O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

Entrada

0255 - Achados Arqueológicos na Rua do Passadiço

Posted by: valera in Untagged  on

Um novo ponto no mapa da Lisboa Romana

A história antiga de Lisboa conta, a partir de agora, com uma nova página. É o que se depreende dos recentes achados arqueológicos na nossa freguesia que vê, assim, também enriquecida a sua história.

A obra do n.º 26 da Rua do Passadiço, situada numa área de intervenção de nível 2 relativamente ao seu potencial valor arqueológico, segundo o PDM de Lisboa, vinha sendo acompanhada já há algum tempo. No âmbito do acompanhamento arqueológico foram detectados vestígios que conduziram à necessidade de proceder a uma campanha de escavação arqueológica, mediante decisão decorrente de um acordo entre o dono da obra, ESAF - Espírito Santo Financeiros, o IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico e a ERA - Arqueologia S.A., cuja equipa de arqueólogos trabalhou neste arqueossítio.

Os resultados preliminares, no que até agora se pode avançar segundo os conhecimentos actuais, permitem constatar que estejamos perante uma descoberta inédita e de um novo ponto no mapa da Lisboa Romana.

Em suma, a descoberta de cerâmicas domésticas, nomeadamente do tipo terra sigillata, de numismas e de outras evidências materiais, bem como duma complexa organização arquitectónica, passíveis de datação mais exacta, mas inequivocamente romanas, permite concluir que estamos na presença de um sítio ocupado nos século I e II d.C. e correspondente ao apogeu da Lisboa Romana; ou seja, na mesma época da construção, ou existência, do Teatro Romano (reconstruído em 57. d.C.) e das Temas dos Cássios (na Rua das Pedras Negras).

Porém, esta descoberta situa-se nos arrabaldes da antiga cidade romana conhecida, no actual espaço da freguesia de São José, o que dota este achado de um inusitado e espectacular interesse não apenas para a história da freguesia mas para a construção da história de Lisboa.

Alexandre Sarrazola


0254 - Análise da Arqueologia Espanhola

Posted by: valera in Untagged  on

Um volume no prelo onde o NIA colaborou. Um exemplo que poderia ser seguido por cá.

"CHARLAS DE CAFÉ: El futuro de la Arqueología española

Editado por Jaime Almansa Sánchez en JAS Arqueología Editorial

Este volumen representa una primera aproximación colectiva al estado y el futuro de la Arqueología. A través de las impresiones de 50 profesionales relacionados con el sector, desde diferentes ámbitos y generaciones, se intentará ofrecer una perspectiva variada y sincera del estado de las cosas.

En la introducción se expondra en líneas generales un estado de la Arqueología española con una perspectiva global, que sirva como punto de partida al lector. A partir de ahí, vendrán las 50 colaboraciones. En el análisis, el objetivo será identificar los puntos comunes (atendiendo a las discrepancias) para tratar de concluir unas líneas básicas de trabajo. No intentaré crear una agenda, sino identificar los aspectos más relevantes que se puedan observar en las aportaciones y ponerlos en común.

Lista definitiva de participantes:

Valentín Álvarez (Joven-Investigador)

Agustín Azkárate (UPV)

Gonzalo Aranda (UGr)

Rafael Azuar (MARQ)

David Barreiro (IEGPS-CSIC)

Cinta Bellmunt (IPHS-URV)

Rebeca Blanco (IEGPS-CSIC)

Carlos Cañete (Joven-Doctor)

Alicia Castillo (UCM)

Juan Carlos Castro (Comercial)

Felipe Criado Boado (IEGPS-CSIC)

Bea Comendador Rey (UVigo)

Gonzalo Compañy (Investigador-Extranjero)

Margarita Díaz Andreu (DurhamU)

Rosa Domínguez (Comercial)

José Antonio Estévez (Ayto. Cáceres)

Riccardo Frigoli (Comercial-Extranjero)

Maite García Rojas (Joven-Investigadora)

Soledad Gil (Comercial-AMTTA)

Alfredo González Ruibal (IEGPS-CSIC)

Rosa Gurrea (Ayto. Eivissa)

Pablo Guerra (Joven-Comercial)

Sonia Gutierrez Lloret (UA)

Clara Hernando (Joven-Investigadora)

David Javaloyas Molina (Joven-Investigador)

Pilar López (ERC-Internacional)

Olalla López Costas (USC-Antropóloga)

Sandra Lozano (Joven-Investigadora)

Beatriz Marín (Joven-Investigadora)

Carlos Marín (Joven-Investigador)

Belén Martínez (Ayto. Madrid)

Alba Masclans Latorre (Strat Jove)

Antonio Nicolau (Consultor)

Roberto Ontañón Peredo (Admon. Cantabria)

Eva Parga Dans (IEGPS-CSIC-Economista)

José Peñarroya (Comercial)

Saúl Pérez (Comercial)

Nines Querol (UCM)

Francisco Ramos (Comercial)

Carme Rissech (UB-Antropóloga)

Carmen Rodríguez (Cueva Pintada)

Ignacio Rodríguez Temiño (CA Carmona-Junta de Andalucía)

Jorge Rolland (Joven-Doctor)

Arturo Ruiz (UJaén)

María Ruiz del Árbol (IH-CSIC)

Pilar Sada (MNAT)

Margarita Sánchez Romero (UGr)

Nuria Sanz (UNESCO-Internacional)

Jesús Sesma (Admon. Navarra)

Ramón Ten Carne (Admon. Cataluña)

Antonio Valera (Investigador-Extranjero)

Eva Zarco (Comercial-CDLMadrid)


0253 - Era uma vez o património - 55

Posted by: valera in Untagged  on

Valerá a pena comprar?

 

 

Não. De todo. Não pudemos continuar a gastar recursos em Arqueologia inútil.

Se já era mau, agora ainda é pior. Se já eram escassos os recursos, agora são quase residuais. Por isso, mais do que nunca, quem presta serviços em Arqueologia deve lutar pela elevação da qualidade dos seus serviços. E, por isso mesmo, os serviços do Estado devem estar ao serviço da produção de conhecimento sobre o passado, da eficácia e da transparência de processos para os cidadãos bem como da regulação da actividade actualmente promovida e concretizada por entidades privadas.

No entanto, a realidade é paradoxal: compra-se Arqueologia para ter um papel que permita desbloquear processos, descurando-se a produção de conhecimento, a verdadeira razão de ser da prática arqueológica. É possível ter mais qualidade quando quem compra pretende apenas um carimbo, porque sabe que as consequências da contratação de um mau trabalho são nulas? Dificilmente, para não dizer impossível.

Duas vias devem ser prosseguidas, entrecruzando de forma eficaz entidades Públicas e Privadas. A primeira assenta no papel a desempenhar pelo Estado, em que a tutela deve ser muito, mas muito mais exigente, quer ao nível dos planos de trabalho, das qualificações de quem dirige e integra equipas de trabalho e principalmente dos resultados obtidos. A segunda implica o trilhar de novos caminhos para um efectivo retorno social e económico dos investimentos, em benefício da comunidade, dos promotores de projectos e dos que com eles se envolvem; aqui, o papel daquilo a que no Brasil se chama Educação Patrimonial é fulcral: divulgar é a palavra-chave para sensibilizar e tornar relevante o conhecimento produzido pelos projectos de Arqueologia. Só assim valerá a pena gastar dinheiro.

Miguel Lago, Junho de 2011

 


0252 - Era uma vez o património - 54

Posted by: valera in Untagged  on

Investigação: entre o público e o privado

 

É surpreendente a atitude do Estado relativamente ao financiamento público de projectos de investigação de Arqueologia promovidos por empresas privadas, já que estas são discriminadas face às universidades. De facto, se uma empresa reunir os mesmos critérios de qualidade de projectos e de competência dos seus investigadores e se a investigação proposta for de manifesto interesse público, será aceitável que o estado não considere em pé de igualdade estas diferentes instituições?

Coloca-se, eventualmente, a questão do lucro obtido pelos resultados de tais projectos. A acontecer, não poderia ser contratualizada entre as partes uma contrapartida para o Estado financiador?

Qual o objectivo do Estado, promover a melhor investigação possível, independentemente de quem a promove, ou evitar eventuais lucros?

Miguel Lago, Junho de 2011


0251 - Era uma vez o Património – 53

Posted by: valera in Untagged  on

O tempo que falta

 

 

Aproximamo-nos do fim de um ciclo político. Infelizmente, foram tempos sem política de Património ao longo dos quais o Estado se foi anulando relativamente às suas funções, sem sequer colocar à discussão caminhos alternativos. Lamentavelmente, a um Estado fraco não sucederam entidades privadas fortemente empenhadas no Património. Sob este aspecto, saliente-se o facto de, na área da Arqueologia, ser cada vez mais evidente que cabe aos promotores assumirem as despesas inerentes a processos de minimização de impactes que promovem sobre bens patrimoniais. Esse parece um processo consolidado, sendo assumido como um custo a ter em conta. Infelizmente, no que aos níveis de exigência da administração pública diz respeito, os avanços foram nulos, estando o nivelamento a ser realizado por baixo. Excessivamente por baixo. Quem paga, paga pouco e, muitas vezes, paga para obter apenas uma mão cheia de nada: de nada mais do que um papel desbloqueador de projectos incidindo em meio urbano ou rural.

Quem pensa o Património? Quem vai trilhar novas políticas e implementar soluções?

Na Arqueologia, a passividade é assustadora e a (in)capacidade de mobilizar gente capaz de pensar o futuro parece ser uma impossibilidade.

Afinal, para que queremos actuar sobre o Património arqueológico? E como vamos condicionar a realidade? Ideias, precisamos de ideias!

Miguel Lago, Maio de 2011


0250 - Blog sobre recintos

Posted by: valera in Untagged  on

Foi criado um novo blog sobre recintos portugueses que visa disponibilizar informação (em inglês) sobre estes contextos da Pré-História Recente portuguesa.

Trata-se de um projecto pessoal, mas intimamente ligado à actividade do NIA.

 

 


0249 - Era uma vez o Património – 52

Posted by: valera in Untagged  on

 

Novas oportunidades

 

 

 

Vivemos um tempo de mudanças profundas. Os problemas são muitos; os receios e a insegurança são imensos. No entanto, as oportunidades que se abrem não podem ser desaproveitadas.

A este propósito, salientem-se dois aspectos relativos à nossa Arqueologia: a eterna alteração do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos e a evolução necessária na organização administrativa da tutela do património arqueológico.

Sem entrar em aspectos de opinião pessoal, recomenda-se que nos próximos tempos os profissionais de arqueologia se mobilizem em torno destes aspectos (entre outros) porque sem transformações, teremos uma gestão da realidade mais difícil e uma evolução da profissão claramente hipotecada. Todos estamos envolvidos, disso não restem dúvidas; no entanto, seria conveniente que a APA - Associação Profissional de Arqueólogos conseguisse desempenhar um papel central ao debate, gerando discussões, troca de opiniões e consensos possíveis. Quem se vai empenhar?

Miguel Lago, Abril de 2011

 


0248 - Monte da Quinta 2

Posted by: valera in Untagged  on

 

Resumo da comunicação a apresentar na Conferência: "Pré-história das zonas húmidas. Paisagens de sal."

Resumo

 Monte da Quinta 2: produção especializada e circulação de sal na Pré-História Recente

O papel do sal na economia das comunidades da Pré-História Recente Peninsular tem, nos últimos anos, merecido uma particular atenção, graças a um conjuntos de sítios que têm vindo a ser intervencionados em grandes estuários, no litoral ou no interior peninsular.

Neste âmbito, o Monte da Quinta 2 assume-se como um dos contextos mais importantes a nível da Península Ibérica para a análise da organização produtiva de sal, tanto ao nível da tecnologia utilizada, como ao nível das estratégias produtivas e de circulação deste produto.

O contexto apresenta evidências que documentam uma actividade com níveis consideráveis de especialização nas "ferramentas" produtivas e na própria produção, a qual se apresenta como orientada para o abastecimento de outras áreas, nomeadamente o interior alentejano.

 Esta situação reforça a ideia que, em termos regionais, existe, no Neolítico Final / Calcolítico, uma relação económica entre diferentes nichos ecológicos, que pode gerar processos de alguma especialização produtiva, mas cuja base sócio-política está, contudo, ainda totalmente aberta ao debate.

Nesta conferência, partindo da apresentação do contexto do Monte da Quinta, estas questões serão problematizadas e discutidas.

 


0247 - Sal na Pré-História

Posted by: valera in Untagged  on

Congresso dedicado à exploração de Sal na Pré-História:

O NIA estará presente com uma conferência sobre a produção de sal no sítio do Monte da Quinta (Benavente) e as suas implicações para o discurso sobre as comunidades neo-calcolíticas do centro de Portugal. 

 


0246 - Política Editorial do Blog

Posted by: valera in Untagged  on

Até hoje, o Blog do NIA foi um espaço totalmente aberto ao comentário dos artigos publicados, podendo os leitores colocar directamente as suas opiniões sem qualquer interferência de um moderador.

Esta política, adoptada desde o início, baseava-se na convicção de que a liberdade de expressão é um bem a preservar e, simultaneamente, uma responsabilização cívica. De facto, o uso da liberdade implica uma ética e uma postura de responsabilidade. Quando esta não é assumida, é a própria liberdade que é posta em causa.

Nos últimos tempos, um post aqui colocado suscitou uma sequência de comentários críticos relativamente à ERA Arqueologia. Progressivamente, o nível desses comentários foi-se degradando, chegando à ofensa, à invenção de situações delirantes, à provocação gratuita, à difamação, grande parte de tudo isto feito sob anonimato, gerando algumas respostas não menos criticáveis pelo tom e estilo.

Durante todo este tempo, fui resistindo à mudança de política de comentários. E resisti para além dos 150 comentários. Expliquei porquê e esperei que o bom senso, a educação e a responsabilidade tomassem conta de todos aqueles que participaram. Essa, contudo, não foi a opção. A continuação de comentários totalmente delirantes revelaram que nada há a esperar relativamente à postura de algumas destas pessoas, pelo que, pedindo desculpa aos que poderiam ter intenções sérias e responsáveis, me vejo obrigado, na minha consciência e juízo das coisas, a introduzir a moderação nos comentários. Os comentários já publicados continuarão acessíveis, porque as imagens que deles transparecem, porque representativas de uma certa realidade, são um importante documento.

A participação crítica estará, como sempre esteve, aberta a todos. Por crítica entendo a expressão da opinião livre, fundamentada, informada, responsável, inteligente e identificada, excluindo a difamação, a mentira, a má fé, a provocação gratuita e o delírio doentio de quem, para se confortar ou provocar, imagina situações falsas e da mais pura irrealidade. A decisão de moderação é da minha exclusiva responsabilidade (seria desnecessário afirmá-lo, mas perante as últimas acusações não quero que restem dúvidas sobre quem deve ser responsabilizado pela decisão) e essa mesma moderação ficará à minha responsabilidade.

Todos os que quiserem participar, comentando de forma séria e de forma crítica (de acordo com a definição acima), estão convidados a continuar. Naturalmente a dinâmica de "diálogo" não será a mesma, porque será sujeita a uma moderação diária, perdendo-se o ritmo próprio da publicação directa. Mas a conclusão é a que nada, nesta nossa sociedade, parece poder funcionar bem sem fiscalização e moderação. Um sintoma da nossa menoridade.

António Carlos Valera


0245 - Património pensado

Posted by: valera in Untagged  on

Porque há gente interessante a pensar as questões do património, permitam-me que transcreva um post da mailing list Museum:

"Das mensagens que recebi por causa deste assunto apresento, com o necessário segredo, um dos diálogos mais pertinentes. Fá-lo-ei em formato de ficção.

Pergunta-me o prestigiado interlocutor (WZX):

Acredita mesmo que essa reforma pode ser feita?

Respondo (PM-C):

Acredito.

WZX:

Num momento como este, em que estamos quase à beira do precipício e da catástrofe?

PM-C:

Se me permite, prefiro chamar mudança (no pleno sentido técnico e cultural do termo) ao que chamou de "precipício e catástrofe". São tempos em que as pessoas e as comunidades se limpam das sujidades acumuladas...

WZX:

Talvez. Mas continuo a não acreditar que seja este o momento adequado para essa reforma.

PM-C:

Acredito que é nesta altura que as diferenças estão menos convencidas de si próprias. E por isso talvez capazes de concederem ouvirem as outras.

É o ruído desse seu convencimento que as constrói como ‘diferenças'. E que impede em tempos normais o diálogo a partir de uma exterioridade delas mesmas. Afinal, é sempre esse ruído que ouvimos para conseguirmos ser nós.

Este é o momento para esse ‘encontro'. O nome e o formato dessa reunião/debate pouco importa. O que conta é o contrato de confiança que esse altruísmo poderá semear para ela se fazer.

O brilho de tantas iniciativas e congressos, de tantos nomes e anúncios, de tantos prémios e eleições associativas, teima em silenciar a voz da maioria dos conservadores e responsáveis pelo património. Daqueles que trabalham dia a dia junto dele e chamam a atenção para a sua degradação. São esses que lidam com a prática que mais clamam por essa reforma. A Lista Museum que tem sem dúvida todos os méritos mas mostra apenas essa parte luzidia, esse lado mistificador da realidade patrimonial do nosso país. Sim, de certo modo tento remar contra esse conformismo.

Tratar do património no concreto não ocupa colunas de jornal, não é notícia, nem dá estatuto. Não serve para o curriculum. Nos tempos de agora conta sobretudo a identidade comunicativa que Habermas referia, mesmo sem qualquer substrato ou efeito.

Parece que ninguém se dá ao trabalho de ouvir os trabalhadores do património. Bem tentam desesperadamente, como no recente Livro Branco dos Conservadores dos Museus de França. Mas ninguém se importa. Continua-se freneticamente na azáfama das conferências, dos anúncios, das proclamações, e de iniciativas que apenas usam o património como um signo.

Sim, há uma reforma a fazer, lá no concreto da coisa a que chamamos património. Que não se resolve no discurso nem com o texto. É possível e útil fazê-la. Há ferramentas conceptuais e metodológicas novas que a permitem realizar. Há novos resultados na ciência e na interpretação do património que ainda não foram utilizados em Portugal. É por isso que vale a pena, e este é o momento certo.

WZX:

Mas você não acha que é necessário sair do património para o podermos pensar e interpretar, e assim guiarmos a sua gestão?

PM-C:

Estou de acordo com esse sair conceptual, desde que materialmente nunca dele tiremos as mãos.

Quando iniciei o ano passado, em Junho, o trabalho na Universidade (Clássica) de Lisboa justifiquei o projecto do seguinte modo: - "Os resultados e as repercussões da pesquisa que fizemos após o doutoramento indicam que a Questão Patrimonial só pode ser pensada através de categorias de um tipo lógico mais amplo. O motivo deste trabalho é exactamente a procura dessa condição necessária ao prosseguimento da reflexão e do estudo do Património e da Museologia. De facto só se conseguem compreender na relação com um contexto exterior àquilo que engendram dentro de si, concretamente com Cultura e a Comunicação. E a consciência de que o ‘Museu' não é o Património, é sobretudo uma narrativa e um acto de comunicação com os indivíduos e a comunidade. Mas, por outro lado a Questão Patrimonial obriga a Cultura e a Comunicação a reflectirem sobre as dicotomias que são os seus actuais problemas: local/global; herdado/adquirido; individual/social; estrutura/agência; contexto/processo; semelhança/diferença; construção/desconstrução; passado/futuro; permanência/mudança; material/imaterial; objecto/representação; suporte/documento; documento/informação.

Existem dois dados relevantes na pesquisa que fizemos que podem trazer um contributo para essa reflexão. Referimo-nos à descoberta da Estrutura do Valor Patrimonial, e ao discernimento de uma limitação etnocêntrica nas habituais análises á questão patrimonial."

No passado mês de Fevereiro terminei o referido trabalho ao qual dei o título de "A Cultura perante o Património".

Como vê o meu acordo não é meramente circunstancial, ou para fazer conversa.

WZX:

            Sim. Não sei se tem razão, mas é essa exterioridade a que me referia.

PM-C:

Aproveito para lhe enviar a Conclusão:

"Capítulo VII - CONCLUSÃO: "A compreensão do Património ocorre no domínio do fenómeno da Relevância. Em termos teóricos, o Estudo do Património visa a compreensão do processo que confere à realidade-existência a qualidade patrimonial, através de um modelo interpretativo que relaciona os processos de patrimonização, musealização e memória, cujo contexto é uma oscilação permanente entre Fenomenologia e Positivismo. Em termos práticos, visa obter um ‘suporte' com ‘documentos/dados' de partes da realidade-existência consideradas patrimonialmente relevantes cujo acesso pela ‘memória-cognição' não tenha limitações (espaciais, temporais, contextuais ou outras), eventualmente para obter uma vantagem adaptativa. Em que os designados ‘museu', ‘biblioteca', ‘arquivo', e outras infra-estruturas equiparadas servem para envolver alguns tipos de património, eventualmente para os melhor gerir e preservar.

O irresistível impulso contemporâneo de transformar a realidade em Património e pô-la em ‘museus' - desde objectos até cidades e mesmo regiões inteiras - será um sinal antecipador do futuro, ou o mero reflexo da conjuntura do presente? Seja qual for a resposta o Património parece ajudar os indivíduos a estarem juntos num sentimento de humanidade conjunta e global, decididamente antropocêntrico, que é o melhor antídoto para enfrentar a Mudança seja ela real ou imaginada. Talvez o frenesim contemporâneo de tudo querer patrimonizar e de tudo querer musealizar seja a expressão de alguma transformação prestes a ocorrer - tal como quando precisamos de «arrumar as coisas antes de uma longa viagem». Não por causa de qualquer arbítrio infundado. Mas por causa do mesmo esquema de sobrevivência que nos conduziu a sermos o que somos no processo da Vida. Por causa do receio - e da prudência - perante a inevitabilidade da Mudança. Para que tudo não termine para a espécie humana por causa da falta de tempo ou de espaço para onde irmos em resultado de um diletantismo imprudente.

Talvez seja para isso que sirva. Para nos prepararmos continuamente para a inexorabilidade da Mudança - essa condição sempre tão potente que simultaneamente nos pode fazer avançar ou levar à entropia e ao esquecimento. Não apenas para ficarmos com a memória da complexidade e das obras que fizemos, e somos capazes de fazer, sem se ter que regressar ao início ou refazer uma fase já ultrapassada. Não apenas para ficarmos com a memória do que fomos, mas também para, através do património, adquirirmos uma habilidade cada vez mais apurada para escolhermos o que é Relevante. E essa capacidade não é crucial apenas dentro da complexidade de cada contexto existencial, é-o também quando defrontamos o desconhecido ou a imprevisibilidade.

Este trabalho mostrou que durante o percurso histórico houve muitos objectos, muitos usos e muitos valores patrimoniais. E no futuro certamente muitos mais hão-de surgir. Mas mostrou também que de todas essas escolhas sobre o que é «vital e relevante» - a que damos o nome de Património - existem as estruturais, as conjunturais e as episódicas. As que estão na Estrutura do Valor Patrimonial provindas da anterioridade biológica; outras vindas da vida em sociedade; e outras, como o valor transformacional, acrescentadas pela complexidade cultural. Embora ainda não saibamos como se passa de umas para as outras sabemos que é possível fazer essa passagem, pelos contributos de E. Kandel, J. O'Keefe e J. Dostrovsky.

Esse processo de codificação da relevância - que mantém na Memória os critérios pelos quais escolhemos aquilo que é ‘património' - permanece perene desde há mil e oitocentos milhões de anos com o aparecimento da estratégia de vida Eucariote. Uma estratégia que guarda no núcleo da célula, protegidas por uma membrana, as informações vitais que hão-de ser transmitidas às gerações futuras. Assim mesmo. Tal como fazemos nos sítios que agora chamamos Museus. Uma estratégia que internamente, dentro do núcleo das células, funciona através de um processo comunicativo em grande parte semelhante ao que chamamos por ‘comunicação simbólica'. Porque ‘partes da matéria' são reconhecidas por outras ‘partes da matéria' não como realidades físicas mas como instruções diferenciadas, reguladas por um código que usa a combinatória de quatro ‘letras' formando o que se designa por genes, e cuja consequência é sintetizarem as proteínas que constituem a materialidade corpórea do ser humano, fazendo-o com uma assombrosa precisão de transmissibilidade. De tal forma que conseguimos vê-lo como uma espécie diferenciada das outras nas sucessivas gerações desde pelo menos há 195 mil anos. Ou seja, a física reconhece a física como mensagem ou, literalmente, como meta-física. Um processo de comunicação entre coisas do mundo físico sem qualquer interferência da consciência ou da acção humanas, e muito antes do aparecimento de Homo. E que só em 1865 com Johan Mendel, e depois em 1953 com James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins, o intelecto humano conseguiu discernir.

A conclusão principal é a de que o Património é - sejam quais forem os objectos e a materialidade que se considerem - um ‘código' e uma ‘codificação' que permitem à consciência (cérebro) fazer a gestão da Relevância e colocá-la em Memória. Os objectos e a materialidade funcionam como pretextos para a construção das instruções e mensagens da relevância que a cognição detecta na realidade-existência. E são elas que são verdadeiramente o Património - tal como vimos com Dryas Octopetala, com Messel, com Agnasta Gneiss, com Nuvvuagittug, com o Manto de Nossa Senhora de Guimarães, e em inúmeros outros casos durante este trabalho. Os objectos de Füsum que Kemal coleccionava compulsivamente no museu da inocência de Orhan Pamud não valem por si, mas pelo amor que sinalizam para a cognição (Pamud, 2010).

O Património é a ferramenta humana (Cultural) para gerir a Relevância. O resultado deste trabalho indica que existe uma codificação de nove critérios para a seleccionar, e consequentemente para dotar os objectos/realidade da qualidade que designamos por ‘patrimonial' ou ‘património'. E talvez todos os nove valores patrimoniais - que descobrimos existirem nesse mapa mental que designámos por Estrutura do Valor Patrimonial - trabalhem teleonomicamente para aperfeiçoarem a habilidade da mente nessa busca da relevância.

O Património tem um papel importante no projecto ambicioso e talvez utópico de sobrevivermos à Mudança. E só terá utilidade se puder ser ‘lido' pelo cérebro dos presentes e dos vindouros pertençam eles a que etnia, sociedade ou cultura pertencerem. E se servir sobretudo a um sentido neguentrópico da nossa Continuidade.

A questão patrimonial é pertinente para a Cultura porque são as soluções para continuarmos a existir na Vida e na Natureza que separam, provavelmente, o que é fundamental do que não é. Mas também é importante porque permite perceber como jogam as duas principais convicções contemporâneas: a do Desenvolvimento e a da Ciência. E o Património exige que a Cultura não se abstenha de falar delas como ideologias. Exige que não abdique da crítica permanente aos sistemas de validação da verdade próprios de cada época. Na interpretação do património é isso que impede a auto-referência e o impasse tautológico. É a procura dessa exterioridade que permite alcançar as analogias fundadoras de novos saberes, e as intuições de rompimento que derrubam os ciclos fechados e os impasses tomados como ‘o fim' ou ‘o limite', como por exemplo aquele a que Wittgenstein nos condenou, de o Ser e o Pensar ficarem irremediavelmente presos à alternativa de Dizer ou ficar em silêncio. Com o Património vimos que comunicar não se esgota no dizer. Nele nem comunicar é dizer.

Manuel Frias Martins (1995) intuiu uma analogia do Indefinido com a "matéria negra". Isto é, provocou uma relação entre uma categoria de ordem cultural e uma entidade do campo do infinitamente grande dita de ordem física. Esse dizer não fica preso apenas à metáfora ou ao território da crítica literária. Digam o que disserem nunca deixará de ter sido um acto. E sê-lo-á sempre, quaisquer que sejam as intenções do emissor e as significações do receptor, as quais ser-lhe-ão sempre visitas efémeras. Do mesmo modo também a codificação da Relevância no caso do Património poderia estabelecer uma analogia com a física, mas nesse caso encontrá-la-íamos na relação de atração que as partículas do infinitamente pequeno mantêm com o bosão de Higgs. E a sucessão de codificações (a existência de ‘códigos') que observamos empiricamente nos domínios biológico, social e cultural remetem para um fenómeno que necessita de reflexão. Pois aponta para uma anterioridade maior (talvez haja um código na física como o genético ou o patrimonial) e um efeito na posteridade a não desprezar. No caso do Património, Dizer ou Comunicar não dissolvem o acto que necessitam para poderem ter sido.

Os resultados alcançados por este trabalho derivam de termos perspectivado o Património através da Cultura e da Comunicação usando-as como um patamar lógico exterior de onde o pudemos analisar de fora. Afastando-nos do ponto de vista da museologia e da apologia dos museus. Se os resultados deste trabalho forem úteis, então, talvez possam ser um ponto-de-partida para uma nova abordagem à questão patrimonial. Sendo este o desafio que a Cultura tem na contemporaneidade, não apenas no que respeita à gestão do Património, mas também no campo disciplinar e académico do seu estudo." (Pedro Manuel-Cardoso, Fevereiro 2011, Lisboa: FLUL).

WZX:

            Um Abraço Pedro. Até à próxima.

PM-C:

WZX, foi mais uma vez um prazer e um privilégio trocar consigo acerca deste fascinante problema que é o património. Muito obrigado. Até á próxima."

Pedro Manuel-Cardoso

 


0244 - Era uma vez o património - 51

Posted by: valera in Untagged  on

 Agir ?

A recente Assembleia Geral da Associação Profissional de Arqueólogos foi sintomática da situação da nossa Arqueologia. Para além de membros dos seus corpos sociais, não estavam mais de dez associados. Claramente, os arqueólogos portugueses não se revêem na APA. O fenómeno não é novo, apenas parece hoje mais cristalizado. Infelizmente.

Dada a imensidão de problemas em torno do Património Arqueológico e da profissão de arqueólogo (independentemente do enquadramento institucional e perfil laboral), é inaceitável que a direcção da associação seja incapaz de definir uma estratégia de aproximação e motivação dos sócios. Mas, lamento dizer, é igualmente inconcebível que a esmagadora maioria dos profissionais não se mobilizem em defesa dos seus interesses.

A APA vive um paradoxo; sendo uma associação profissional assenta a sua actuação única e exclusivamente no voluntarismo de quem assume a direcção. Porque está demonstrado que os tempos são de acção, seria vantajoso profissionalizar parcialmente a instituição através contratação de um "Director Executivo" que implementasse no quotidiano a estratégia definida pela direcção. Acredito que a actuação de um(a) profissional experiente, com currículo alargado e com conhecimento da profissão e das grandes questões do Património arqueológico poderia ter um enorme impacto ao nível da aproximação aos sócios, a quem urge chegar e "visitar" nos diferentes universos laborais. Mas, mais. A dinâmica a imprimir (e para a qual existem recursos financeiros mínimos) poderia criar condições para visibilizar os problemas da profissão e sobretudo do nosso Património, paralelamente à sua análise detalhada e a uma consequente apresentação de soluções.

A APA tem falhado o alvo. Porque está desfasada dos problemas dos arqueólogos, é incapaz de agir. Por isso, rejeitei o incipiente Plano de Actividades aprovado. Mas também sei que urge reagir ao actual estado de coisas e que a actual direcção não pode estar sozinha. Falar é fácil; agir de forma consequente, é difícil. Urge activar instituições como a APA. Quem vai aparecer?

Miguel Lago, Março de 2011

(Foto de Eugene Smith)


0243 - Arqueologia de contrato na Europa

Posted by: valera in Untagged  on

Uma análise das tendências diversificadas de organização da vertente profissional da Arqueologia:

http://gu-se.academia.edu/KristianKristiansen/Papers/188207/Contract_archaeology_in_Europe._an_experiment_in_diversity


0242 - Era uma vez o património - 50

Posted by: valera in Untagged  on

  Agir!

  

Sou sócio da APA - Associação Profissional de Arqueólogos há muitos anos.

Porque sempre considerei que um dos pilares essenciais para a afirmação da Arqueologia portuguesa assentava na capacidade dos profissionais em promoverem um sistema de auto-regulação livre e assente em compromissos duradouros, antes de mais éticos e deontológicos, acho inaceitável a paralisia em que caiu esta associação no último ano. O que se passa? Como é explicável que não se assista a nenhuma, repito, nenhuma acção relacionada com temas e acções relevantes:

- quem são os arqueólogos portugueses? Que formação têm? que idade têm?

- onde trabalham tais arqueólogos? Quais as suas ambições? Quais as suas remunerações?

- Quais as suas condições de trabalho? Qual o seu enquadramento profissional?

- Conhecem os arqueólogos o seu Código Deontológico? E cumprem-no?

- O Regulamento de Trabalhos Arqueológicos é respeitado por quantos arqueólogos? E deverá este regulamento ser alterado? Porquê?

- E as empresas de Arqueologia, que papel podem desempenhar? Deverão partilhar responsabilidades legais com os arqueólogos?

- A nossa sociedade conhece o trabalho dos arqueólogos? E os arqueólogos, que papel devem desempenhar na sociedade?

- pode a Arqueologia desempenhar um papel relevante nas políticas culturais? E pode ser orientada para os cidadãos?

- deve a APA ser profissionalizada, tendo quadros permanentes?

- deve a APA ter sócios colectivos como Universidades, empresas de Arqueologia ou outras?

- deve existir uma tutela da Arqueologia?

- estão as universidades a contribuir para a formação de melhores arqueólogos e a assumir um papel de relevo na investigação científica?

- como implementar um sistema de articulação entre universidades e empresas de Arqueologia?

- e pode a Economia do nosso país beneficiar com os investimentos em Arqueologia? Como?

Estes são exemplos do que pode ser discutido na próxima Assembleia Geral da APA, a realizar no próximo Sábado, dia 26, pelas 14h, no Museu de Conímbriga.

Para que nem tudo fique na mesma, espero que muitos arqueólogos participem. Se puder, lá estarei...

Miguel Lago, Março de 2011


0241 - Pensamento crítico

Posted by: valera in Untagged  on

 Publicado, neste blog, em Abril de 2008: 

"Pois bem: resulta que o homem de ciência é o protótipo do homem-massa. E não por acaso, nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência, mas porque a própria ciência (...) o transforma automaticamente em homem-massa; quer dizer, faz dele um primitivo, um bárbaro moderno. (...)

Para progredir, a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. Os homens de ciência, não ela própria. A ciência não é especialista. (...) geração após geração, o homem de ciência foi constrangindo-se, recluindo-se, num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito (...) por ter de reduzir a sua órbita de trabalho, ia perdendo contacto progressivamente com as restantes partes da ciência, com uma interpretação integral do universo, que é a única merecedora dos nomes de ciência, cultura, civilização europeia.

A especialização começa, precisamente, num tempo que chama homem civilizado ao homem . O século XIX inicia os seus destinos sob a direcção de criaturas que vivem enciclopedicamente, embora a sua produção tenha já um carácter de especialismo. (...) Quando em 1890 uma terceira geração toma a direcção intelectual da Europa, encontramo-nos com um tipo de cientista sem exemplo na história. (...) Chega a proclamar como virtude o não inteirar-se de quanto fica fora da estreita paisagem que cultiva de forma especial, e chama diletantismo à curiosidade pelo conjunto do saber.

O facto é que, recluído na estreiteza do seu campo visual, consegue, com efeito, descobrir novos factos e fazer avançar a sua ciência, que só ele conhece, e com ela a enciclopédia do pensamento que conscieciosamente desconhece. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém recalcar a extravagância deste facto inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte graças ao trabalho de homens fabulosamente medíocres, e ainda menos que medíocres. Quer dizer que a ciência moderna, raiz e símbolo da civilização actual, dá acolhimento no seu seio ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. A razão disso está no que é, paralelamente, a maior vantagem e o perigo máximo da nova ciência e de toda a civilização que esta dirige e representa: a mecanização. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer na física e na biologia é tarefa mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer um, ou pouco menos.(...) A firmeza e exactidão dos métodos permitem esta desarticulação transitória e prática do saber. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina, e nem sequer é indispensável, para obter abundantes resultados, possuir ideias rigorosas sobre o seu sentido e fundamento.

Por isso cria uma casta de homens sobremaneira estranhos. (...) O especialista muito bem o seu cantinho pequenino de universo; mas ignora de raiz tudo o resto.(...) Não é sábio, porque ignora formalmente tudo o que não entra na sua especialidade; mas também não é um ignorante, porque é um "homem de ciência" e conhece muito bem a sua porçãozinha de universo. Teremos que dizer que é um sábio-ignorante, coisa sobremaneira grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem é sábio na sua questão especial.

E este, com efeito, é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências, tomará posições de primitivo, de ignorantíssimo; mas tomá-las-á com energia e suficiência, sem admitir - e isto é que é paradoxal - especialistas dessas coisas. Ao especializá-lo, a civilização fê-lo hermético e satisfeito dentro das suas limitações; mas esta mesma sensação íntima de domínio e valia levá-lo-á a querer predominar fora da sua especialidade (...) o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida.(...)

(Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas - 1ª edição em 1930)

 

E publicado, neste blog, em Novembro de 2007.

"A Filosofia ajuda a que os cientistas não passem tanto tempo sem perceber o que estão realmente a fazer"

(Desidério Murcho, conferência no Instituto de Biologia Molecular e Celular, Porto).

Onde se lê cientistas , leia-se...


<< Início < Anterior | 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 | Seguinte > Final >>
© 2012 nia
Joomla! is Free Software released under the GNU/GPL License.