O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

Entrada

0225 - Ainda o projecto dos recintos de fossos

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Afinal ainda podem hoje dar uma espreitadela aos resultados, tal como nós os estávamos a ver há pouco.

 

Uma vez mais... notáveis.


0224 - Projecto arqueoastronomia (Gulbenkian)

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Recomeçaram as prospecções geofísicas no âmbito dos projecto sobre os fundamentos cosmológicos de recintos Neolíticos e Calcolíticos, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkiam, da responsabilidade de António Valera, Helmut Beker, Gracia Rodriguez e Javier Mejuto.

 

 

Estamos agora no sítio de Moreiros 2 (Arronches), onde Rui Boaventura (que também está a integrar os trabalhos de campo, juntamente com Nelson Cabaço) havia identificado dois fossos nos cortes de uma saibreira.

Os trabalhos começaram ontem. Ainda não tenho imagens para vos mostrar sobre os resultados (talvez amanhã), mas superam todas as expectativas. Estamos em presença de mais um complexo sistema de recintos de fossos, que já vão num número mínimo de 5, lineares e sinuosos, com várias entradas, e que abrangem uma área inicialmente insuspeita.

O plano inicial já "era".

Mas posso mostrar- vos outra novidade: em torno ao sítio surgem inúmeras rochas gravadas com covinhas, as quais têm uma disposição aparentemente em círculo ao redor dos recinto. E se digo aparentemente é porque hoje à tarde "apareceram" mais dois que podem muito bem integrar alguns desses núcleos de gravações.

Deixo aqui a imagem de um dos mais interessantes (que, mesmo sem limpeza, é fantástico).


0223 - Era uma vez o património - 46

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O cerne da questão

 

 

De repente, a APA - Associação Profissional de Arqueólogos deu sinal de vida.

De facto, surpreendentemente, fomos informados da assinatura de um protocolo entre a APA e um concessionário da Peugeot.

Depois de meses e meses, ficámos a saber qual a agenda que justificou tão prolongado silêncio: a partir de agora, estão resolvidos os problemas de transporte dos arqueólogos portugueses (os de alojamento já tinham sido tratados através de um outro protocolo).

Extraordinário!!


0222 - Xancra

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Xancra, Cuba, Beja. Um notável recinto de fossos calcolítico (3º milénio AC) identificado através de prospecções geofísicas. Implantado a meio de uma suave vertente virada a Este, a sua orientação astronómica é evidente, com as entradas dos três recintos alinhadas ao solstício de Inverno.

O seu design é igualmente notável, revelando uma intencionalidade cujo sentido está ainda por esclarecer, mas que dificilmente encontrará respostas em razões de carácter estritamente funcionalista. Provavelmente, estará mais próximo de um Stonehenge, que do "saco" onde, acriticamente, muita gente continua a meter todos os contextos deste género (povoados). Xancra, estou em crer, irá no futuro contribuir para alargar horizontes.

A imagem de Xancra (sítio ainda não escavado e aparentemente em notáveis condições de preservação) revela um dos mais belos recintos de fossos da Península Ibérica e mesmo do continente europeu, onde estes contextos são tão frequentes, como desconhecidos do grande público. Espera-se, agora, que seja possível protegê-lo e ganhá-lo para a ciência e para o senso comum.

O texto onde se publicam os trabalhos de geofísica pode ser encontrado na Revista Apontamentos de Arqueologia e Património nº7, na secção de publicações.

 


0221 - Era uma vez o Património – 45

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A solidão do arqueólogo e (ir)responsabilidade em Arqueologia

 

A actual legislação da Arqueologia portuguesa incorpora uma regra que atribui o licenciamento de projectos única e exclusivamente a arqueólogos.

Hoje a Arqueologia é, eminentemente, uma actividade de equipas e de projectos enquadrados por instituições públicas ou privadas. Para estas últimas, de que se destacam as empresas especializadas, trabalhará uma percentagem muito elevada de arqueólogos que nelas realizam a esmagadora maioria dos projectos.

Se esta é a realidade, deveria ser alterado o actual sistema de licenciamento, criando a possibilidade de entidades colectivas vocacionadas para a Arqueologia poderem ser autorizadas a realizar projectos. Naturalmente, em tal caso, deveria ser sempre exigida a indicação expressa do arqueólogo responsável técnica e cientificamente pela sua direcção. Só assim seria possível co-responsabilizar as entidades que enquadram os arqueólogos e que, na prática, os condicionam no exercício da sua profissão.

Para as "más" empresas, o actual estado de coisas favorece o incumprimento de compromissos assumidos com os arqueólogos (que raramente com elas têm contratos), potencia o não pagamento de trabalhos já realizados ou por realizar (relatórios, tratamento de materiais,...) e permite o descartar todas as responsabilidades legais quando surgem problemas patrimoniais, técnicos, científicos ou mesmo de segurança no trabalho.  Mais confortável para os responsáveis de tais instituições não poderia existir: problemas, que os tratem os arqueólogos responsáveis directamente com o IGESPAR, a sua tutela.

Quanto aos arqueólogos, parecem ter medo de perder protagonismo, autonomia e poder. Pura ilusão: na maioria dos casos, talvez lhes reste apenas a silenciosa solidão de quem está esmagado pelas pressões e pelas redes de dependência e submissão.

(Terá a direcção da APA opinião sobre este assunto? E o Grupo de Trabalho para a criação de um sindicato dos arqueólogos?)

Miguel Lago, Dezembro de 2010


0220 - Marfim

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 (Estatueta em marfim de cervídeo, proveniente do Sepulcro 2 dos Perdigões)

Hoje, na Associação dos Arqueólogos Portugueses (Museu do Carmo, Lisboa), pelas 18 horas, Thomas Schuhmacher (do Instituto Arqueológico Alemão de Madrid) irá apresentar uma conferência relativa à sua investigação sobre a utilização do marfim na Pré-História Recente ibérica, a convite do Núcleo de Investigação Arqueológica da ERA Arqueologia. Entre outros sítios abordados, estarão os Perdigões, cujos sepulcros 1 e 2 proporcionaram uma das maiores colecções de objectos em marfim desta época em território português. No calcolítico peninsular são hoje conhecidos objectos fabricados sobre marfins de elefante africano, marfim fóssil de Elephus antiquus, sobre marfim de cachalote e até sobre marfins de elefante asiático.

Para mim, contudo, mais interessante que os objectos é a questão relativa ao que significaria o marfim para aquelas gentes: conheceriam o animal? que lugar lhe reservavam no seu ideário? veriam na matéria-prima as propriedades e essências que eventualmente reconheceriam ao animal? Ou era simples matéria-prima valorizada por razões estéticas e pela sua raridade?

Questões que coloquei num texto sobre lúnulas em marfim dos Perdigões (http://www.nia-era.org/component/option,com_docman/task,doc_download/gid,78/Itemid,55/) e noutro que agora estou a redigir sobre as pequenas estatuetas de animais, também elas provenientes dos sepulcros 1 e 2 daquele sítio. A matéria-prima raramente é só isso e nas antigas sociedades pré-históricas ainda menos o seria. Têm propriedades, qualidades, essências, que as tornam activas no palco da vida social. Propriedades e qualidades que frequentemente são relacionadas com a origem (a montanha, a floresta, o rio, o animal, etc.) e com os significados que lhe são reservados por crenças e perspectivas do mundo.

António Valera


0219 - Era uma vez o património - 44

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Onde está a APA?

 

É com grande estranheza que tenho acompanhado a evolução da APA - Associação Profissional de Arqueólogos, nomeadamente ao nível da sua débil actividade pública. Sem grande esforço, apenas recordo um recente encontro sobre questões relacionadas com higiene e segurança no trabalho...

São tantos os problemas da profissão que é quase absurdo que a APA não seja motivada para actuar em múltiplos momentos e em diversificadas frentes; essa deveria ser a postura de acção assumida por qualquer direcção proposta e eleita.

Onde estão as preocupações com as questões da formação de base dos arqueólogos e com as dúbias regras de acesso e exercício da profissão impostas pela tutela da arqueologia e pelas universidades?

Quando se discutirão a fundo as responsabilidades legais dos arqueólogos em contraste com a irresponsabilidade e impunidade das empresas de Arqueologia para as quais trabalham?

Que dizer do silêncio que impera relativamente aos problemas que muitos arqueólogos têm em receber o trabalho realizado ou em assegurar as condições de trabalho que lhes permitam cumprir as obrigações legais que sob eles imperam?

A APA já realizou estudos sobre a Arqueologia realizada por autarquias e ensaiou, sem resultados palpáveis, um estudo sobre as empresas desta área; para quando um estudo de fundo e um diagnóstico consistente sobre os profissionais de Arqueologia? Quem são? Quantos são? Que problemas têm? O que ambicionam? Como, onde e em que condições exercem a sua profissão?

Que objectivos estratégicos se pretende para o nosso Património e para Arqueologia portuguesa? Como os prosseguir e alcançar? Que aprendizagem se pode adquirir através de contactos com outras arqueologias? Que contactos se têm estabelecido com associações similares de outros países?

Como resolver a fraca relação estabelecida entre os arqueólogos e a sociedade e como alcançar uma cada vez mais necessária e urgente Arqueologia Pública? É ela defendida pelos profissionais e pela sua Associação?

Pistas para acção existem muitas, muitas mais do que estas. E é responsabilidade da actual direcção dinamizar esta associação e os seus associados. Seguramente, vale a pena o esforço.

Miguel Lago, Novembro de 2010


0218 - ARQUEOLOGIA DE “MÃOS DADAS” COM A ARQUITECTURA

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O caso da Ribeira das Naus

Este Verão procedeu-se à realização de uma campanha de sondagens mecânicas em áreas referentes ao antigo Arsenal da Marinha, nomeadamente na Doca da Caldeirinha, na Doca Seca e no espaço compreendido entre estas duas docas, com vista a dar resposta às solicitações da equipa de arquitectos que se encontra a  produzir o projecto de reabilitação daquela zona ribeirinha e, desta forma, adaptar o futuro projecto o mais possível à realidade existente.

 

 

 

Com a realização destes trabalhos foi possível aferir a existência das estruturas (dado o conhecimento prévio, sabia-se que as mesmas haviam sido aterradas aquando da desactivação desta área portuária), o estado de conservação das mesmas e a sua localização objectiva.

O projecto de arquitectura, à medida que os novos dados surgiam, foi sendo adequado à realidade observada.

 

 

A cartografia dos séc. XIX e XX revelou-se fundamental para a realização do trabalho no que respeita à identificação e relocalização das estruturas.

Inês Mendes da Silva


0217 - Perdigões: geomagnética

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Depois de apresentada no colóquio da ERA, em Lisboa, e no congresso do memorial Siret em Espanha, a geofísica dos Perdigões foi hoje apresentada e comentada no colóquio de Silves (dedicado às arqueociências).

Trata-se de uma imagem reveladora da complexidade do conjunto de recintos e da grande quantidade de estruturas negativas (fossas e outras) existentes no seu interior.

O Programa de Investigação Arqueológica dos Perdigões dispõe agora de uma notável ferramenta de planeamento da investigação, para além de um conjunto de novas problemáticas levantadas pela análise crítica desta imagem e do seu relacionamento com os dados obtidos em escavação.

Trata-se de um trabalho realizado no âmbito da colaboração da Universidade de Málaga na investigação dos Perdigões e financiado pela Conselhadoria da Cultura da Junta da Andaluzia e com apoio da ERA Arqueologia S.A. e Esporão S.A..

Referências:

MÁRQUEZ ROMERO, J.E.; VALERA, A.C., BECKER, H.; JIMÉNEZ JÁIMEZ, V. e SUÁREZ PADILLA, J. (no prelo), "El complexo arqueológico dos Perdigões (Reguengos de Monsaraz, Portugal). Prospecciones geofísicas - campañas de 2008-09", Trabajos de Prehistoria, Madrid.

VALERA, A. C., MÁRQUEZ ROMERO, J.E., BECKER, H.; JIMÉNEZ JÁIMEZ, V. e SUÁREZ PADILLA, J. (no prelo), "O complexo arqueológico dos Perdigões: nova imagem e novos problemas proporcionados pela prospecção geofísica", Actas do 8º Congresso de Arqueologia do Algarve, XELB.

António Carlos Valera


0216 - Era uma vez o Património – 43

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Em tempos de crise, mudança de paradigma?

 

 O processo de acompanhamento de obras que a ERA-Arqueologia protagonizou na Concessão do Litoral Oeste é ímpar na Arqueologia portuguesa, nomeadamente ao nível da qualificação da equipa e respectivo dimensionamento. Este é mesmo, em minha opinião, um caso de estudo no que respeita às questões de abordagem metodológica, técnica e científica de projectos de Arqueologia associados a grandes obras públicas.

É importante dizer que a esmagadora maioria de obras de dimensão semelhante (para não dizer todas) que ocorrem neste momento em Portugal não disponibilizam, à vertente de Arqueologia, os meios financeiros passíveis de garantir quadros devidamente qualificados que sustentem uma adequada orientação e execução técnica e científica dos projectos concretizados.

Como consequência imediata dessas insuficiências, assiste-se a um progressivo acumular de investimentos financeiros em processos de minimização de impactes sobre o património arqueológico sem resultados proporcionais ao nível de avanços reais nos processos de conhecimento sobre as antigas ocupações humanas do nosso território. Porquê? Porque sem um adequado enquadramento dos projectos de minimização em problemáticas de investigação científica, persistirá um cenário geral de rotinas técnicas, um acumular de dados de pouca validade em dossiers de processos do IGESPAR e a incapacidade de socialmente ser demonstrado, aos cidadãos em geral e aos promotores em particular (que pagam a nossa Arqueologia), que os custos acumulados podem e devem ser vistos como um investimento valioso.

Não tenhamos dúvidas: o problema maior da Arqueologia portuguesa aplicada é o seu desfasamento relativamente à investigação científica inerente à própria actividade arqueológica. Nesse sentido, devemos reconhecer que sem uma maior consciência ética e profissional de todos os que actuam em organismos públicos e privados, relativamente ao valor e significado para a nossa sociedade da prática de uma Arqueologia de excelência, será impossível alterar o paradigma que hoje conhecemos assente em projectos de pouca relevância e no predomínio de destruições ou de perda de informações preciosas sobre o nosso passado, resultantes de incompetência, incúria, ignorância ou incapacidade de actuar correctamente por parte de tantos profissionais.

A isto, a tutela tende a responder, tantas vezes, com uma mão cheia de nada...nada se altera em termos de exigências, persistindo, ano após ano, este caduco paradigma.

A actual crise do país reforça uma convicção: fazer má ou inútil Arqueologia, de nada serve.

Apenas nos resta a boa Arqueologia. Talvez...

Miguel Lago, Outubro de 2010


0215 - “HÁ MALES QUE VÊM POR BEM”

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Cidadela de Cascais

A Era Arqueologia, após a realização da campanha de sondagens arqueológicas de diagnóstico, iniciou o acompanhamento arqueológico de todas as remoções de terras e demolição de elementos arquitectónicos de acordo com as medidas de minimização propostas em Relatório Final dos Trabalhos Arqueológicos e no seguimento das condicionantes impostas pela Tutela.

No decorrer da escavação do antigo "campo de treinos" ocorreu a derrocada acidental da muralha interna da Cidadela de Cascais, na sequência do "descalçamento" da referida muralha, que se considerava ter uma maior profundidade do que realmente apresentava.

Decorrente desta situação, foi possível efectuar um registo que, de outra forma, nunca teria sido possível: registar a técnica construtiva desta muralha completando, desta forma, o registo obtido com a realização das sondagens de diagnóstico realizadas no topo desta muralha.

 

 

Vista da muralha após a derrocada - Após este incidente foi  possível registar o aparelho construtivo de uma forma única: o seu paramento externo destacou-se do enchimento e foi possível aferir o modo como foram aplicados os materiais utilizados desde o topo à base, tanto no paramento como no enchimento.

Inês Mendes da Silva


0214 - Era uma vez o Património - 42

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   Património para todos

 

 

 

O Museu da Escrita do Sudoeste abriu em 2007. O Museu do Côa abriu em Julho de 2010. Ambos reflectem estratégias públicas que visam disponibilizar mecanismos de acesso dos cidadãos ao Património.

O Museu da Escrita do Sudoeste, promovido pela Câmara Municipal de Almodôvar, é uma agradável surpresa. Apesar de instalado num edifício com limitações de raiz e desenvolvendo-se em vários pisos, o projecto expositivo cria um ambiente propicio a uma abordagem geral ao tema, simples e sintética, mas consistente, tornando aliciante o percurso percorrido. É um museu didáctico que trata de forma aprofundada um tema praticamente desconhecido para os não arqueólogos. Vale a pena a visita.

Já em 2010, abriu o Museu do Côa. Visitei-o apenas na fase final de instalação; conheço o edifício e fiquei com uma ideia geral do conteúdo expositivo. Em breve farei nova visita, sendo a expectativa muito grande porque o projecto global é extremamente ambicioso. Neste caso, não estamos perante uma mera "mostra" relativa ao tema da arte pré-histórica, dando a Arquitectura resposta a necessidades muito amplas; na sua génese, trata-se de um grande projecto museológico agregado a um centro de investigação e aos serviços de um parque arqueológico, numa perspectiva integradora e de forte impacte social, económico e cultural. Ao que parece, nem tudo corre bem: a título de exemplo, restaurante e bar continuam encerrados. Com o esforço dos funcionários vai-se dando a resposta possível; veremos, com o passar do tempo, se o projecto foi devidamente ponderado e se são criadas as condições para o seu pleno funcionamento, sob pena de ser limitada a rentabilização da exposição, constrangendo-se a visita ao público e permanecendo vazios grande parte dos corredores e das salas destinadas a outros usos não museológicos.

 

 

 

Estes exemplos revelam formas diferentes de encarar a divulgação e a sociabilização do Património arqueológico, resultando ambos de processos empenhados de investigação e do enraizamento de equipas de arqueologia. Idealmente e com outros casos semelhante, podem vir a constituir uma vasta e ideal rede de projectos similares ao serviço de todos os cidadãos. No entanto, para serem globalmente exemplares, não devemos esquecer a sua sustentabilidade futura. De facto, se em Portugal é fácil construir, o mesmo não sucede com a manutenção nem com a divulgação deste tipo de equipamentos culturais. Sob este aspecto, é absolutamente lamentável que o Museu do Côa não tenha disponível um site na Internet; mais um sintoma de que o Projecto nasceu coxo. Em contrapartida, para mais informações sobre o Museu da Escrita do Sudoeste, aqui fica o link: http://www.cmalmodovar.pt/museuescritasudoeste/ 

(exemplar, face à dimensão e enquadramento local do projecto).

Miguel Lago, Setembro de 2010


0213 - Novo Projecto do NIA

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"Práticas funerárias da Pré-História Recente no Baixo Alentejo e retorno sócio-económico de programas de salvamento patrimonial"

... é um novo projecto em que o NIA participa e que foi apresentado à FCT, tendo sido avaliado com Excelente em todos os critérios e proposto para financiamento.

Este projecto tem como investigador responsável o Doutor António Carlos Valera, sendo o Instituto Politécnico de Tomar a instituição proponente. Nele participam os seguintes investigadores e instituições:

Doutor António Valera (NIA- Era Arqueologia / Centro de Geociências); Mestre Lucy Evangelista, Mestre Ricardo Godinho, Mestre Nelson Cabaço e Mestre Victor Filipe (NIA - ERA Arqueologia); Doutor Gonçalo Velho (Centro de Geociências, Instituto Politécnico de Tomar); Doutora Ana Maria Silva (Centro de Investigação em Antropologia, FCTUC); Doutora Ana Calapez Gomes; Doutora Idalina Sardinha; Doutora Maria Isabel Mendes; Doutora Sandra Loureiro; Doutor Manuel Coelho (Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações, ISEG).

O projecto incide sobre o estudo das práticas funerárias da Pré-História Recente no Baixo Alentejo (distrito de Beja) e construção de modelos de valorização de conhecimento produzido no âmbito de minimização de impactos sobre património arqueológico (não visitável no local ou totalmente desmantelado), procurando reunir no mesmo processo de investigação a dimensão científica do problema arqueológico e o problema da sua valorização patrimonial e disponibilização pública (entendida como retorno social e económico da actividade científica em Arqueologia). Os contextos arqueológicos em causa resultam de intervenções de minimização realizadas em empreendimentos da Redes Energéticas Nacionais (REN) e Empresa de Desenvolvimento de Infra-estruturas de Alqueva (EDIA), as quais valorizam o projecto e estão disponíveis para nele colaborarem em termos ainda a definir .

Pretende-se, assim, a partir de um conjunto de oito sítios de relevância científica intervencionados no âmbito da minimização de empreendimentos, investigar as soluções funerárias desenvolvidas pelas comunidades do Baixo Alentejo entre o Final do Neolítico e a Idade do Bronze, na sua articulação e contrastes relativamente às práticas conhecidas nas regiões periféricas do Sudoeste Peninsular. Por outro lado, decorrendo de descobertas realizadas no âmbito da Arqueologia de Salvamento, a grande maioria dessas evidências foi destruída após a minimização arqueológica e os respectivos sítios não ficarão acessíveis, pelo que a investigação e desenvolvimento de estratégias de valorização e divulgação de património arqueológico não visitável se constitui como uma vertente central para o problema da sua justificação social. Trata-se, também de uma abordagem inovadora, assente numa perspectiva de reflexividade, que procura introduzir na dinâmica de investigação científica a preocupação com as suas próprias condições sociais de actuação, contemplando diferentes dimensões do seu retorno social e económico, na óptica do desenvolvimento sustentado.


0212 - Cruz da Areia

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A intervenção arqueológica no sítio Cruz da Areia enquadrou-se numa perspectiva de minimização de impactes numa área com enorme potencial arqueológico. Este sítio já havia sido diagnosticado em trabalhos anteriores, contudo os resultados obtidos não foram suficientemente esclarecedores para questões relacionadas com a cronologia, formação e preservação. A primeira fase destas novas intervenções consistiu na realização de três sondagens manuais de forma a compreender a relação de um nível de termoclastos com artefactos líticos e a sua formação antrópica ou natural e também a confirmação ou não da existência de zonas de combustão relacionadas com a ocupação pré-histórica do sítio.

 

 

 Vista geral da escavação e da Sondagem 1 (nível de termoclastos)

 

 Na sondagem 1 está presente um momento de ocupação humana relacionado com um nível com milhares de termoclastos e centenas de peças líticas talhadas, cuja funcionalidade não está de todo esclarecida, pois trata-se de uma extensa área, cerca de 1000m2, tendo sido intervencionados apenas 14m2

Já para a zona onde foram implantadas as sondagens 2 e 3, existe um nível preservado (solo antropogénico) onde estão presentes seis estruturas de combustão, estruturas negativas, milhares de peças líticas talhadas e ainda uma placa de xisto com gravações filiformes.

 

Estruturas de combustão 3 e 1.

 

A interpretação preliminar deste sítio aponta para a presença humana durante um período da pré-história antiga, provavelmente no paleolítico médio e paleolítico superior final. A localização do sítio, entre os vales do Rio Lena e do Rio Lis, tornam o local numa zona preferencial para o estabelecimento de comunidades de caçadores-recolectores, com acesso a um vasto território pautado por grandes vales e áreas de abastecimento de matéria-prima. Estamos perante realidades arqueológicas preservadas in situ, testemunhada por estruturas de combustão de várias dimensões e com diversas funcionalidades, estruturas negativas, milhares de peças líticas talhadas, bem como vários elementos pétreos que demonstram a mobilidade destes últimos grupos de caçadores-recolectores pelo território envolvente a curta e longa distância (seixos rolados, dioritos, sílex, calcário, xisto).

 

 

Industria lítica alongada presente nos contextos arqueológicos.

 

(Tiago do Pereiro, 20-08-2010)

 


0211 - Era uma vez o património 41

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Trabalhos acríticos

No território português existem áreas atravessadas por grandes obras públicas de cariz linear (ex: estradas, caminhos de ferro ou amplas redes de rega). Relativamente a muitas dessas áreas existem manifestas lacunas ao nível do conhecimento sobre as antigas ocupações humanas, aspecto amplamente evidenciado por recentes resultados, decorrentes da implementação de estratégias de acompanhamento arqueológico permanente e em extensão nos espaços de afectação de grandes obras.

A adopção de um modelo de actuação ao nível dos acompanhamentos de obras assente na definição de classes de sensibilidade arqueológica parece ser muito vantajoso. Ou seja, em função da maior ou menor segurança que o arqueólogo responsável e a tutela têm relativamente às probabilidades de efectiva presença de contextos arqueológicos relevantes em determinadas áreas, devem ser definidas diferentes opções na abordagem ao nível de acompanhamentos arqueológicos de obras: desde o total desbloqueamento de condicionantes, ao acompanhamento presencial e permanente de todas as movimentações de terras ou rocha (não esquecer o caso, alentejano, de enormes concentrações de estruturas escavadas na rocha).

O que, de todo, não faz sentido são as actuações arqueológicas acríticas e desfasadas de processos de investigação e de produção de conhecimento, assentes no modelo de "despejar" arqueólogos nas frentes de obra; dessa forma, descredibiliza-se a actividade e favorecem-se os incompetentes...é o fazer por fazer. Por isso, porque as actuações técnicas de acompanhamento têm sido tão desqualificadas, qualquer arqueólogo serve, mesmo sem experiência para identificar materiais e contextos arqueológicos ou entender as dinâmicas das paisagem em que se inserem. Nesses casos, os trabalhos e investimentos realizados são inúteis ou servem apenas para simular que se cumpre a lei. Para isso, não contem com a ERA.

Miguel Lago, Junho de 2010

 


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