O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

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0050 - Resposta a ML (Miguel Lago)

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Esta resposta deveria estar na caixa de comentários do post anterior, mas eu próprio não consigo ali colocar comentários. Coisas de informática... 

"...sem um grande lastro de associativismo profissional e sem um profundo amadurecimento dos profissionais e consequentemente da profissão, não será a Ordem a resolver, milagrosamente, os problemas."

Naturalmente, quando defendo uma ordem não estou à espera de milagres. Por isso referi que não tenho grandes espectativas. Mas tenho ainda menos relativamente às reais potencialidades do associativismo voluntarioso. Por outro lado, se existe uma clara falta de maturidade profissional e intelectual entre muitos arqueólogoas,porque razão uma Ordem não poderia contribuir para combater essa situação. Perigos? Claro que existem. Sobretudo porque a Arqueologia portuguesa parece a China: um país, dois sistemas. Ou seja, muita gente está num contexto empresarial, de mercado, mas saudoso dos modelos de forte intervencionismo estatal e dos ditos serviços públicos. Mas uma Ordem só faz sentido num modelo essencialmente de profissão liberal e poderia servir para reforçar, de forma credível e sustentada, o desenvolvimento da profissão. Podemos esperar mais, é certo. Esperar que surjam outras condições melhores para então criar a Ordem. Mas isso parece-me uma visão algo mecanicista das coisas: primeiro as condições, depois a coisa que deve regular essas condições. Para que serviria a Ordem se já tudo estivesse em ordem? Como referi, defendo a Ordem porque me parece uma alternativa de por alguma ordem em várias coisas. Se essa ordem existisse... para quê a Ordem?

A função de uma Ordem é regular, mas ao regular está a construir novas situações, ou seja é activa e não simplesmente perpectuadora. Pode e deve ser instrumento de mudança e não de conservação, embora muitas o possam ser (e aí reside um dos perigos).

Agora, concordo que ainda faltamuito para se conseguir uma Ordem, o que é diferente de dizer que ela não é necessária já. E são as razões porque ela é necessária que mais contribuem para a dificuldade da sua criação. Naturalmente.


0049 - Preocupações pessoais

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Nos últimos dias, e a propósito da eventual não renovação dos contratos de avença no IGESPAR, surgiu uma nova onda de opiniões, comentários e atoardas na ARCHPORT. De entre os diferentes assuntos destacaria o ressurgimento do tema Ordem de Arqueólogos, o qual periodicamente vem à baila.

A imagem geral que fica das intervenções é que a maioria das pessoas não sabe muito bem sobre o que está a falar. Não leu os textos que já foram publicados sobre esta matéria relativamente ao caso da Arqueologia, está mal informada sobre os procedimentos de criação de uma Ordem (não basta desejá-la) e as razões para a criação da dita parecem ser quase sempre conjunturais: só quando há qualquer acontecimento que afecte a situação profissional de alguns arqueólogos é que o tema surge, para logo se silenciar de novo.

Por outro lado, os comentários sobre quem é ou não arqueólogo têm sido constrangedores. Por inúmeras vezes tenho feito minhas as palavras de José Mattoso e Boaventura Sousa Santos, afirmando que o destino de todo o conhecimento científico é transformar-se em senso comum. Contudo, parece que se está a observar, entre muitos que circulam em torno da Arqueologia, um processo inverso, em que o senso comum, por vezes demasiadamente ignorante, se pretende assumir como discurso informado e se permite falar sobre disciplinas científicas, ciência e vertentes profissionais de áreas científicas sem revelar qualquer esforço de reflexão séria e profunda. Esta circunstância dota estas intervenções de uma imagem que, desde logo, descredibiliza qualquer tentativa de procurar construir uma Ordem: os intervenientes simplesmente não demonstram a maturidade mínima que se exige a profissionais que se pretendem auto-regular. Pelo contrário, alimentam sentimentos paternalistas ou de indiferença.

Uma Ordem é um sistema corporativo com profundas implicações no desenvolvimento de uma área disciplinar e da respectiva componente profissional. As suas vantagens e desvantagens (que existem e podem ser dramáticas) devem ser cuidadosamente reflectidas. Qualquer arqueólogo deveria fazer essa reflexão, sustentada em informação prévia, para ter uma opinião sólida, informada e independente das flutuações conjunturais. 

Há uma mediocridade crescente que a universidade deixa sair e que, devido às novas tecnologias, tem voz. Em termos democráticos, essa possibilidade de todos se fazerem ouvir é uma mais valia e uma contribuição da tecnologia para a vivência democrática. Mas as moedas têm sempre duas faces. A outra, é da imagem que muitos licenciados em arqueologia dão de si, induzindo generalizações entre os "não arqueólogos" que prejudicam a disciplina e a profissão. Só isso pode justificar absurdos como as afirmações de que para ser arqueólogo basta saber ver e para ser historiador basta saber ler (ou qualquer coisa do género). Naturalmente que isto é também o senso comum ignorante a falar, mas a Arqueologia só poderá progredir como disciplina e como profissão sendo socialmente respeitada e valorizada e isso não será conseguido com a mediocridade que se vai instalando no meio e na qual todos têm responsabilidade: universidades, tutelas, empresas, associações, arqueólogos.

Por mim, há muito que estou inclinado para a constituição de uma Ordem  como mecanismo regulador de acesso à profissão e do comportamento deotológico, já que as Universidades se estão a demitir da exigência de níveis mínimos de competências à entrada e à saída e a tutela e o mercado revelam cada vez menos capacidade para separar o trigo do joio. Uma Ordem que levasse ao incremento da qualidade dos profissionais e a um combate sério à mediocridade que por aí se instala e que, reclamando por uma Ordem, pode ser o principal obstáculo à sua criação.

Fica claro, creio, que não desejo uma Ordem por simpatizar com esquemas corporativos ou por gostar de constragimentos à liberdade das dinâmicas individuais ou sociais. Mas a liberdade só o é quando é informada, reflectida e inteligente, características que não abundam na mediocridade instalada. Daí que tenhamos que, contrariados, apelar a instrumentos de regulação colectiva. Os do Estado não funcionam, os académicos alheiam-se, restam os da profissão. Defendo uma Ordem como último recurso, mas sem grandes espectativas.


0048 - Condição Profissional

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Para quem não conhece, pode ver aqui (http://www.archaeologists.net/modules/icontent/index.php?page=10) uma solução inglesa: trata-se do Institute of Field Archaeologits, uma "associação profissional de arqueólogos". Explorem bem o menu lateral do site.

E já agora, vejam esta iniciativa: http://discovering-archaeologists.eu/

Pena que Portugal tenha ficado de fora.


0047 - Relações de trabalho

Posted by: valera in Untagged  on

Na minha recente estadia nos Açores para dar formação, levei comigo um livrinho para ler nas saltitantes viagens de avião. É um livrinho que comprei há algum tempo, mas que estava na estante à espera da sua oportunidade, que então chegou. Trata-se da "Cor do Tempo Quando Foge" de Boaventura Sousa Santos e reúne um diversificado conjunto de crónicas deste autor datadas de entre 1985 e 2000.

Um dos texto iniciais, que me foi útil logo no primeiro dia de formação, intitula-se "Para uma democracia participativa" e foi publicado no Jornal de Letras em 1986, há 21 anos portanto, quando eu havia terminado a minha licenciatura em História na Faculdade de Letras de Lisboa, num contexto em que a Arqueologia era uma realidade muito diferente do que é hoje.

Neste texto, BSS analisava o impacto do que chamou Movimento Pintassilgo, durante o processo eleitoral para a Presidência da República a que Maria de Lurdes Pintassilgo concorreu, arrastando consigo uma intensa actividade participativa da sociedade civil. Uma das linhas mestras do discurso deste movimento (heterogéneo apesar de tudo) foi, no entender de BSS, a de que "O atraso do desenvolvimento social e económico não impõe como fatalidade soluções historicamente atrasadas para lhe pôr fim".

Esta simples, mas extraordinariamente fecunda, afirmação lembrou-me um post anteriormente aqui colocado, onde se fazia alusão a manifestações de arqueólogos espanhóis contra as suas condições salariais e de trabalho, e o lamento de um dos visitantes desta página por essa realidade contestatária ainda não ter emergido em Portugal.

Na altura havia ficado a falar com os meus botões sobre as eventuais razões dessa situação, dessa passividade dos arqueólogos, já que, por várias vezes, havia afirmado que se assistia a uma dinâmica de proletarização, a qual seria terreno fértil para o nascimento da contestação. De facto, tirando os queixumes e algumas atoardas publicadas em blogs ou em mailing lists, a muito pouca acção se tem assistido e, sobretudo, não se regista qualquer mobilização em torno da associação profissional (que deveria ser um organismo também vocacionado para estas questões). E continuava a perguntar-me porquê.

No texto seguinte do livrinho de BSS, publicado ainda no mesmo ano, encontrei o que poderá, pelos menos em parte, ajudar a explicar a situação. O autor falava da renovação do PCP (na altura ainda acreditava nela, creio), mas o que me interessou foi a sua análise relativamente à evolução do processo produtivo. Afirmava que se assistia à "pulverização do processo produtivo através de vários mecanismos, entre os quais a subcontratação, o trabalho ao domicílio e as redes de produção computorizada."

Ou seja, e retomando a afirmação do texto anterior relativamente a soluções historicamente atrasadas, afirmava que esta pulverização permite um aumento de produtividade típico de um capitalismo avançado, através de relações de trabalho aparentemente características duma fase bem amais atrasada do capitalismo industrial oitocentista, como são a subcontratação e o trabalho ao domicílio, agora suportado por uma nova plataforma tecnológica: o PC pessoal.

Ora, e como afirma BSS mais à frente, estas relações de trabalho retiram protagonismo ao protótipo do trabalhador proletário, associado a uma só relação de trabalho e a um espaço de trabalho colectivo e centralizado, contexto que gera mais facilmente a união reivindicativa.  Por outras palavras, a degradação das condições salariais e de trabalho no mundo da arqueologia não se traduzem numa verdadeira proletarização geradora de dinâmicas de contestação unitárias e organizadas à maneira tradicional porque a relações trabalhos estabelecidas são mais fluidas. As empresas de arqueologia têm genericamente poucos ou nenhuns quadros; os arqueólogos, sobretudo os que se encontram em piores condições, serão sobretudo prestadores de serviços que circulam no mercado, trabalhando para várias instituições, não tendo uma entidade patronal fixa; muitas das relações de trabalho mais estáveis são instáveis, pois estão estabelecidas sobre o regime de recibos verdes ou contratos individuais a prazo. Esta situação de fluidez torna a tradicional dicotomia entre patronato e assalariado bem mais indefinida e desfocada. As redes de relações de trabalho são mais individualizadas, os sentimentos de pertença a uma organização menos enraizados. Uma entidade abstracta, o mercado, emerge como o grande responsável da situação e reivindicar perante uma entidade abstracta torna-se mais difícil, sobretudo num contexto de individualização das relações de trabalho.

 Talvez esta seja uma das explicações para a aparente apatia portuguesa. Talvez não. Afinal de contas as relações laborais em Espanha não são muito diferentes e lá as manifestações já vão acontecendo (embora não tenha noção da sua real dimensão). Seja como for, este recurso a relações de trabalhos próprias de um capitalismo primário para resolver o problema da concorrência e da produtividade num contexto de um mercado supostamente mais evoluído não deixa de ser um problema sociológico de extremo interesse e que traduz, no campo das relações de trabalho, o individualismo e a fluidez que vão caracterizando esta nossa pós modernidade de país permanentemente em vias de desenvolvimento.


0046 - Geoglifos

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  Não, não é um recinto de fossos da Pré-História Recente europeia. É um recinto de fossos da Amazónia Pré-Colombiana.
Ali também surgem estas construções negativas geométricas, com formas circulares, ovais, rectangulares, em U, ou hexagonais, por vezes ligadas por linhas rectas. São designadas por "Geoglifos da Amazónia", com datas entre 500 AC e 1300 DC.
Primeiro foram consideradas como aldeamentos fortificados ou como estruturas de gestão de água. Mas lá, como cá, as teorias diversificam-se e hoje suergem hipóteses interpetativas que falam de locais cerimoniais ou locais de encontro e afirma-se que a sua geomeria perfeita acentua o seu carácter simbólico.
Num outro continente e num outro tempo, não deixam de ser fenomenologias similares, eventualmente de processos sociais similares, cujo conhecimento pode ser inspirador para a Pé-História europeia. A começar pelo nome "geoglifos", ou seja, uma forma de escrever na terra. Eu chamei aos Perdigões um desenho (mapa) do cosmos.

0045 - Licenciamentos

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Durante a formação que ocorreu nos Açores vários foram os assuntos discutidos com a participação das audiências, os quais mereciam uma amplificação e chegar aos ouvidos de muitos dos agentes que, por estas bandas, actuam na área do património e da arqueologia. Um desses assuntos, repetidamente evocado, foi a ausência de condicionantes relativas a trabalhos de arqueologia nos licenciamentos e depois o seu aparecimento a meio da execução dos projectos.

De facto, exceptuando as situações em que património arqueológico desconhecido aparece inesperadamente no decurso das obras, é pouco compreensível que se passem licenciamentos sem referência a trabalhos arqueológicos (por exemplo de acompanhamento) para projectos que, à partida, os deveriam ter e, mais tarde, em fase de execução, a mesma entidade licenciadora (ou outra) venha introduzir essas condicionantes.

Esta situação resulta, muitas das vezes, da forma como funcionam as entidades licenciadoras, passando os projectos à margem dos técnicos e dos serviços de património que poderiam estabelecer essas condicionantes. Dá-se, assim, pretexto para que, com razão, os promotores se queixem da forma como se actua na área do património, ficando, contudo, a dúvida sobre o eventual envolvimento de alguns nos "esquecimentos".

Por outras palavras, a "insensibilidade" para com o património arqueológico começa logo dentro das entidades públicas que licenciam, no interior das quais parecem existir diferentes linguagens, pesos e entendimentos relativamente às políticas patrimoniais.

Muitos problemas podem ser minimizados a jusante, mas só se resolvem se forem atacados a montante.


0044 - Taxistas

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As modernas tendências do restauro e da conservação dizem-nos, de forma quase axiomática, que as suas intervenções devem ser sempre reversíveis. Este axioma é uma das expressões do nosso modo actual de lidar com a contingência, com a mudança, e que nos leva à defesa do provisório, ou melhor, ao fim das tentativas de lhe resistir.

Confesso contudo que, embora perceba perfeitamente o sentido deste princípio e, de certa forma, o perfilhe, não deixo de sentir que é uma espécie de casamento já a pensar no divórcio e, sobretudo, um receio de assumir "a nossa marca", a "nossa visão". Caso o futuro não goste ou saiba melhor, sempre nos pode remover da história de um edifício ou de outra coisa qualquer, voltando ao que era antes de nós.

Repito que percebo e que é difícil discordar simplesmente, mas confesso que também fico incomodado. Naturalmente que poderão argumentar que a nossa marca é precisamente essa, a de nos assumirmos como parêntesis, procurando colocar no futuro o que recebemos do passado, interferindo o menos possível. A de nos transformarmos numa espécie de taxistas (dos silenciosos, claro) para património, numa fixação quase doentia no futuro. Mas esta anulação do presente é necessariamente ilusória e essa ilusão leva que, na ânsia de tudo preservar para o futuro, nem sempre se pense o que se está a fazer, com claros reflexos no... futuro.


0043 - P'ra baixo

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  Abriu um concurso para a reabilitação desta igreja. A autarquia, no seu convite a propostas, escreve no ponto 2. "Critério de Adjudicação: Unicamente o do mais baixo preço".

Está tudo dito. Não interessa a qualidade da equipa, a qualidade da proposta técnica, etc., etc. etc. Não esquecer que estamos a falar de uma entidade pública.

Esta é uma situação na área da conservação e restauro, mas muitas aparecem na área de arqueologia com os memos (mesmo) critérios de selecção. Não será , pois, de estranhar que quem presta serviços tenha que baixar preços e custos para poder trabalhar. E nesse contexto, não será igualmente de estranhar que cada vez mais estas empresas, na contratação dos seus colaboradores, apliquem os mesmos critérios. Mas que se diria se uma empresa colocasse um anúncio para a contratação de um arqueólogo, acrescentando que o critério de selecção era unicamente o preço mais baixo?

Manifestações como estas ...

  

 

 

 

 

 

 

 

... serão justificadas. Mas há que compreender bem todo o contexto, para reconhecer correctamente as causas e os efeitos, condição para a aplicação de qualquer terapia. Relembro, uma vez mais, Bachelard: não existe o simples, só o simplificado.


0042 - Filosofia ???

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"A Filosofia ajuda a que os cientistas não passem tanto tempo sem perceber o que estão realmente a fazer"

(Desidério Murcho, conferência no Instituto de Biologia Molecular e Celular, Porto).

Onde se lê cientistas , leia-se...


0041 - Estados de espírito

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"Muitas pessoas produzem enunciados críticos sobre a sociedade actual e o papel da arqueologia que parecem correctos, que são sem dúvida inteligentes, mas como é óbvio não mudam nada. São vozes no deserto. E, sobretudo, servem mais a quem as produz do que a mudar qualquer coisa, porque a nossa consciência crítica tornou-se impotente perante as forças do mundo (já o era, mas não o sabíamos com tanta acuidade)."

(Victor Oliveira Jorge, in tran-ferir.blogspot.com)

Um cepticismo que não partilho, embora a angústia e o apelo à desistência sejam, por vezes, muito grandes. Não a partilho por razões de crença (engraçada a expressão "razões de crença"), mas também por razões de teoria: a afirmação de VOJ renova a dicotomia entre sujeito e estrutura, ao admitir a "impotência" da acção individual face às "forças do mundo". Os efeitos da acção individual são restringidos ao próprio agente e, assim, por extensão, a estrutura não é por ele influenciada, levando-nos a um novo determinismo social.

Esta não é, contudo, a perspectiva do pensamento recursivo, que estabelece a dependência entre indivíduo e colectivo, entre acção e estrutura. Se o quotidiano nem sempre nos dá motivos de esperança, se frequentemente nos desanima, podemos sempre encontrar algum conforto na teoria e nas suas implicações práticas. Se a estrutura ("as forças do mundo") não é o simples somatório das acções individuais, se ela limita e simultaneamente viabiliza a acção, ela é também o resultado da acção. Por cansativo que seja (tendo em conta os resultados face ao investimento e às expectativas individuais), a acção individual age recursivamente sobre a estrutura: acção e estrutura pressupõem-se uma à outra. E este é um pensamento reconfortante, que nos pode animar a acção, à qual é reservada alguma consequência social (e não meramente individual). Por pouca que seja.

Naturalmente que sei muito bem que VOJ partilha da concepção recursiva da relação sujeito / totalidade social e que o seu cepticismo é um desabafo face ao ritmo descompassado entre sua dinâmica e evolução pessoal e a da realidade que envolve Arqueologia portuguesa. Mas é inegável que esta mudou nas últimas décadas, por acção de muita gente, apesar das tendências dominantes se manterem na linha de uma positividade ingénua.

A recusa do cepticismo, contudo, não pode gerar um optimismo ingénuo. A mediocridade organizada vai-se perpetuando, a ignorância habilitada vai-se multiplicando, o que reduz drasticamente a capacidade de intervenção e de influência dos "enunciados críticos".

Da mesma cidade e da mesma universidade chega-nos este exemplo:

"(...) sou Assistente de Arqueólogo, finalista da  licenciatura de Arqueologia da FLUP, profissional da ârea há 11anos,  escavo há 14 anos. e é com muita tristeza e revolta. e até com alguma  raiva que todos, ou a maioria dos cursos livres se realizam no Sul. Infelizmente nem toda a gente vive no centralismo nem na mama da  capital do "império", prá lem de Lisboa existe  gente interessada na  cultura, gente humilde e interessada nas coisas da sua terra. Quando é  que a arqueologia deixa de ser usufruto de alguns  "pseudo-intelectuais" e passa a ser a ciência da materialidade? Ciência do saber fazer, ciência na sua esseência socialista; e não  ciência de alguns, poucos. que vivem bem e borrifam-se para o País real? Para além da grande Lisboa existe terra, país, cultura e gente informada. Porque não a regionalização? Será a Arqueologia apanágio dos Lisboetas? Existe tanta Terra, tanta gente, tanta cultura popular, outras línguas  para além daquilo que se conhece. Partem para a descoberta do país real e depois digam alguma coisa. Já agora sou do Porto, da terra que deu nome ao noso país, e nacionalista."

(excerto de texto que circulou na mailing list Archport)

É difícil manter o empenho, de facto. Mas água mole em pedra dura....


0040 - Comunicação

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Um dos principais problemas da arqueologia de minimização e salvamento continua a ser a sua relativa invisibilidade. Muitos e importantes trabalhos acontecem, sem que se aproveite o "momento de acontecer" para tornar visível, junto do grande público, o esforço que globalmente está a ser feito para articular a salvaguarda e a investigação do património arqueológico com o desenvolvimento e modernização do país. O acto da intervenção arqueológica é um momento privilegiado de transmissão de conhecimento, de sensibilização e de ensino e deveria ser mais utilizado na forma da disciplina e da profissão se comunicarem e de se tornarem socialmente relevantes. Há várias formas para o fazer. Esta é apenas mais uma, com dignidade, profissionalismo e inequívoco interesse. Uma outra face do "serviço público", que se distingue do "servir-se do público".

0039 - Tutela of line

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Quando se observa um justificado e profícuo investimento na simplificação e celeridade de uma série de serviços do Estado, estimulando o recurso às novas tecnologias, verificamos que a tutela da arqueologia não dá sinais de querer modernizar velhos procedimentos e introduzi-los no século XXI. Refiro-me concretamente a um conjunto de medidas, algumas das quais já foram sugeridas pela ERA ao antigo IPA, que permitem agilizar procedimentos legais e poupar recursos, passíveis de serem gastos noutras tarefas mais relevantes. Entre essas medidas conta-se a possibilidade de realizar on line toda uma série de obrigações. Por exemplo:
  • Poder fazer um pedido autorização através de um formulário on line, onde se pudessem juntar os anexos (ficheiros digitais) necessários;
  • Poder preencher on line as Fichas de Sítio, cuja informação, depois de confirmada, poderia ser automaticamente introduzida na base de dados da tutela, libertando funcionários para outras tarefas;
  • Poder preencher candidaturas a concursos (quando estes voltarem, se voltarem) on line, como acontece na FCT.
  • Permitir a gestão de informação pessoal, curricular e outra, na base de dados da tutela (como acontece com outros serviços do Estado), levando a que esta esteja actualizada e evitando o constante envio de papelada.
  • Colocar os relatórios aprovados em consulta on line (acabando com secretismo e entraves só favorecem quem tem algo a esconder, receia comparações ou controlo crítico dos pares).
  • Permitir o preenchimento on line de relatórios preliminares ou de progresso ou possibilitar a sua recepção em formato PDF.
  • Criar um serviço de atendimento on line para registo de denúncias, pedidos de informação, reclamações, etc.
  • Colocar on line a base de dados de sítios com toda a informação disponível (nomeadamente a localização)

Tudo isto e muito mais pode hoje ser feito com critério, com segurança e com eficácia, traduzindo-se num claro benefício da prática arqueológica: facilita procedimentos, poupa recursos que podem ser reorientados, disponibiliza informação (vivemos numa sociedade da dita) e é mais transparente, favorecendo o controlo e avaliação da comunidade (fundamental quando a fiscalização estatal dá mostras de se enfraquecer). A inércia e a desconfiança, contudo, parecem manter-se.


0038 - Indústrias culturais

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Um dos futuros da Arqueologia poderá ser (e tem sido noutros países) a sua entrada no campo da Indústrias Culturais. Face a essa perspectiva, será interessante questionar porque razão as empresas de arqueologia existentes em Portugal nunca enveredaram decisivamente por este caminho e se têm mantido paulatinamente (com excepções pontuais que apenas confirmam a regra) na área da "simples prestação de serviços", mantendo-se afastadas da "área de criatividade" que deverá constituir qualquer indústria cultural.

Uns responderão que não será essa a sua vocação específica. Outros que há défice de criatividade nos recursos humanos dessas empresas. Outros ainda lembrarão que não há ainda verdadeiramente um mercado capaz de sustentar o investimento nesse trajecto. Finalmente, outros recordarão uma mentalidade ainda fortemente enraizada: "Pensamos frequentemente na cultura e na economia como domínios distintos" (Andy Pratt).

Sem esquecer as anteriores, gostaria de sublinhar esta última circunstância, quase axiomática neste país. Ela continua a dominar as políticas culturais, na forma como estas lidam com os impactos económicos da cultura. Se por um lado o Estado tem desenvolvido uma política instrumental da cultura, isto é, utilizando a cultura como factor de atracção de investimento e de reabilitação em determinadas áreas (ex. intervenção urbana), por outro continua a sentir grandes dificuldades (de fundamento ideológico) em defenir políticas que estimulem o desenvolvimento de verdadeiras indústrias culturais capazes de se sustetar fora da "política do subsídio". E quando esta se reduz em tempo de vacas magras, a "produção cultural" decresce, por falta de financiamento. Nisto as Indústrias Culturais não serão muito diferentes de outras "indústrias" em Portugal. A "Política do Subsídio" é uma política que se baseia na ideia de que cultura e rentabilização económica são uma espécie de azeite e água. Daí que o subsídio seja visto como uma despesa e não como investimento. Que dele não deve resultar rendimento económico, mas apenas um produto que se consome e esgota "em benefícios culturais", mas não é capaz (não pode) ser factor gerador de sustentabilidade económica. Por isso não se subsídia a qualidade dos projectos, mas sim o "fim não lucrativo". Isto não será verdade para todas as actividades que hoje se enquadram na designação de "Indústrias Culturais", mas é-o seguramente para muitas, consideradas, pela sua "nobreza", acima das mesquinhas questões económicas. Assim, gerou-se no público o hábito de não pagar (ou pagar pouco) para consumir determinada cultura. O mercado, que já de si é reduzido devido à realidade económica do país, torna-se ainda mais fechado. Atente-se no seguinte gráfico:

 

O Estado português está entre os que mais gasta (propositadamente não digo investem) em divertimento e cultura (proporcionalmente mais que os países mais desenvolvidos e economicamente desafogados) e, pelo contrário, as familias portuguesas são das que menos gastam nesses mesmos items. Poderíamos ser tentados pela explicação simplista: é o reflexo da situação financeira do país. Mas não existe o simples, só o simplificado (se me permitem citar Bachelard). Creio que esta situação reflecte precisamente, não tanto uma ausência de mercado, de consumidores, mas antes uma relação tradicional com a cultura que está a dificultar o desenvolvimento de indústrias culturais e a própria consequência social de muitas potenciais práticas culturais, como será o caso da Arqueologia. Citando novamente Pratt:

"A minha tese é que a cultura, e particularmente a produção cultural - o fazer cultura -, se alterou nos últimos anos (...). Se aceitamos este ponto de vista, então penso que temos de aceitar também outra consequência, ou antes, desafio, : há que repensar a nossa relação com a cultura. Mais especificamente, aquilo que pretendo provar é que a nossa relação colectiva com a cultura - ou seja, o domínio da política pública - tem de mudar (...) sobretudo se quisermos explorar novos caminhos. Manter inalteradas as tendências do passado não é opção viável."

(Andy Pratt, 2007,"O Estado da Economia Cultural: O crescimento da Economia e os Desafios da Definição de uma Política Cultural", A Urgência da Teoria, FCG.)


0037 - Hello, Goodbye

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As aulas estão a começar nas Universidades. Para muitas é o início de Bolonha. É, pois, tempo de expectativa.

Recentemente, em texto que será publicado em breve, escrevi:

"O ensino da Arqueologia em Portugal tende a ser ministrado com pouca abertura crítica (no sentido metodológico do termo), evitando a discussão paradigmática como forma de ensino / aprendizagem. Abusa-se da exposição e descrição; evita-se os paradigmas concorrentes, omitindo-os ou não permitindo que se expressem na primeira pessoa (convidam-se os que pensam como nós e não os que pensam diferente de nós, evitando o ambiente de confronto e contradição); não se desenvolvem hábitos de verdadeiro debate teórico, nem se estimula a autonomia intelectual dos alunos relativamente a esse debate."

Gostaria que, no contexto desta nova era que se abre ao ensino superior, esta minha afirmação fosse desmentida. É que este é um ponto importante para o crescimento e desenvolvimento da Arqueologia praticada por empresas. Num momento em que as Universidades, na procura de uma ligação ao mundo do trabalho, "investem" numa vertente mais técnica da formação, é bom que não se esqueçam que esse mundo do trabalho necessita igualmente de pessoas teórica e intelectualmente bem formadas, com capacidade e autonomia crítica, para que as suas aptidões técnicas possam ser postas, com consequência, ao serviço das empresas que procuram uma Arqueologia de qualidade. 


0036 - Metodocracia

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Lembro-me de um filme em que um personagem dizia que, por ser político, roubava o chupa-chupa à criancinha ao mesmo tempo que lhe fazia festinhas na cabeça, mas que isso também queria dizer que mantinha as suas opções abertas.

Manter as nossas opções em aberto implica estar permanentemente a pensar as situações, controlar a dinâmica das coisas e em cada momento perceber e avaliar alternativas ao rumo seguido. A submissão acrítica ao método é a submissão a uma maneira de fazer que não deixa opções, que dispensa a avaliação das situações e a ponderação de alternativas. Desde que bem treinados, os personagens podem desenvoler a actividade sem grande esforço mental. É percorrer, em círculo, o caminho aprendido ou, como diria Jorge Palma, "Domingo sabem de cor o que vão dizer Segunda-Feira".

Entretanto, como sublinha John Gray, "os maiores cientistas nunca se deixaram tolher por aquilo que é hoje visto como o conjunto de regras do método científico" (que muitos ainda confundem com simples técnicas).

A metodocracia é a prática científica tornada burocracia. Não se pense, pois, que os arqueólogos burocratas apenas circulam pelos gabinetes administrativos.


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