O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

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0165 - Perdigões 2009 _01

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 Começou ontem a campanha de escavações de 2009 nos Perdigões. Inicia-se trabalho num novo sector, agora na área central do recinto, onde uma macha circular é visível na conhecida fotografia aérea.

A área, contudo, é de grande complexidade arquitectónica, como parece sugerir o resultado da geofísica realizada: fossos, possíveis entradas, possíveis paliçadas, fossas e até, muito provavelmente, estruturas em positivo em pedra.

 

   

 Localização da área a sondar.

 

De facto, a surriba realizada em 1997 colocou à superfície grandes quantidades de pedra. Apesar da afectação que gerou uma primeira camada revolvida de quase 1 metro de profundidade, optou-se por começar manualmente a escavação, na esperança que ainda seja possível ter uma idieia do que ali estaria em positivo, através da dispersão das pedras nessa camada revolvida.

Para já começam a aparecer bastantes logo abaixo da superfície. Os materiais, esses, são na quantidade do costume. O mais interessante de hoje foi uma metade de ídolo cilíndrico de calcário.

 

 

 O início

E para terminar o dia, tivemos a visita do presidente da Estónia à Exposição dos Perdigões, na torre medieval da Herdade do Esporão. Quando lhe falava da investigação ali realizada perguntou-me se havia "public funding". Lá tive que dizer que durante oito anos sim, mas que nos últimos três praticamente não tem havido financiamento do poder central à investigação arqueológica. De facto, a campanha deste ano é inteiramente financiada pela Esporão S.A., pela ERA, com o apoio de um privado individual e com o apoio da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz.

E no entanto o Estado Espanhol, ao financiar a equipa da Universidade de  Málaga que inicia as suas escavações nos Perdigões já na próxima semana, é mais um parceiro a investir na investigação dos Perdigões. Ironias.


0164 - QUANDO A ARQUEOLOGIA ORIENTA A ARQUITECTURA

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Praça D. Pedro IV, 1 a 3 e Rua Augusta, 285 a 295 - Lisboa

Os trabalhos arqueológicos que têm vindo a ser desenvolvidos no edifício sito na Praça D. Pedro IV, 1 a 3 e Rua Augusta, 285 a 295 - Lisboa (Edifício Loja das Meias), enquadram-se no âmbito da aplicação de medidas de minimização de impactes sobre o património arqueológico, decorrentes da sua eventual afectação por trabalhos de construção civil enquadrados no projecto de reabilitação / construção desta edificação.

A primeira intervenção, de diagnóstico, realizada em 2008, permitiu identificar estruturas pré-pombalinas abaixo dos edifícios actuais. Na sequência desta primeira intervenção, face ao projecto de arquitectura que se encontrava em vigor e ainda numa fase prévia ao início da empreitada, realizou-se uma segunda intervenção, com carácter de minimização (foi realizado um conjunto de nove sondagens nas áreas onde seriam abertas sapatas para estabilização do edifício).

 

 

 Figura 1 - Troço de calçada séc. XVII/XVIII

 

Face aos resultados obtidos, realizou-se a sobreposição da localização das estruturas identificadas nas sondagens 4,5 e 6 sobre plantas da cidade de Lisboa anteriores à reestruturação da rede urbana por parte do Marquês de Pombal, e estas parecem coincidir com as paredes Este do edifício anteriormente localizado na antiga Rua dos Odreiros, que fazia esquina com a praça do Rossio. Por outro lado, a calçada registada nas sondagens 2 e 3, adapta-se ao traçado das ruas no período pré-pombalino. A estrutura identificada na sondagem 7 coincide, por sua vez, com a parede Oeste do antigo edifício situado na Rua dos Escudeiros e as estruturas das sondagens 8 e 9 com a parede Norte do edifício seguinte. A calçada identificada nas sondagens 8 e 9 parece corresponder com a localização da rua transversal a estes edifícios. Foram ainda identificadas nas sondagens 2,3, 8 e 9 estruturas anteriores às pré-pombalinas.

Estas estruturas, referenciadas nas plantas da cidade de Lisboa anteriores a 1755, revelam o traçado urbano original desta zona da cidade antes da reformulação da malha urbana efectuada após o sismo ocorrido em Novembro do mesmo ano.

 

   

 Figura 2 e 3 - Localização das estruturas identificadas na planta do edifício e sobreposição do traçado urbano pré-pombalino com a actual malha urbana (in "Peregrinações", Livro XII).

 

Actualmente, decorre o acompanhamento arqueológico desta empreitada. Face aos resultados das primeiras intervenções arqueológicas e dado o nível de estabilização do edifício, optou-se por uma alteração do projecto de arquitectura. Assim, não se irão realizar as sapatas inicialmente previstas, que atingiriam uma profundidade de cerca 1,5m, e irá construir-se um ensoleiramento único que apenas atingirá uma profundidade de cerca de 0,70m, afectando, maioritariamente, níveis de aterro.

Lúcia Miguel / Susana Pires / Inês Mendes da Silva


0163 - Revolução empírica

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Tenho falado e escrito bastante sobre a revolução empírica em curso na Pré-História Recente do Sudoeste Peninsular. Os projectos decorrentes da minimização das redes de rega de Alqueva, tendo a EDIA, S.A como promotor, são dos que mais têm contribuído para essas novas "paisagens arqueológicas" em construção.

Um exemplo, que acabei de visitar, é o do sítio do Outeiro Alto 2 em Brinches (Serpa) , em escavação por uma equipa da ERA dirigida no campo por Víctor Filipe e coordenada por Sandra Brazuna.

Trata-se de uma conjunto de fossas e hipogeus concentrados numa pequena área (cerca de 40 estruturas negativas).

 

 Víctor Filipe e o plano das fossas, bem concentradas.

 

 

 Vista geral da escavação

  Este tipo de contextos, que têm surgido em abundância nos últimos tempos no distrito de Beja (e também no de Évora) eram pouco frequentes em território português, embora frequentes e conhecidos desde há muito no vizinho território espanhol. A tardia descoberta da sua real expressão arqueológica deve-se, em grande medida, à natureza pouco expressiva e de difícil detecção destas realidades arqueológicas, só passíveis de serem reconhecidas no âmbito destes empreendimentos de modernização de infraestruturas (o que nos diz bem do seu real impacto positivo no desenvolvimento do conhecimento, apesar do implícito impacto negativo que sempre acarretam).

No caso do OC2, existem inúmeras fossas (muitas só com sedimentos e praticamente sem materiais), mas também pequenos hipogeus funerários.

 

  

Hipogeu, com poço de entrada e câmara funerária (em priemeiro plano, amostragem para datação de luminescência; em segundo, antropóloga escavando restos osteológicos na câmara).

 É ainda prematuro avançar grandes informações sobre este contexto. Talvez apenas que nos dois hipogeus aparecem lâminas de sílex que, associadas a uma ausência quase total de cerâmicas até ao momento, faz lembrar a necrópole de Hipogeus da Sobeira de Cima (ali perto, na extremidade norte do concelho da Vidigueira), a qual vai progressivamente deixando de estar sozinha e surgindo enquadrada por uma realidade funerária que se vem delineando a sul da Serra de Portel e que estruturalmente se contrapõe à grande mancha megalítica que se localiza a norte daquela linha de relevo que separa a peneplanície de Beja da de Évora. Uma fronteira de tradições arquitectónicas funerárias, sem dúvida. Resta saber a que outros níveis do fenómenos social global se estende esse contraste.

 

  

 Aspecto de um trabalho difícil.

Para garantir a possibilidade de uma referenciação cronológica de um conjunto de fossas, entre as quais várias sem materiais nos seus enchimentos, estão a ser recolhidas amostras para permitir posteriores datações por B-OSL.

 

  

 Local de amostragem em mediação de radiação.

Há toda uma nova Pré-História a reescrever sobre o Sudoeste Peninsular. Assim tenhamos as condições e as capacidades para o fazer.

António Carlos Valera


0162 - Era uma vez o património - 27

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Perdigões Sempre

   

 

Os Perdigões correspondem na ERA a um mito fundacional. A origem da nossa empresa está ancorada nas vicissitudes do seu primeiro projecto, concretizado em 1997 neste extraordinário sítio arqueológico; tão rico que, não sabendo bem como o apelidar, passou a ser designado de Complexo Arqueológico dos Perdigões. Esse acto fundacional marcou a nossa identidade e a persistência que mantemos na luta pela sua investigação mostra a tenacidade e a ambição do projecto da ERA.

Por isso, é emocionante saber, apesar de não estar no terreno, que 12 anos depois, a equipa que está a desbravar novos horizontes, concretizando um ambicioso programa de prospecções geofísicas, é constituída por especialistas de grande qualidade e que o trabalho que fazemos será uma referência no lento processo de conhecimento da pré-história recente europeia. Neste local, em que tantos segredos estão enterrados, está a crescer o nosso projecto de Arqueologia em Construção. Dele fizeram e fazem parte muitos colaboradores. Agora, destaca-se a equipa espanhola liderada por Marquez Romero da Universidade de Málaga e Helmut Becker, esse "mago" ao serviço da Arqueologia. Não estamos sós.

Miguel Lago, Julho de 2009


0161 - E o Património, Dra?

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Um pequeno país e uma grande oportunidade!

O que fazer com as potencialidades do turismo em Portugal?

A crise económica abre portas a um novo modelo de turismo.

Procura diferente com oferta inovadora.

Os grandes protagonistas do turismo português e convidados internacionais reúnem-se num debate, em directo das minas de sal-gema, em Loulé, a 240 metros de profundidade.

Que turismo para Portugal?

As respostas, segunda-feira à noite.

Moderação da jornalista Fátima Campos Ferreira.

 

Assim rezava o texto de apresentação do programa "Especial Informação" sobre o futuro do turismo em Portugal, que a RTP transmitiu em horário nobre na passada Segunda-feira, dia 22 de Junho.

Durante duas horas (ou mais, nem sei), um "painel" de empresários, engenheiros, ministros, autarcas e outros "especialistas" dissertou sobre todas as possibilidades, oportunidades, novidades e facilidades que se abrem ao "novo" turismo português, analisou tudo o que Portugal tem para oferecer e que não existe em mais nenhum lugar do mundo, avançou soluções "estruturantes" para ultrapassar todos os obstáculos que se poderão apresentar ao desenvolvimento da indústria que, segundo os "especialistas internacionais", se apresenta como "O Único Futuro Possível Para Portugal" e de tudo o que o nosso governo (duas horas de campanha à borla na TV não são para desprezar) tem feito para facilitar tudo a todos.

Tudo? Todos?

Durante todo o programa, a palavra "Património" não foi usada mais do que cinco vezes e, sempre que o foi, apareceu associada a coisas como gastronomia, vinhos, clima ou natureza. Sempre que se falou de cultura, a palavra significava exposições de arte, festas populares ou espectáculos. Por uma única vez (que eu tenha ouvido) se pronunciou a palavra "Monumentos" e nunca, em todo o programa, se ouviu falar em Arqueologia.

Ficámos no entanto a saber que temos o melhor campo de golfe do Mundo...

Miguel Duarte de Almeida


0160 - Geofísica nos Perdigões

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 No âmbito da colaboração da Universidade de Málaga no Programa Global de Investigação nos Perdigões, retomaram-se as prospecção geofísicas, agora recorrendo a magnometria e a Helmut Becker. Os resultados preliminares são prometedores e já se podem perceber nos primeiros drafts vários fossos, negativos de pelo menos duas paliçadas e cabanas.

A ver vamos. Mas que a coisa promete, promete.

 


0159 - Era uma vez o património - 26

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Indiana Jones está ao telefone!?

 

 

 É evidente que o Prof. Indiana Jones, eminente arqueólogo de uma qualquer universidade dos EUA, é uma personagem de ficção. Todos sabem isso. A sua formulação enraíza-se em arquétipos literários e cinematográficos de aventuras.

Não tenho dúvidas: a Arqueologia é, no nosso tempo, uma das "últimas fronteiras" da humanidade, um dos domínios do quotidiano em que a aventura da descoberta e do conhecimento são particularmente singulares e profícuas. Todos os dias conhecemos um pouco mais, mesmo num mundo em que muitos arqueólogos passam tanto tempo ao telefone. O que Indiana Jones tinha de veloz e incrível na narrativa aventurosa é proporcional ao seu irrealismo. Que funciona.

Tendemos a olhar para o passado e para os mitos, como o do Dr. Jones, com alguma nostalgia, até porque, nos tempos que correm, tudo parece difícil e precário. Mas, afinal, para que fazemos Arqueologia? Será possível a Aventura?

Diz um ditado que "a sorte cuida-se"; eu diria "a Aventura procura-se". Mesmo ao telefone (ao serviço de uma empresa).

 

 

Miguel Lago, Junho de 2009


0158 - Levantamento de um Talha-mar

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No âmbito do acompanhamento da requalificação de infra-estruturas da EPAL na Avenida Ribeira das Naus, em Lisboa, procedeu-se ao levantamento gráfico de um Talha-mar.

 

   

Pavimento lajeado associado ao Talha-mar.

 

Face ao carácter de emergência da obra, o tempo foi um dos factores mais equacionados para a aplicação de metodologias que resultassem de um modo eficaz e breve, mantendo sempre o teor máximo da qualidade do registo.

Antes de se avançar com uma metodologia de trabalho, houve necessidade de proceder em primeiro lugar a uma avaliação de toda a envolvente da obra, nomeadamente as condições de segurança (águas pluviais, níveis da marés, dimensões e profundidade das valas e presença de diversas infraestruturas) e a exiguidade do espaço entre a vala e o talha-mar.

 

 

Vista do Talha-mar no interior da vala

 

Tratando-se de uma obra de grande amplitude e de fulcral importância para a requalificação dos serviços dos munícipes, gera uma consciência e responsabilidade acrescida, pela gestão dos meios utilizados.

Finda a avaliação de todas as condicionantes, passámos para a segunda fase do trabalho, onde se procedeu à adaptação das metodologias (levantamento fotográfico para a elaboração de ortofotos com o apoio de estação total), ao terreno, como forma de superar as dificuldades aqui registadas.

Uma das resoluções principais passou por bombear as águas, e tentar secar a área o mais possível, a outra implicou um aumento do registo fotográfico e do número de pontos georreferenciados, necessários para a obtenção do registo gráfico vectorial do talha-mar.

 

 

Apoio de estação total, para a criação espacial do objecto

 

José Pedro Machado


0157 - Estruturas portuárias na Avenida Ribeira das Naus

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Gravura de Lisboa a partir do Tejo, século XVII, ca. 1650, In  Biblioteca Nacional Digital.

 

Os trabalhos de movimentação de terras inerentes à execução da obra da EPAL PRR 57 DN 1000 Praça do Comércio - Corpo Santo têm vindo a ser acompanhados pela ERA desde o seu início em Fevereiro de 2009. A execução de tal tarefa tem implicado para além das acções de acompanhamento sistemático, uma disponibilidade permanente para a mobilização de equipas de reforço para registo específico e fotografia ortogonal georreferenciada, assim como a recorrente contrastação entre as realidades detectadas e a informação documental e iconográfica disponível. Nas linhas que se seguem apresenta-se uma breve súmula dos resultados preliminares de um trabalho em curso.

Relativamente ao espaço intervencionado, desde longo tempo, que existem registos nesta faixa costeira de uma intensa faina construtiva de embarcações, no entanto, será só no reinado de D. Manuel I, sobretudo a partir de 1501, que esta actividade se acentuou, passando a designar-se o local por Ribeira das Naus.

O Terramoto de 1755 faz jazer sob os escombros o supra referenciado complexo, cujos estaleiros, armazéns de pólvora, armas, aprovisionamento de géneros, se definem como um vector essencial na gesta marítima portuguesa.

Em 1759, iniciam-se os trabalhos de reconstrução do Arsenal da Marinha, designação oficialmente atribuída a partir de 1774, sob a responsabilidade de Eugénio dos Santos - executor e inspector de todas as reais obras de arquitectura da corte, arquitecto supranumerário das obras do Paço da Ribeira de Lisboa, arquitecto e medidor da Marinha.

De entre as realidades identificadas que ilustram a relação perene da capital com as actividades fluvio- marítimas, duas se destacam  pelo seu carácter robusto e monumental.

Assim ao longo dos trabalhos de abertura de vala na confluência entre o Largo do Corpo Santo e o Cais do Sodré foi identificada uma estrutura de contenção de margem, com orientação Norte-Sul e cujo paramento no sentido meridional sofre uma inflexão para poente.

 

 

Pormenor do paramento Oeste

 

A supra mencionada estrutura, composta por silhares em calcário de secção rectangular, apresentando cavidades e negativos para elementos de amarração, encontra-se em excelente estado de conservação.

A realidade detectada, de robustas dimensões, revelou-se incompatível com o sentido da conduta a instalar e, após parecer por parte do IGESPAR-IP, foi necessário proceder a alterações ao projecto inicial da EPAL, de forma a não afectar a estrutura portuária em questão.

 

 

Vista geral do topo da realidade supra - referenciada, são visíveis as marcas deixadas pela anterior instalação de infra-estruturas.

 

Já na confluência entre a Avenida Ribeira das Naus e a Praça do Comércio, foi detectada a existência de um talha-mar, cujo complexo era constituído por um paredão e um conjunto de três galerias, que se assumiam como um vector de protecção de margem, diminuindo a potência do fluxo e refluxo de rebentação da maré, e, por consequência a redução do efeito de desgaste e erosão fluvial.

 

 No sentido dos ponteiros do relógio, a partir do canto superior esquerdo - vista geral do interior da galeria sul, pormenor dos blocos calcários pertencentes ao paredão, levantamento volumétrico e arquitectónico da estrutura, silhar de separação entre galerias.

 

Durante o acompanhamento dos trabalhos de remoção de terras, foram identificadas outras realidades de cariz portuário e de relação com o rio - pontões, paredões, estacaria em madeira, lajeados, estruturas essas enquadradas cronologicamente entre a reconstrução do Arsenal da Marinha após o Terramoto de 1755 até ao seu encerramento definitivo em 1939, depois da sua transferência para o Alfeite, na outra margem do Tejo.

 

 

Supra - Lajeado a terminar em paredão de contenção de margem.

Infra - Pormenor de estacaria em madeira e registo gráfico.

 

Finalmente, de realçar a importância de uma estratégia de salvaguarda arqueológica para estes contextos de relação fluvio-marítima, num momento em que estão em curso diversos projectos de requalificação da frente ribeirinha que, necessariamente, deverão integrar a preservação e conhecimento destas realidades patrimoniais de inequívoca importância para a história de Lisboa e do país.

No caso do tipo de trabalhos arqueológicos a que agora se faz menção, torna-se manifesta a necessidade de uma articulação eficaz e permanente entre todas as entidades envolvidas no projecto (Equipa de Arqueologia, Dono de Obra, Entidades Tutelares, Entidades Municipais). Tal articulação implica forçosamente a antecipação de cenários de impasse e tomada de decisão susceptíveis de, por motivos de carácter patrimonial, conduzir a alterações do que foi projectado e respectivos ritmos de execução. O envolvimento institucional e a indispensável clareza na circulação de informação técnica entre os diversos intervenientes são o garante da preservação efectiva de um recurso finito, insubstituível e pertença de todos: o património cultural.

 

Rui Carvalho do Nascimento

Alexandre Sarrazola


0156 - À Noite no Museu

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Imagem: movies.yahoo.com/

Este ano não fui à Noite dos Museus.

Há um ano fui a uma das do Museu de Odrinhas que, justiça lhes seja feita, não fizeram uma, mas sim quatro.

Pois, é engraçado, o ambiente é diferente e até nos dão mais atenção do que é costume.

O problema é que, na maioria dos museus, faz-se isto uma vez por ano e fica-se convencido que o que havia a fazer pelo público nesse ano está feito.

Se é tão giro ir ao museu à noite e as direcções sabem disso, porque é que não se transforma este tipo de eventos numa prática corrente, por exemplo todos os fins-de-semana? E já agora, se faziam favor, pagavam as horas extra aos funcionários (uma noite de voluntariado de vez em quando admite-se, todas as semanas era abuso), e contratavam actores para as partes dramatizadas, pode ser?

Já que estão com a "mão na massa" podem aproveitar e prolongar os horários para ver se os museus não são só para os turistas e, aproveitando o embalo, também podem acabar com a aberração que é fecharem as portas aos Domingos e Feriados. O povo trabalhador agradece.

Falta dinheiro?

Peçam ao ministro. Parece que ele tem para lá 31 milhões e não sabe o que é que lhes há-de fazer.

Miguel Duarte de Almeida


0155 - Planos de leitura tecnico-científica

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Um dos problemas que afecta o desempenho profissional de muitos arqueólogos é a falta de uma prática corrente de leituras de natureza técnico-científica. Tal insuficiência está plasmada no seu trabalho e na própria tranquilidade que evidenciam relativamente aos seus próprios níveis de desconhecimento e ignorância. Ou seja, o problema que sublinho, mais que a ausência de leitura, é a ausência de um sentimento de desejo e necessidade de leitura para o cabal desempenho profissional.

Sublinhei noutro sítio (aqui) que sendo um problema que não está a ser convenientemente atacado a montante, na área de formação de base, seria bom atacá-lo a jusante, em pleno espaço de prática profissional. E avancei com a ideia de desenvolver planos de leitura, organizados temática, espacial e/ou cronologicamente. Planos que fossem pensados em função de objectivos específicos, bem  estruturados e praticáveis em contextos de desempenho profissional.  

Esses planos devem, para além dos assuntos específicos que abordam, ter um objectivo comum: o consciencializar para o facto de que a profissão não pode ser desempenhada competentemente sem uma razoável dedicação à leitura técnico-científica da disciplina e respectivas áreas de intercepção disciplinar.

Hoje em dia, a produção de "literatura" técnico-científica é enorme e qualquer estratégia de actualização é sempre parcelar. Por outro lado, a explosão de compartimentações temáticas, vulgo especializações, obriga a um esforço de equilíbrios entre conhecimentos gerais relativos a vários compartimentos e um bom conhecimento especializado de alguns deles.

Significa isto que uma orientação das leituras é essencial. A existência de planos de leitura temáticos poderia ser uma boa ajuda, minimizando os efeitos de uma formação insuficiente e pouco exigente.

Mas o problema poderá estar precisamente aqui, na exigência. É que ela tem que surgir primeiro nos próprios para consigo prórprios.


0154 - Património assim… era uma vez!

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Castelo de Alegrete, à espera da derrocada final

Diariamente chegam ao nosso conhecimento notícias de atentados sobre o Património. Se algumas vezes se sabe quem os cometeu e outras nem por isso, o que nunca parece claro é se os casos foram denunciados às autoridades e, se o foram, qual foi o desenvolvimento que essas denúncias tiveram. Mesmo nos casos de "flagrante delito" nada parece acontecer aos infractores. Em muitos sítios arqueológicos, não fora a acção de vigilância desenvolvida pelos habitantes das proximidades, e a destruição poderia ser muito mais grave.

Poder-se-á alegar que as autarquias poderiam fazer muito mais na protecção do património existente nas suas zonas mas também sabemos que esse é um papel que não lhes pode ser confiado por inteiro, sob pena de, a curto prazo, a falta de cuidado ou a estranha incompatibilidade que parece haver nas cabeças dos nossos Presidentes de Câmara entre Património e "Desenvolvimento" fazerem mais estragos irremediáveis no primeiro, notoriamente o lado mais fraco deste "conflito". A propósito, a destruição pela não conservação de Património já classificado não é considerada crime? E, se não é, não deveria ser?

Enquanto não se virem verdadeiras condenações de infractores sobre o Património (de qualquer origem, privada ou pública, incluindo os próprios arqueólogos e as empresas de Arqueologia), os sítios vão continuar a ser destruídos.

Sonham os arqueólogos que, um dia, as pessoas passem a encarar a protecção do Património como já vão começando a fazer em relação ao ambiente. Não me parece que seja um objectivo facilmente alcançável. A não ser que alguém nos convença a todos que a destruição de um monumento megalítico pode provocar doenças incuráveis ou que arrasar um complexo de termas romanas terá como consequência Verões com temperaturas acima dos cinquenta graus.

Miguel Duarte de Almeida


0153 - Chaves, Março de 1809 - Março de 2009

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Em Março de 2009 a ERA iniciou os trabalhos arqueológicos de minimização de impacte (acompanhamento e sondagens) no âmbito do Sistema Multimunicipal de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais de Trás-os-Montes e Alto Douro (ATMAD) em Chaves.

 

   Aspecto dos trabalhos

No decurso da sondagem realizada na zona da Madalena (Jardim Público), foi detectada a presença de restos osteológicos humanos, justificando a convocação de uma equipa de antropologia biológica. Num momento em que foi concluída a primeira fase da intervenção, é possível revelar que foram registados 4 enterramentos de indivíduos adultos inumados em fossa colectiva. A presença de botões de fardamento in situ e de uma bala de mosquete na zona do abdómen de um dos indivíduos permite uma associação destas evidências aos resultados de anteriores intervenções realizadas na área do Jardim Público de Chaves.

 

Enterramento em fase de escavação

Em suma, uma das hipóteses interpretativas que se considera pertinente destacar é a associação destas inumações a um eventual Hospital Militar de Campanha no contexto da Guerra Peninsular, mais concretamente a segunda das Invasões Francesas. No entanto, a confirmação de tais conclusões carece de uma abordagem multidisciplinar e aprofundada nomeadamente nos domínios da antropologia e do estudo da componente material associada a estes enterramentos.

 

Representações de militares franceses do Exército Napoleónico

Não deixa de ser uma interessante coincidência que estes achados ocorram num ano (e no mês) em que se comemoram em Chaves os 200 anos da 2ª Invasão Francesa (Março de 1809). Tal facto assume contornos de real importância do ponto de vista da divulgação patrimonial e configura uma janela de oportunidade para as entidades envolvidas no projecto no sentido de promover o retorno social e a valorização da memória colectiva e dos fundamentos culturais da cidadania.

Maria Luís Vilhena de Carvalho

Alexandre Sarrazola


0152 - Era uma vez o património 25

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Em Faro

 

A reabilitação urbana em Faro pode implicar trabalhos arqueológicos. Exemplo disso é a escavação que a ERA tem em curso na Vila Adentro, ou seja, dentro de muralhas, na área mais antiga da cidade.

 

O imóvel, parcialmente arruinado, insere-se numa área intensamente ocupada ao longo de muitos séculos. É constituído um corpo edificado e por um fresco e tranquilo jardim, limítrofe a um troço da muralha no qual se insere um pequeno torreão com vista sobre a ria. O projecto de obras será devidamente instruído pelos resultados da intervenção em curso que, até agora, identificou contextos a partir da Baixa Idade Média.

 

 

Miguel Lago, Maio de 2009

 


0151 - Tr. da Igreja Matriz (Guia, Albufeira)

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 O acompanhamento arqueológico compensa.

No decorrer do acompanhamento arqueológico que iniciou em Outubro de 2008 neste freguesia, foram detectados vestígios osteológicos humanos, o que conduziu à realização de uma sondagem de diagnóstico com o objectivo de avaliar o potencial arqueológico da área ainda a afectar pela abertura de vala.

A realização destes trabalhos permitiu identificar a presença de um contexto funerário parcialmente perturbado pela colocação de algumas infra-estruturas. Foi registado sobre o enterramento cristão um aterro, com azulejo do século XVII, possivelmente ali depositado após as obras de reconstrução da Igreja Matriz posteriores ao terramoto de 1755, onde alguns dos azulejos da igreja poderão ter sido substituídos. Após o levantamento do esqueleto, registou-se ainda uma estrutura funerária sobre a qual se encontrava depositado e sob esta, um depósito de aterro com cerâmica vidrada do séculos XVI- XVII.

 

Figura 1- Vista do esqueleto

O esqueleto encontrava-se bastante incompleto, condicionando a análise funerária. Não obstante, foi possível constatar que o indivíduo se encontrava deposto em decúbito dorsal e que teria uma mão sobre o seu tórax. Estava orientado com a cabeça para oeste (260º) e os pés para este (80º). Estas características de inumação foram já observadas em numerosas necrópoles cristãs facto que, aliado à proximidade que o indivíduo apresenta relativamente à Igreja Matriz da Guia, parece permitir enquadrar com segurança o indivíduo num contexto cultural cristão. O indivíduo apresenta uma estimativa da idade à morte entre os 14 e os 21 anos e uma diagnose sexual de mulher.

Face aos resultados obtidos foram propostos novos trabalhos de minimização que passam pela escavação integral da vala que ainda se prevê abrir na área da necrópole.

 

Figura 2 - Plano final da sondagem

Susana Pires / Ricardo Godinho / Inês Mendes da Silva


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