobre o património nas áreas de implantação do vasto sistema de rega e de barragem subsidiárias do Grande Lago. É neste ponto que estamos actualmente envolvidos, decorrendo hoje perto de uma dezena de escavações arqueológicas.

Os grandes avanços ocorridos nestas intervenções têm relação directa com a Pré-história recente, nomeadamente com os fenómenos da morte, sendo hoje evidente que no Baixo Alentejo floresceram sociedades que privilegiavam a deposição dos seus mortos em estruturas subterrâneas.

Nestas regiões o megalitismo é residual e os tholos, monumentos com câmara em falsa cúpula (ou outras soluções de cobertura ainda pouco claras), parecem mais filiados nas estruturas escavadas do que nas soluções arquitectónicas do megalitismo. Se morfologicamente são evidentes especificidades nas sepulturas que têm vindo a ser intervencionadas, no que respeita aos fenómenos culturais que lhes estão inerentes, quase tudo nos continua a escapar.

A ERA tem uma enorme responsabilidade pela frente, devendo ser dados passos seguros para uma Arqueologia verdadeiramente consequente já que, em Portugal, a Arqueologia que decorre deste tipo de processos tende a não ser mais do que um acumular de registos de escavação, muito truncados pelas limitações inerentes às perspectivas que lhes estão a montante.

Esta grande oportunidade de ocorrerem avanços significativos em processos de conhecimento pode e deve ser inserida numa perspectiva de afirmação de uma jovem geração de arqueólogos. Para estes, o desafio é claro: maturação como Arqueólogos e não como meros técnicos de Arqueologia.

 

 

Miguel Lago, Dezembro de 2009


0188 - Vasos comunicantes

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A propósito da temática da abordagem cultural à "alimentação" em Pré-História Recente, Mike Parker Pearson, escrevia, em 2003, sobre a necessidade de uma sinergia "to further integrate the "two cultures" - theoretical /humanistic and technical/scientific - which still divide archaeology both practically and institutionally".

Esta divisão, mais não traduz a manutenção de uma compartimentação na organização administrativa da produção de conhecimento com raízes medievais. Por várias vezes já sublinhei que o que a ciência produz, o seu tipo de conhecimento (olhem que há outras formas de conhecer), não resulta só daquilo que estuda, dos conceitos e modelos que utiliza e dos métodos a que recorre para estudar, mas também da maneira como se estrutura e organiza. Ou seja, da forma como se compartimenta em disciplinas, da forma como agrupa umas nuns edifícios e outras noutros, na forma como financia umas e outras, na forma como organiza a reprodução da sua própria matéria humana, das instituições que a praticam, etc. (Há um longo texto na secção de Publicações / Citações, sobre o assunto).

Ora uma das razões (não seguramente a única) do fosso entre as duas culturas a que Pearson se refere é precisamente a forma como administrativamente as disciplinas se agrupam e se formam as relações de vizinhança.

Hoje, em vários países, tem-se procurado ultrapassar os malefícios destas compartimentações e destes "gulags" disciplinares, através de uma organização não disciplinar mas temática: juntam-se pessoas de distintas origens disciplinares para tratarem um problema, um grande tema. Mas não se juntam para uma reunião. Juntam-se administrativamente, na organização institucional. Os resultados são maior transdisciplinaridade.

Em Portugal, contudo, isso seria pouco viável, pois impera a compartimentação: nas instituições e nas mentes. O caso da Arqueologia é evidente. De um lado critica-se quem procura ligar uma investigação sobre o Homem (e o Homem é o assunto da Arqueologia) às ciências sociais: esses ratos de biblioteca, sempre a filosofar e a especular. A Arqueologia torna-se menos científica dizem. Do outro, a crítica aos que pretendem fazer do Arqueólogo um rato de laboratório, que nas suas sortidas de campo mais parece um agente do CSI e que pensa que o Homem apenas se conhece na lamela de um microscópio.  Claro que há uma terceira categoria, talvez até maioritária, mas essa não é evocada na equação de Parker Pearson e por isso a deixo de lado.

De um lado pensa-se que se pode falar de ritual, de símbolo, de hierarquia, de arquitectura, de morte, de lixo, de caça, de paisagem, de interacção, de identidade, ou até de periodização, sem passar os olhos sequer por um livro de antropologia, de sociologia, de psicologia social ou filosofia. Do outro pensa-se que se pode falar daquilo tudo sem prestar grande atenção às tafonomias, às dinâmicas geomorfológicas, à natureza dos materiais, à correcta determinação da sua origem, à as tecnologias através dos quais foram trabalhados, ao rigor da construção dos dados empíricos (mesmo quando estes já são percebidos como não absolutamente objectivos).

É fácil, ou deveria ser, perceber a ingenuidade da dicotomia e parece quase tempo perdido argumentar sobre a necessidade de a ultrapassar. É mesmo estranho que o problema se continue a colocar, o que só pode ser explicado pelo facto de essas duas vertentes do pensamento/actividade em Arqueologia (chamemos-lhes assim) não serem duas, mas três, esquecendo-se muito frequentemente essa terceira: a gnoseologia e a epistemologia, ou seja a teoria do conhecimento em geral (não confundir com qualquer pretensão a uma teoria geral do conhecimento) e a teoria do conhecimento em ciência. Fossem estas mais estudadas pela Arqueologia Portuguesa e mais facilmente aquela dicotomia seria ultrapassada.

É estranho que quem se quer dedicar a produzir conhecimento, não se preocupe com o debate sobre o que é conhecer e como se produz conhecimento. É como produzir chouriços sem se preocupar em ter uma ideia sobre o que é um chouriço.

Pensar o que é conhecer, pensar o que é conhecer cientificamente, pensar o que é conhecer na disciplina Arqueologia deveria ser trajecto percorrido, mesmo que de forma não muito profunda, por quem reclama que faz ou quer fazer ciência em Arqueologia (ou em qualquer outro campo disciplinar).

Perceber-se-ia, talvez com mais facilidade, o problema da dupla hermenêutica quando se estuda o Homem; problema que não é duplo, mas mono, quando se estudo o objecto em si. E que as Arqueometrias ou as ditas Arqueociências lidam essencialmente com o segundo e a Arqueologia, enquanto Ciência Social, lida essencialmente com o primeiro. Mas que a dicotomia não é mais que dualidade. Perceber-se-ia, finalmente, que a especialização, sem uma preocupação de manter a ligação ao global, dá origem ao especialista ignorante.

Quanto à tendência que, neste país, irá engordar e à que irá emagrecer, estou em crer que é uma questão dos que conseguirem aceder e controlar o poder. Porque a produção de conhecimento científico é também, e muito, uma questão de poder. Por mais que os cientistas se pretendam "isentos", imaculadamente sérios, extraídos ao seu mundo e às virtudes e defeitos do comum dos mortais, estarão aí sempre os "climategates" para lhes lembrar que não é assim. Algo que muitas filosofias há muito ensinam e as práticas também.  

Por mim, estaria interessado em criar um grupo que se interessasse por estudar o problema da Ontologia na Pré-História Recente. Um problema vasto, pois engloba a visão que o Homem tem do mundo, de si próprio, das outras entidades (animais, objectos, elementos da paisagem, etc.) e central para se tentar compreender o que fez e como fez. Este seria um assunto que Childe consideraria para além das possibilidades da Arqueologia, opinião que muitos ditos arqueocientistas perfilham (embora, sem considerarem o problema, estejam constantemente a falar do que o homem pensava e entendia). Mas muitos têm demonstrado ser um campo possível para a disciplina. Mas para uma disciplina que ultrapasse essa paralisante dicotomia. Pois uma abordagem científica a esta temática só poderá ser disciplinarmente inclusiva, permitindo ultrapassar os excessos especulativos e os excessos tecnocratas e de senso comum. Quem se mostrar interessado que o diga.


0187 - Auroque

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Escavação de uma acumulação de ossos queimados numa depressão ou fossa no sítio do Carrascal 2 (Ferreira do Alentejo). Possivelmente são ossos de um auroque e os materiais que integram e envolvem a estrutura são sobretudo líticos e paracem apontar para um momento recuado do Neolítico.

Ao lado deste contexto, uma intensa reutilização deste lugar como necrópole calcolítica.

(Escavações da ERA, dirigidas por Helena Santos, para a EDIA, S.A.)


0186 - Marfim nos Perdigões e Sobreira de Cima

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Os sepulcros 1 e 2 dos Perdigões estão repletos de objectos em marfim. Mais de trezentos registos individuais, referentes a uma grande variedade de artefactos, entre os quais se contam as várias estatuetas de animais.

Na semana passada, Thomas Schuhmacher, do Instituto Arqueológico Alemão de Madrid (investigador que há muito trabalha a questão da presença de marfim no Neolítico e Calcolítico peninsulares), esteva na ERA e na exposição da Torre do Esporão em reguengos de Monsaraz para realizar um primeiro inventário destes materiais. É mais uma via de investigação que se abre para os Perdigões.

 

 

T. Schuhmacher rodeado de contentores com objectos em marfim. 

Mas também nos hipogeus da Sobreira de Cima foram identificados objectos em marfim, o que, no caso do Sepulcro 1, faz recuar ao Neolítico Final (datado pelo radiocarbono) a presença de artefactos nesta matéria-prima no interior do território hoje português. Uma primeira nota sobre o mafim da Sobreira de Cima será em breve publicada.

António Valera

 


0185 - Era uma vez o património - 29

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Arqueologia participada

 

 

 

 

 

O projecto que a ERA concretizou para a paróquia da Igreja da Ota, relativo a escavações arqueológicas de diagnóstico na igreja daquela vila, foi enquadrado por uma estratégia de grande visibilidade pública.

Os trabalhos foram acompanhados de forma permanente e muito intensa num Blog (http://obrasdaigrejadaota.blogspot.com/), especificamente criado para acompanhar as obras de reabilitação em curso. Esta estratégia partiu da paróquia, em particular do Padre Manuel Silva, seu grande dinamizador. Para além disso, os trabalhos foram visitados diariamente pela população local que sempre mostrou um enorme interesse, curiosidade e respeito pelo decorrer dos trabalhos. Daí que não surpreendesse a participação de vários voluntários que, de forma espontânea e empenhada contribuíram para obter resultados muito relevantes do ponto de vista científico e patrimonial.

O que aconteceu na Ota em termos de participação pública no decorrer dos trabalhos de reabilitação vai prosseguir ao longo de todo o projecto. Todos vão acompanhar as intervenções das mais diversas especialidades, quem as faz, com que metodologias, durante quanto tempo e por que custo. E mais, todos vão sabendo os resultados obtidos e qual a sua relevância. Isto é uma verdadeira Arqueologia Pública; e reflecte uma sociedade madura do ponto de vista da cidadania.

A ERA colaborou em todos os passos de forma empenhada e entusiástica; aliás, no próximo Sábado, dia 17 de Outubro, pelas 16h, decorrerá no Centro Social da Ota, uma apresentação do Relatório Final dos Trabalhos arqueológicos. Para além de uma palestra da responsabilidade de Susana Pires, responsável científica da intervenção, será aberto um debate com a população sobre os resultados obtidos, tal como será possível observar alguns dos mais relevantes materiais arqueológicos recolhidos.

O que se passa na Ota é exemplar. O Património só é relevante quando a sua vivência se enraíza numa comunidade. É este tipo de participação que urge criar. E não é difícil.

Miguel Lago, Outubro de 2009


0184 - Era uma vez o património - 28

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Revolução em curso

 

 

 

 

Poucos sabem que está em curso uma revolução no conhecimento sobre a Pré-história recente do Sul de Portugal. Do Neolítico à Idade do Bronze é incrível o que se está a passar. As grandes obras públicas assim o ditam, principalmente as da EDIA. De fora, ficam milhares de hectares de terrenos agrícolas, principalmente de plantação de novos olivais, nos quais nada é feito em termos de salvaguarda do património arqueológico ali situado e afectado.

Podia ser realizado um trabalho mais profundo e mais consequente? Sem dúvida e a ERA não o esquece. No entanto, a tutela da Arqueologia é, no nosso país, pouco exigente, as universidades desfasadas da realidade, e a generalidade dos profissionais mal preparados pelas escolas para ir mais além de rotinas técnicas. Como resolver o problema? Com formação contínua complementar e apoio de arqueólogos mais experientes aos processos de pesquisa em curso. Para tanto, todos temos que ter espírito de missão, vontade de aprender e humildade de ensinar. Mas principalmente, precisamos de convicção e de acreditar que vale a pena passar da constatação dos problemas à acção para mudar a realidade (de diagnósticos já estamos cansados!). Está nas nossas mãos; caso contrário, resta aguardar pelo decreto governamental...

 

 

 

 

 

 

As imagens referem-se a contextos funerários diversos, incorporando arquitecturas subterrâneas e recintos cercados por fossos. É urgente divulgar.

Miguel Lago, Outubro de 2009


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