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Mai 05, 2009
Povo dos subterrâneos O conhecimento que hoje temos da pré-história do actual território português conheceu avanços extraordinários nos últimos vinte anos. A inventariação de sítios e a acumulação de dados resultantes de prospecções ou de escavações arqueológicas é impressionante. No entanto, apesar da(s) evolução(ões) teórica(s) e do sucesso de determinados projectos, é evidente que muito se tem perdido porque a esmagadora maioria dos resultados decorrem de intervenções desenquadradas de processos de investigação. E deles vão permanecendo à margem. Um exemplo evidente deste tipo de casos relaciona-se com as "novidades" que nos últimos anos têm surgido relativamente a contextos arqueológicos inerentes a estruturas escavadas e que, consequentemente, assumiriam um carácter subterrâneo, parcial ou total. Se em termos de investigação, tudo começou em Campo Maior com as escavações do Cabeço do Cubo e de Santa Vitória, hoje, sobretudo a partir dos trabalhos ainda em curso no âmbito do Alqueva, já ninguém sabe quantos pontos existem no mapa. Estas realidades desconhecidas condicionaram durante algum tempo o olhar dos investigadores que não estavam preparado tais diferenças. Este tipo de estruturas, que actualmente sabemos terem começado a ser criadas a partir do Neolítico um pouco por toda a Bacia do Mediterrâneo e Europa, enquadram variantes ao nível das vivências dos que as construíram, usaram ou delas usufruíram de alguma forma. Todas implicaram, no acto de construção, o conhecimento de uma série de técnicas específicas de forma a garantir a sua efectiva escavação, manutenção e preservação. Tais estruturas negativas enquadram-se em vastas e profundamente enraizadas tradições construtivas que, a partir de então, perduraram: a construção por adição, com pedra, terra, barro, madeira ou meterias vegetais e a construção por subtracção, resultante da escavação de terra ou rocha, de que são exemplo as valas, os fossos, determinados sepulcros, silos, cabanas e tantas outras realidades que ainda não entendemos. Tais tradições construtivas assentaram em estruturas mentais próprias, implicando pensamento, manipulação do real, conhecimento profundo da natureza dos territórios, das matérias-primas e das tecnologias. A sua emergência ou consolidação ocorreu a partir de um momento histórico em que as comunidades humanas aceleraram a capacidade de manipulação e de transformação da natureza, domesticando-a e arquitectando-a, por exemplo, com monumentos megalíticos, hipogeus, recintos delimitados por fossos, muros, lombas ou paliçadas. Temos certamente muito para conhecer e compreender; não creio, no entanto, que se deva estudar e interpretar a tradição das construções negativas de forma uniforme e estanque, como se de um fenómeno unitário se tratasse, desenquadrado dos contextos específicos, da natureza envolvente e das restantes técnicas construtivas disponíveis. Como hoje, também na Pré-história as ideias circularam e permitiram a difusão de conhecimentos, crenças e convicções. As construções implicam concepções prévias, materiais e técnicas; em conjunto são significantes e contam parte da história de cada comunidade. Daí que as crenças e convicções religiosas que suportaram o Megalitismo do Ocidente também sustentassem a tradição de tumulação em sepulcros escavados ou a delimitação por fossos de recintos cerimoniais. Que significam de factos estas diferentes arquitecturas de diferentes materiais e técnicas de construção? É urgente integrar os novos dados em perspectivas de investigação seriamente ponderadas e sustentadas, sob pena de cairmos em caricaturas do tipo "povo do granito", "povo do calcário", "povo do barro" ou "povo dos subterrâneos", este último certamente o mais místico! Miguel Lago, Abril de 2009
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Mai 04, 2009
Fazemos investigação? Pouca...
O enquadramento da Arqueologia portuguesa fez-se, nas últimas décadas, a partir de necessidades de minimização de danos resultantes dos mais diversos impactos sobre o nosso território e, consequentemente, sobre vestígios arqueológicos; esta lógica de minimização raramente foi associada ou enquadrada em processos de investigação. Assim, os resultados ficaram aquém da importância dos vestígios e a articulação entre as mais diversas intervenções não se foi fazendo, caindo muitas delas no esquecimento, sem publicação ou relatórios dignos desse nome. Esta realidade persistiu e não parece, de forma alguma, estar para mudar. E deve dizer-se, sem rodeios, que esta não é uma perspectiva adequada a uma correcta e consequente minimização de impactes sobre o património arqueológico português. Uma deficiente Política de Património conduziu a esta realidade; que deve ser alterada, antes de mais através de uma postura mais ambiciosa e menos conformada dos principais intervenientes do sistema: os próprios arqueólogos. São eles que devem reflectir sobre o Estado das Coisas, promovendo novos rumos devidamente justificados. Contudo não nos iludamos porque sem uma tutela pública empenhada, séria e esclarecida cientificamente, os profissionais que estão na linha da frente, sobretudo nas empresas, dificilmente conseguirão alterar a realidade... (na ERA continuaremos, apesar de tudo, com os esforços de sempre).
Miguel Lago, Abril de 2009
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Mai 02, 2009
Na última 5ª feira foi realizada uma visita de estudo às escavações em curso no Palácio dos Lumiares (Bairro Alto, Lisboa) por alunos do curso de Arqueologia da Faculdade de Letras de Lisboa (turma da Professora Mariana Diniz). Este tipo de articulação entre a Universidade e a prática arqueológica em contexto profissional é essencial a vários títulos. Não vou repetir aqui os argumentos a favor. Eles estão expostos em vários textos publicados no volume 7 da revista Era Arqueologia, editados na sequência do debate sobre a necessidade de aprofundamento das relações entre Universidades e Arqueologia Empresarial realizado num dos colóquios da ERA. Contudo, apesar da evidência do interesse desta relação, estas são situações ainda raras e casuísticas. E podemos dizer que ao fim de 12 anos, esta realidade marca mais um dos falhanços da arqueologia portuguesa (re)nascida com a criação do IPA, apesar dos esforços de alguns e de algumas concretizações de sucesso. Resta, àqueles que reconhecem a importância dessa relação e que estão disponíveis para trabalhar no sentido de a aprofundar, continuar e insistir. Neste país nada é fácil no que toca a colaborações inter institucionais adultas, eficazes e desempoeiradas, mesmo quando fazem todo o sentido. Mas água mole em pedra dura...
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Abr 30, 2009
A dimensão do projecto de construção de um Centro Integrado de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos Perigosos (CIRVER) de Vale de Moinho (Carregueira, Chamusca) justificou a realização de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) no ano de 2004. No decorrer deste, foram identificados artefactos que levaram à consideração do potencial arqueológico da área como relevante, pelo que se inscreveu na Declaração de Impacte Ambiental a necessidade de persecução de trabalhos de diagnóstico do potencial arqueológico da zona. Na sequência desta necessidade a Era Arqueologia, em 2006, procedeu a uma prospecção sistemática na totalidade da área a afectar pela construção do CIRVER de Vale de Moinho. A elevada recolha de artefactos levou à prossecução dos trabalhos mediante a abertura de seis sondagens mecânicas. Estas deveriam atestar a ocorrências de artefactos no interior da as unidades litológicas de cascalheiras identificadas pelo ao estudo geotécnico realizado no âmbito do mesmo EIA (LABISA e CORREIA, 2004). Durante a realização destas sondagens foi evidente a fraca representatividade de matérias em estratigrafia. Fig 1 - Vista do Corte Norte da Sondagem 6 e Indústria Lítica de provável Cronologia Paleolítica Os materiais recuperados nas sondagens são provenientes das unidades litológicas recentes e/ou remexidas por trabalhos agrícolas na zona em estudo. Na realidade, de forma pontual foram identificados 10 artefactos cujas circunstâncias permitiram considerar processos de migração de peças. Os materiais Paleolíticos recolhidos deverão, neste sentido, ser entendidos como testemunho da presença de comunidades de caçadores recolectores para provável exploração de recursos minerais e/ou outros. É na sequência desta intervenção que, como forma de fechar um ciclo de trabalho, surge a concepção e produção do painel informativo que agora foi instalado nas instalações do SISAV-CIRVER inaugurado em 2008. Pretendeu-se com esta abordagem dar continuidade aos trabalhos ali realizados e divulgar a história daquele espaço que agora é ocupado por uma unidade fabril em plena actividade. Por outro lado, é mais uma forma de exposição/expressão do registo arqueológico, utilizando um discurso generalista mas não condescendente.
Fig 2 - Montagem do painel informativo nas instalações do SISAV-CIRVER Inês Mendes da Silva
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Abr 29, 2009
Depois de David Roberts David Roberts viajou pelo Egipto em 1838. Ali realizou um vasto trabalho de desenhos para posterior realização de litografias, reproduzidas até hoje aos milhões. O Oriente estava na moda, em especial o que respeitava o Egipto Antigo. Os viajantes começavam a chegar e a época clássica dos antiquários e dos primeiros estudiosos arrancara pouco antes. Nesse tempo, Abu Simbel estava parcialmente enterrado e as barragens não existiam. Viajar era diferente. Lento. Mas fascinante. Depois, aconteceu o inevitável. O tempo passou e o progresso chegou com a construção da grande barragem de Assuão. O Egipto mudou para sempre. Para salvar a memória, organizou-se nos anos sessenta uma imensa operação de trabalhos arqueológicos, incluindo a trasladação de diversos templos. Entre eles, a montanha em que estão esculpidos e escavados os templos de Abu Simbel. Felizmente temos imagens e fotografias para recordar.
Miguel Lago, Abril de 2009
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Abr 26, 2009
As histórias que as paredes nos contam No âmbito do projecto de reabilitação da Quinta da Alagoa (Carcavelos) que se está a ser desenvolvido pela CM de Cascais, a Era procedeu ao levantamento ortofotográfico de uma série de paredes assim como se encontra a realizar a leitura estratigráfica das mesmas. Com este trabalho pretende-se alargar o conhecimento existente sobre este espaço e sobre as suas diversas utilizações, desde mosteiro jesuíta até quinta de produção do famoso vinho de Carcavelos. Vistas do alçado A em 1995 (http://www.webspawner.com/users/alagoa/) e em 2009, após a realização da picagem das paredes e contenção da fachada Assim que a picagem das paredes ficou concluída foi possível avançar nos trabalhos de registo e verificar que por baixo do estuque e das tintas se escondiam "outras verdades".
Janelas, portas, nichos, armários e fornos são algumas das realidades que se encontravam sob o estuque e que contam outras histórias sobre diferentes espaços (fotos Mário Lisboa). A presente intervenção de arqueologia vertical, através da picagem de paredes no interior e exterior dos diferentes corpos do edifício tem permitido esclarecer algumas questões relacionadas com a evolução da organização espacial do conjunto edificado. Neste sentido, já foi possível identificar diferentes técnicas de construção utilizadas na edificação e nas diversas reestruturações observadas, nomeadamente, alvenaria de pedra (século XVI), alvenaria de tijolo burro (séculos XIX/XX) e alvenaria de tijolo furado (século XX). O presente trabalho também permitiu confirmar a existência até ao momento de, pelo menos, duas fases distintas de construção: uma associada à casa jesuíta (séc. XVII) e outra à Quinta da Alagoa (sécs. XVIII-XIX). Nesta segunda fase terão sido construídos anexos e o corpo inicial do mosteiro terá sido transformado e aumentado para funcionar como casa de habitação.
Planta actual do edifício (cedida CM Cascais) e uma proposta (à direita) da planta original do convento (ainda em desenvolvimento). Inês Mendes da Silva
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Abr 16, 2009
Mitificação do real
© René Burri (Magnum) René Burri fotografou Che Guevara durante um encontro realizado em 1963; o seu trabalho era captar imagens enquanto decorria uma entrevista de Laura Knebel, editora da revista Look. O teor da conversa foi esquecido, ficando para a História as fotografias que contribuíram para a criação do mito assente numa fragmentação do real. Esse não era o objectivo de Burri, que ali estava quase por acaso; a força da perspectiva específica das imagens superou os momentos de uma conversa real, porque as ideias fazem parte da sua construção (as do emissor e as dos receptores). É difícil distinguir o mito da realidade porque a realidade também é o mito. Neste sentido, talvez conhecer implique desmistificar. Miguel Lago, Abril de 2009
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Abr 14, 2009
O debate que o anterior post suscitou leva-me a colocar aqui uma parte de um texto publicado na revista Praxis Archeologica, intitulado "A divulgação do conhecimento em Arqueologia: reflexões em torno de fundamentos e experiências." Fica assim mais claro o meu pensamento e embora o texto seja relativo essencialmente à questão da divulgação, as suas ideias aplicam-se da mesma forma à questão da produção científica. É um pouco longo para um blog, eu sei. Mas há coisas que exigem mais que meia dúzia de palavras. "Ao longo do século XIX, a ciência adquiriu um estatuto de forma de conhecimento superior, de base simultaneamente empirista e racionalista. A crença na possibilidade de um conhecimento objectivo do mundo através da capacidade do cientista em se distanciar do seu contexto (e assim captar a realidade das coisas) gerou a ideia de que o conhecimento científico era algo que tinha que ser imune à sociedade, que as suas condições de produção tinham que ser "assépticas" relativamente a contaminantes do seu contexto físico, social, cultural, politico e ideológico. A Ciência, para se realizar, tinha que se "isolar" e o cientista transformou-se numa espécie de Xamã, ou seja, aquele que na sociedade tem as capacidades para viajar nesta espécie de além, de onde se consegue a perspectiva de olhar o mundo de fora. A separação entre a ciência e o seu contexto social não seria mais que uma manifestação dessa capacidade corporativa dos observadores (comunidade científica) se neutralizarem face à sua contingência, de se suspenderem no tempo e no espaço. Esta percepção fez com que ao longo do século XX a Ciência construísse a sua idealização como corpo que se exteriorizou à sociedade, que se pretendeu a ela imune (fazendo dessa imunidade condição da sua realização) e com a qual apenas manteria laços na negociação das condições que assegurariam essa mesma autonomia e independência (Bourdieu, 2004). O comportamento do cientista sustentaria uma prática que se queria independente do contexto social, permitindo o estabelecimento de uma superioridade epistemológica (medida em termos de objectividade e verdade) e ética que, simultaneamente, validava e retirava validade dessa separação: a superioridade ético-epistemológica justificava a separação da ciência e retirava autoridade dessa mesma separação. Com base nessa autoridade foi progressivamente substituindo a fé na regulação da vida social, sendo hoje um conhecimento considerado privilegiado e superior, convocado para resolver os mais variados e quotidianos problemas das nossas vidas, para as quais se tornou imprescindível. Como refere Eduarda Gonçalves: "Nos países ocidentais de tradição liberal o ‘contrato social' da ciência com a sociedade e o estado assentou, até ao século XX, nos postulados de que o conhecimento científico constitui um bem público e de que o que é bom para a ciência é bom para a sociedade" (Gonçalves, 2000: 1). Por isso se tornou tão comum ver uns "cientistas" com o seu traje específico, a bata branca (que, para o grande público, mais que um traje de trabalho, é um símbolo de rigor, verdade, conhecimento e comportamento ético irrepreensível), a anunciar em comerciais televisivos todo o tipo de produtos, apresentados como cientificamente validados. A maior ou menor subtileza com que a publicidade recorre ao "critério científico" como factor diferenciador da qualidade do produto é um inequívoco sintoma do enraizamento da "religião científica". Creditado como detentor da Verdade, da capacidade de controlar a Natureza e de a por definitivamente ao serviço do progresso humano, o conhecimento científico passou a regular grande parte das nossas vidas e comportamentos. Assim, a evolução sociológica da ciência não só condicionou a forma como o edifício administrativo da sua produção se foi organizando, como a forma como ela se viria a relacionar com o público. Um relacionamento frequentemente paradoxal: uma relação estrutural com um diálogo superficial. De facto, o avanço da ciência assenta no desenvolvimento de linguagens próprias, de domínio restrito, cujos requisitos de rigor tornam a comunicação difícil e que o tradicional analfabetismo ou o moderno iletrismo agravam. Neste contexto de destacamento e de dificuldade de comunicação, a produção de conhecimento científico não desenvolveu a necessidade da sua divulgação à sociedade, reservando essa divulgação essencialmente ao interior das comunidades científicas, por vezes extensível a pequenas elites económica e culturalmente diferenciáveis, e frequentemente com um marcado pendor ideológico no que a algumas áreas científicas dizia respeito. De facto, no caso concreto da Arqueologia e até meados do século XX, muita da divulgação serviu desígnios políticos e ideológicos nacionalistas, os quais em parte sustentavam muita da actividade arqueológica. Por aqui facilmente se poderia descortinar o comprometimento social da ciência. Mas a evocação da sua "neutralidade" era fundamental para a autoridade da sua argumentação e para a instituição da sua forma "superior" de conhecer." (...) Voltando às bases epistemológicas do problema, relembro que a busca cientista da objectividade levou a que, durante muito tempo, a dimensão psicológica, emocional, da ciência fosse reprimida, com consequências no discurso científico de divulgação. O objectivismo cientista, que consagrou a separação entre o cientista e a sociedade, consagrou igualmente a separação de linguagens. A linguagem da ciência, séria e objectiva, era uma linguagem formal, de rigor conceptual inimputável, policialmente contida dentro das fronteiras do mais puro racionalismo e purismo conceptual. Na sua relação com o público a ciência não faria concessões. Seja na produção seja na divulgação, a ciência teria que se afastar da narrativa, da linguagem poética, da arte. Afastamento que mais não era que a tradução do pretenso distanciamento entre o cientista e a sociedade com vista à máxima objectividade. Contudo, ao longo da história da ciência, a aproximação à arte e à narrativa foi sistematicamente ensaiada, revelando que, para desespero de alguns, os grandes cientistas se comportam frequentemente como artistas. De facto, o sucesso que a divulgação científica vem tendo nas últimas décadas tem muito a ver com o ultrapassar da perspectiva de uma ciência "descontextualizável" e passível de ser feita por verdadeiros "aliens". A concepção humanizada da produção científica facilitou a humanização do seu discurso de divulgação, com significativas consequências na sua capacidade de relacionamento com o grande público. Tem sido essa a evolução do discurso historiográfico: "A uma "História Ciência", descrita como apresentando uma natureza analítica, demonstrativa e explicativa, com uma aspiração cientista à objectividade e apreensão da verdade, que se expressa por um discurso considerado seco e repetitivo, condicionado por princípios normativos inibidores, contrapõem-se uma História Narrativa (adjectivada de poética, contemplativa ou artística) que, liberta dos constrangimentos do cientismo, se preocupa com a criatividade e com a forma de comunicação, valorizando as dimensões interpretativas e subjectivas do conhecimento, aproximando-se, com maior ou menor prudência, da expressão metafórica e ficcional. Também aqui o momento da comunicação é considerado crucial para o regressar de um público (e com ele a efectivação de um prolongamento da memória), o qual teria sido afastado pelo hermetismo e cinzentismo do discurso científico." (Valera, 2004) Devo mesmo acrescentar que a tendência não traduz apenas uma alteração de forma de comunicar, mas que também corresponde a um enriquecimento do próprio conteúdo, pois valorizando a interpretação num contexto de um enredo dramatizado, acrescenta ao pensamento lógico uma dimensão intuitiva e sensorial, permitindo atingir modalidades de conhecimento a que o pensamento racional se encontra paradigmaticamente fechado, ganhando novas potencialidades de captar o interesse do público e de comunicar de forma mais subliminar e eficaz. Reconhecido o valor da narrativa nos próprios processos de produção de conhecimento e de comunicação inter pares, a sua reafirmação no capítulo da divulgação pública é a consequência natural. Os cientistas, como todos os grupos sócio-profissionais, estão inseridos num contexto competitivo e já perceberam que a sua existência e capacidade de actuação é correlativa da sua habilidade de cativar o público, isto é, de conseguir ter mercado, e que este requer formas e capacidades específicas de comunicação. O desafio é, pois, o de comunicar bem, de forma imaginativa, apelativa e criativa e simultaneamente rigorosa e pedagógica."
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Abr 06, 2009
Gestão de projectos: a Arqueologia no fio da navalha, ou como não se podem perder as oportunidades A ERA iniciou, recentemente, dois projectos de execução ambiciosa. São vastas operações de arqueologia, promovidas através de concursos públicos pela EDIA, no âmbito do processo de minimização de impactes sobre o património, decorrente de obras associadas ao Alqueva, nas regiões de Serpa e de Ferreira do Alentejo. Os trabalhos de escavações arqueológicas, já em curso, resultam de vestígios relevantes identificados durante o acompanhamento arqueológico das obras, concretizado pelas equipas de diversos empreiteiros. Assim, em caso de detecção de sítios arqueológicos por essas equipas, a ERA, contratada directamente pela EDIA (dono de obra), coloca no terreno em prazos muito curtos (24h após a detecção, é o objectivo ideal) as equipas e equipamentos necessários à realização dos trabalhos inerentes ao total desbloquear de interrupções de frentes de obra. Se as equipas de acompanhamento fizerem o seu trabalho de forma competente, a ERA poderá ter condições para desenvolver um trabalho de referência no contexto da Arqueologia portuguesa. De facto, para além da mera escavação, pretende-se que todas as intervenções a realizar promovam, numa perspectiva global, incrementos em processos de investigação científica e de produção de conhecimento. Apesar da limitação dos meios, muito podemos fazer e muito iremos fazer. Com organização, com boa capacidade de gestão de recursos humanos, financeiros e técnicos, e com adequados conhecimentos de base, será possível atingir os objectivos. Para que os trabalhos a realizar sirvam para algo, tem que ser descartada uma perspectiva de trabalhos desgarrados, em benefício de uma visão de integração e de produção de sínteses que promovam incrementos no conhecimento do passado humano naquelas regiões. De facto, de uma lógica de intervenções dispersas e sem programa que as interrelacione, urge passar a uma abordagem dinâmica que rentabilize as vastas "janelas" que as escavações abrem para tempos remotos. Estas oportunidades não podem ser desperdiçadas em termos de processos de investigação. Ao longo de mais de uma dezena de anos de arqueologia profissional e comercial, acumularam-se em Portugal dados e mais dados, recolhidos de forma excessivamente acrítica e sem enquadramentos problematizantes. Nunca devemos esquecer que todos os trabalhos de Arqueologia são assentes em interpretações da realidade que nos chega do passado. Sem as perguntas adequadas, sem a preparação devida para questionar o terreno, que validade terão os projectos que diariamente são concretizados por este país fora? Os projectos em curso para a EDIA, respondem a requisitos pouco comuns em Portugal e que remetem para a perspectiva que defendemos, de maior exigência, rigor e consequência. Infelizmente, estes casos são excepções em Portugal, antes de mais porque a tutela da Arqueologia tende para a aprovação acrítica de planos de trabalho, consumando licenciamentos a arqueólogos que concretizam projectos mal estruturados, sem fundamentação e, muitas vezes, sem as necessárias garantias de competência técnica e científicas para o seu cumprimento. A nossa obrigação, apesar dos escassos meios e recursos, é clara: gerir de forma competente todos os processos de trabalho para cumprir os objectivos de minimização que passam pela produção de conhecimento. Contudo, tal só será possível através da adequada rentabilização dos recursos que, em Arqueologia, são um bem cada vez mais escasso. Hoje, emersos num mercado mal regulado e feroz, temos que fazer com muito pouco, o que há alguns anos parecia impossível. Ou seja, um bom trabalho, que satisfaça o cliente, viabilize a empresa e motive colaboradores que sentem cumprir o seu dever. Mas não tenhamos ilusões...que viabilize a empresa! Miguel Lago, Abril de 2009
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Abr 06, 2009
Perspectivas 
Fotografias como esta, do soldado a ser abatido na Guerra Civil de Espanha, tornaram-se ícones. De tal forma, que nos esquecemos de as olhar com atenção. Quase não as pensamos ou sentimos. Todas as fotografias implicam um olhar, uma perspectiva pessoal, opções e intenções. E o que dizem e como dizem pode ser lido de diversas formas. O que está no plano e o que fica para além dele é sempre relevante. Quem olha, vê diferente. Como os fotógrafos com perspectiva de olhar, também os arqueólogos devem ter um posicionamento, um olhar próprio na sua abordagem, um enquadramento específico, um posicionamento perante os questionários e os problemas que orientam o seu trabalho. Ou seja, devem saber o que estão a fazer, porquê, como e para quê. Robert Capa esteve em Espanha e em muitos outros locais em que pensou ser importante estar para ver e mostrar. Mostrou o mundo como foi, de acordo com a sua perspectiva. A que distância estarão a Arte e a Ciência? Miguel Lago, Março de 2009
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Mar 31, 2009
Dion, na Macedónia 
Dion foi, a partir do século V A.C., o principal centro religioso da antiga Macedónia; ali, na base do Monte Olimpo, foi erguido o principal templo dedicado ao culto a Zeus. Durante mil anos e entre muitas vicissitudes, foi uma importante cidade. Daqui, depois de auspiciosos sacrifícios, partiu Alexandre para a sua campanha de conquistas. Hoje Dion é um parque arqueológico. O sítio é muito vasto, abrangendo cerca de 150ha. O sentimento que nutro por ruínas depende muito do interesse que possa ter pelo que elas representam. A conexão com temas ou períodos históricos com que me relacione é importante; mas talvez ainda me interesse mais o espírito dos lugares, as histórias e as alusões que são possíveis a referenciais da nossa memória colectiva. Por fim, a paisagem, a relação do sítio com o espaço natural e a forma como os homens a foram moldando...daqui partiu Alexandre; aqui perto está a morada dos deuses. É um belo parque arqueológico, verdejante, muito arborizado e marcado pelo rio que bordeja o lugar. Aqui, a palavra parque remete sobretudo para jardim e para espaço de passeio e lazer. Não é um parque de diversões. As ruínas e as estátuas estão lá, estáticas, e por entre elas e ao longo dos prados e bosques se pode deambular. A sinalética é simples e sintética; a sombra abunda e os bebedouros de água também (fundamental, sobretudo nos dias de intenso calor). Em Portugal apenas conheço um sítio com algumas semelhanças: Miróbriga, a cidade romana, em Santiago do Cacém. Em Dion, muitos são os que usufruem do sítio e do parque. Por cá, duvido; e da última vez que, num Domingo, passeie tranquilamente por Miróbriga, mais ninguém estava na cidade. Provavelmente, porque poucos conhecem o sítio, dado que a sua existência, enquanto ruína de parque, não é divulgada. Nota: mais informações sobre Dion em http://www.ancientdion.org/. Vale a pena a visita ao site. Miguel Lago, Março de 2009
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Mar 24, 2009
Materiais arqueológicos, para quê?
Diariamente, são recolhidas em Portugal grandes quantidades de materiais arqueológicos. São equipas de arqueologia que os recolhem. Mas, o que se passa com esses materiais? Aliás, que materiais são de facto recolhidos e com que critérios? Estão inventariados e devidamente acondicionados? E em que condições são armazenados?...são muitas as perguntas e poucas as respostas seguras. Este é um problema grave da Arqueologia portuguesa. Mas dele, ninguém fala. É incómodo para muitos arqueólogos, para a tutela, para museus (ou pseudo museus) e autarquias. Para muitas empresas e universidades também será incómodo. De tão perturbador, este assunto está silenciado. A tutela não sabe, nem parece querer saber o que sai do terreno; muitos arqueólogos vão acumulando e acumulando, sem tratar e inventariar os espólios recolhidos, muitas vezes permanecendo em condições inacreditáveis de armazenagem. Esta situação de descontrolo é tal que ninguém sabe se parte dos espólios não dará entrada em redes de tráfico de antiguidades. Lamentável... Solução? Basta cumprir a lei; que infelizmente o Estado não cumpre, nem manda cumprir. Sem ética e sem escrúpulos, muitos são os profissionais que contribuem para a irremediável perda de informações vitais para o conhecimento do passado. Este é mais um sintoma da falta de consistência da nossa Arqueologia e dos seus profissionais. E mais uma prova da irrelevância e inutilidade de grande parte dos trabalhos de arqueologia realizados por este país fora. (quanto a nós, na ERA, cumprimos com a nossa obrigação e entregamos regularmente os materiais tratados, inventariados e acondicionados nos depósitos indicados pelo IGESPAR) Miguel Lago, Março de 2009
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Mar 23, 2009
Ruínas
O súbito colapsar do Arquivo Histórico de Colónia, na Alemanha, pode estar relacionado com a má gestão dos território urbanos e um desadequado planeamento de grandes obras relativamente ao seu impacto sobre a realidade em que se vão inserir. Em Portugal, o Património (e não apenas o arqueológico) sofre demasiados danos provocados por aparentes imprevistos. Mas, como evitar tantas perdas? Se no caso de Colónia sabemos o que se perdeu, no que respeita a destruições de sítios arqueológicos não inventariados ou mal conhecidos, nada ou quase nada sabemos. Perde-se e varre-se do real. E não tenho dúvidas: todos os dias estão a ser destruídos sítios arqueológicos em Portugal. Se não devemos ser excessivamente pessimistas já que nas actuais condições de desregulação, muito se faz neste país, não nos pudemos iludir: é urgente alterar a prática quotidiana dos organismos públicos da nossa arqueologia, excessivamente permissivos face a más-práticas, pouco exigentes na avaliação de planos de trabalho e na adequação curricular de quem dirige ou integra equipas técnicas de Arqueologia. A sua actuação deficiente promove os incompetentes e gera um caldo propício à corrupção. Mas é igualmente vital alterar a forma de estar de muitos empresários e universitários que actuam na Arqueologia portuguesa, para quem a falta de preparação e a desqualificação técnica e científica de arqueólogos é irrelevante, as condições de trabalhos garantidas aos seus antigos alunos ou actuais colaboradores é desconsiderada e o lucro fácil ou vantagens académicas e de carreira são os únicos objectivos. Estas actuações ocultas e lesivas do nosso Património, põem em causa a possibilidade de potenciar, em termos de conhecimento, as possibilidades de intervenção que decorrem da Arqueologia Preventiva e de Salvamento associadas a tantas e tantas obras. Uma política e uma estratégia global consistentes podem gerar práticas de qualidade; clareza de valores, cooperação, capacidade e rigor de actuação promovem mudanças de fundo. Necessários em todos os enquadramentos institucionais. Um arquivo destruído, como o de Colónia, é uma tragédia. Em Portugal, o "temporário" encerramento do arquivo e da biblioteca do IGESPAR é inaceitável; não pode ser tolerado e é lesivo do interesse público. Suscita lacunas, erros e más-práticas. Mais uma vez, ganham os incompetentes. 
Miguel Lago, Março de 2009
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Mar 20, 2009
Tal como se antecipava, nas sondagens realizadas no interior das alas do Palácio dos Lumiares no Beirro Alto, mais chagadas à Rua do Diário de Notícias, está preservada a estratigrafia pré-histórica entre as estruturas modernas. Sob um potente nível de coluvião (sedimento arenoso claro) contendo abundantíssima indústria lítica talhada, está preservado um paleossolo (sedimento arenoso escuro visível na base da sondagem), a cerca de 1,80 metros na sondagem 4. Já na intervenção realizada em 2003 na zona de pátio se havia procedido à datação por luminescência desta estratigrafia (publicada na revista nº 7 da ERA). Uma nova amostragem foi agora realizada, na sequência da colaboração estabelecida entre o NIA e o ITN.
Foi realizada uma amostragem sequencial em coluna (tubos pequenos) do paleossolo, coluvião e base de níveis modernos misturados com o topo do coluvião, para controlo das duas amostras a serem datadas por B-OSL, uma referente ao paleossolo e outra sensivelmente ao meio do coluvião (tubos maiores).
Uma metodologia de datação sobre sedimentos particularmente útil quando não existem outros elementos susceptíveis de serem datados por outros métodos. Deveria ser mais utilizada em contexto de emergência, pois trata-se de recolher informação contida nos depósitos que de outra forma é perdida (e não um capricho) : é recolha de informação, tal como é o crivar daqueles sedimentos a água, sem o qual grande parte do sílex seria impossível de recuperar.
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Mar 13, 2009
Após alguns anos de interrupção, por motivos relacionados com o projecto e mudança de promotores, foram retomadas as intervenções arqueológicas no Palácio dos Lumiares, no Bairro Alto (Lisboa).
Os trabalhos recomeçam depois da demolição do interior e consolidação das fachadas, sem as quais seriam impossíveis de realizar por razões de segurança. Depois das primeiras intervenções (publicadas no nº 7 da revista ERA), esta nova etapa procura diagnosticar o potencial arqueológico no interior das duas alas do edifício do lado da Rua do Diário de Notícias. Foram abertas duas sondagens em cada ala. Como era de esperar, as primeiras evidências corresponderam a restos de pavimentos e de calçada exterior.
Contudo, ao fim do segundo dia de trabalho, foi possivel identificar na ala Norte um conjunto de alicerces do palácio e outras infraestruturas mais antigas e os depósitos de coluvião e paleossolo neolítico que haviam sido anteriormente referenciados na área de pátio central, e que se preservam sob aterros e entre alicerces modernos.
Na sondagem 5 (em cima) é visível um alicerce de parede do palácio, cortado por uma vala de implantação de esgoto e encostado por dois níveis de aterro. No fundo da metade aprofundada são já visíveis restos do coluvião (canto à direita) e área de contacto entre coluvião e paleossolo (preservada a cerca de 1,20 metros de profundidade).
Na sondagem 4, igualmente na área norte, foi identificado o alicerce de uma parede do palácio (à esquerda por trás da régua). A ele encosta um muro posterior, o qual está associado a um pavimento de argamassa branca, sobre qual de depositou uma fina camada de cinzas. Este muro e pavimento assentam sobre o coluvião com materiais neolíticos, que se encontra preservado na metade norte da sondagem. Na metade sul foi cortado, resgistando-se, a 1, 20 metros de profundidade, um outro alicerce maciço e sendo todo esse corte preenchido por aterro com abundante telha e cerâmica comum e faiança. Estas duas sondagens confirmam que a estratigrafia registada na área do pátio central (paleossolo neolítico coberto por coluvião igualmente com abundantes materiais neolíticos) está também preservada entre alicerces no interior da ala norte. Dos aterros tem sido recolhido abundante material, sobretudo cosntituído por cerâmica comum e faiança (mas também fauna mamalógica e malacológica, vidros, ferros, alguma porcelana e uma moeda).
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