O NIA é a área de Investigação e Desenvolvimento (I&D) da ERA-Arqueologia, S.A.. Reforçando o seu compromisso com a comunidade em que se insere, a ERA criou esta estrutura com o objectivo de alargar as suas possibilidades de intervenção e de evolução.

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0135 - Sem Título

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  Entre 1849 e 1851, e antes de se tornar um dos principais autores do realismo francês, Gustave Flaubert enceta uma viagem de mais de dois anos pelo Próximo Oriente e Mediterrâneo.

 Tem trinta anos e busca inspiração para a sua escrita. A viagem começa no Egipto e parte na companhia de Maxime du Camp, um fotógrafo, escritor e companheiro de boémia.

O diário de viagem que nos deixou Flaubert mostra um homem algo desencantado. É seco e breve nas suas descrições dos monumentos e ruínas que hoje são algumas das maiores atracções turísticas mundiais. À excepção dos monumentos do planalto de Giza tudo o resto lhe parece monótono. 

 

Interessam-lhe mais as pessoas, os pequenos pormenores do quotidiano e sempre o Nilo,  a "coluna vertebral" da paisagem egípcia. As passagens mais longas falam-nos das visita dos dois amigos  a "salões" de entretenimento com direito a dançarinas exóticas. 

 

Maxime du Camp viaja com a intenção de fotografar o máximo que puder. Carrega uma enorme quantidade de equipamento fotográfico e ocupa horas infindáveis no registo de templos, necrópoles e estátuas. Flaubert desespera e considera a actividade um tédio absoluto.

 

As fotografias de Maxime du Camp sobreviveram até hoje e dão-nos um dos mais antigos registos fotográficos do Egipto Faraónico. A primeira barragem de Assuão ainda não tinha sido construída, o Nilo inundava os campos sazonalmente. As mais famosas ruínas egípcias estão em grande parte soterradas ou habitadas. Ainda não há arqueólogos a trabalhar. Não há templos restaurados nem transladados.

 

Uma espécie de património à espera de renascer.

Lucy Shaw Evangelista (Março de 2009)


0134 - Doutoramento de Víctor Jiménez

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(Víctor, trajando à "Era", acompanhado do seu orientador, José Márquez Romero, nos Perdigões em 2008, durante os trabalhos de geofísica). 

Víctor José Jiménez Jáimez doutorou-se pela Universidade de Málaga no passado dia 6 de Março, com a dissertação intitulada "Recintos de Fosos. Genealogía y Significado de una tradiciónen la Prehistoria del Suroeste de la Península Ibérica (IV - III)".

Víctor Jímenez integra aequipa da Universidade malaguenha que colabora no Programa Global de Investigação dos Perdigões, onde trabalhou nos anos de 2007 e 2008.

A sua dissertação materializa, numa obra de referência obrigatória, toda uma nova perspectiva de abordagem aos recintos de fossos na Península Ibérica desenvolvida nos últimos anos pelo Departamento de Pré-História da Universidade de Málaga. Nela, a investigação que tem sido realizada nos Perdigões merece destaque particular.

Indiscultivelmente, este trabalho será um marco na investigação da Pré-História Recente do sul peninsular. O Núcleo de Investigação Arqueológica da ERA Arqueologia S.A. felicita o Víctor Jímenez e a equipa de Málaga, seguro de que a colaboração iniciada há dois anos é um exemplo que será, também ele, um marco na história das condições de produção de conhecimento científico na arqueologia peninsular.  


0133 - Era uma vez o Património 15

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Para variar, falta de planeamento!

 

O património arqueológico está, na esmagadora maioria dos casos, enterrado. O que conhecemos é comparável à ponta de um iceberg. Este facto, tão simples e evidente, implica uma ponderada e rigorosa gestão dos processos de perda ou "sacrifício" decorrentes do uso que as populações humanas continuam a fazer dos territórios. O que nos distingue das gerações anteriores é apenas a noção de perda que adquirimos relativamente aos vestígios dos antepassados, proporcional à capacidade destrutiva que adquirimos; de alguma forma, a dessacralização da vida corre paralela a processos de mitificação dos vestígios do passado.

Recentemente, vários processos de transformação urbana voltaram a demonstrar a lamentável situação que vivemos em Portugal no que respeita à gestão do nosso património arqueológico. O que preservar ou deixar destruir (desmontar, para não ferir susceptibilidades)? Porquê? O que estudar e com que profundidade? Como compatibilizar a preservação in situ e sem intervenção com o contemporâneo uso dos territórios?

 

Pela negativa, dois casos de dimensão pública são exemplares. O primeiro, relaciona-se com uma grande empreitada de obras públicas, o prolongamento do túnel da Av. da República, inserida numa área de enorme sensibilidade arqueológica da cidade de Braga, particularmente em termos de contextos romanos; o segundo, refere-se à construção de um parque de estacionamento subterrâneo na Av. Fernão de Magalhães, em Coimbra, implantado sobre parte do antigo convento medieval de S. Domingos. Em nenhum dos casos foram realizados trabalhos de diagnóstico arqueológico: lapso (?), erro ou desleixo, manifestamente indesculpáveis, por parte das autarquias envolvidas e das entidades tutelares do património (Direcções Regionais de Cultura e IGESPAR).

É absurdo avançar com obras desta natureza sem que estudos prévios de arqueologia sejam concretizados, quer ao nível da definição da sua viabilidade face ao impacte estimado sobre bens patrimoniais, quer ao nível do planeamento financeiro e de prazos de execução de trabalhos de arqueologia subsequentes e respectivas consequências em termos de efeito na obra planeada. Para além disso, quem está a pagar os trabalhos (aparentemente imprevistos em ambos os casos) em curso ou já realizados? o promotor da obra? o empreiteiro? a autarquia? Por que razão não foram realizados trabalhos específicos de diagnóstico para informar as decisões de licenciamento dos projectos? Quem os aprovou e com que base?

 

Os projectos de obras públicas ou privadas com previsível incidência sobre bens arqueológicos de grande relevância científica e patrimonial deveriam ser sempre precedidos de trabalhos de diagnóstico arqueológico. Os seus resultados, tal como outros factores de carácter social, económico ou ambiental, deveriam informar os decisores, contribuindo para uma ponderada e cautelosa posição final. Tal procedimento deveria ter ocorrido nos casos mencionados, evitando-se tomadas de decisão erradas que penalizam promotores, empreiteiros e arqueólogos envolvidos nos processos de minimização. De facto, estes são sempre encarados como responsáveis por imprevistos e incomodativos achados. Ou seja, as entidades licenciadoras não assumem, na grande maioria dos casos, a responsabilidade de antecipadamente se informar para condicionar com rigor o licenciamento de promotores que, normalmente, não são devidamente alertados para este tipo de questões, nem tão pouco para as técnicas que as permitem evitar ou antecipar.

O nosso país não se pode dar ao luxo de assistir, neste como em muitos outros casos, a graves problemas planeamento com repercussões na qualidade dos trabalhos de Arqueologia (tendencialmente de baixa qualidade), na sub-orçamentação de projectos e, sobretudo, na irreparável perda de importantes elementos de elevado potencial para processos de conhecimento. Ou seja, estas situações implicam rupturas financeiras, despesas imprevistas (que alguém tem que pagar), problemas no cumprimento dos prazos definidos, transtornos para a vida dos cidadãos e dos projectos de muitos promotores e, por fim, eventual implementação de estratégias e de metodologias desajustadas face ao real valor dos contextos a intervencionar. Tudo porque as pressões para a sua execução técnica em tempo recorde são extremamente fortes, favorecendo-se cedências ao nível do rigor e da qualidade final. Assim, sem planeamento adequado são tomadas decisões desadequadas.

Braga, Coimbra ou Lisboa, com modelos de gestão mal estruturados mas diferenciados, têm sido territórios patrimoniais extremamente massacrados. Os maus resultados que globalmente se têm verificado demonstram ser urgente reflectir, de forma aberta, sobre o futuro. Tal reflexão deverá conduzir à implementação de um adequado modelo de gestão que garanta uma consequente salvaguarda, investigação e valorização dos seus contextos arqueológicos. Neste âmbito, o papel das Autarquias, da tutela do Património, das Universidade e das empresas são fundamentais e complementares. Mas não tenhamos dúvidas, ás boas empresas e à sua capacidade de actuação criativa, inovadora e mobilizadora caberá um papel vital. A sua flexibilidade é uma mais valia no estabelecimento de pontes e na viabilização da enorme quantidade de projectos que quotidianamente têm que ser prosseguidos.

Miguel Lago, Março de 2009

 


0132 - Era uma vez o Património 14

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Património reproduzido

  

O Museu de Altamira integra uma réplica da gruta de Altamira.

Foi a solução encontrada para resolver o problema da impossibilidade de abrir ao público a mais famosa gruta do mundo com pinturas pré-históricas. Os debates em torno da reprodução das obras de arte têm uma longa história e a opção aqui assumida é um notável caso de necessidade ou de imperiosa vontade de aproximação ao real.

Desde a sua descoberta, nunca mais pararam as reproduções. A luta entre a preservação da autenticidade e recato de um lugar "sagrado" e a difusão da sua existência como algo de acessível para todos, foi-se  acentuando. A vitória da visita ao autêntico redundou no descontrolo e colocou em causa a sua integridade, obrigando a um repensar das estratégias do Poder relativamente ao acesso livre a Altamira. A democratização do acesso e o impacte económico desse processo são, desde há muito, motivos de debate e de mal-estar na comunidade científica e entre os decisores políticos. 

 

 

  

 Dos muito locais da Cantábria com arte pré-histórica é o único controlado pelo governo de Madrid. O poder central assumiu o controlo do "ícone" e moldou o museu a partir das suas necessidades de âmbito nacional, criando-se uma cisão em relação a todo o restante património que permaneceu sob controlo do governo regional.

Altamira é tão representativo do poder do Património, como do uso que o Poder faz do Património nas sociedades contemporâneas, cristalizando-se visões oficiais do passado em locais de aparato. Apesar das virtualidades que são patenteadas pela disponibilização de conhecimentos ao público, o Museu não marca a agenda da produção científica e tende para a estagnação. Assim, pela exposição, não vale a pena voltar regularmente; pelas actividades pedagógicas para crianças e jovens, encaradas de forma mais dinâmica, é possível que sim. Afinal, talvez o mais interessante seja mesmo a possibilidade de aceder, através da réplica, à emoção de olhar o que na realidade não pode ser visto.

A porta da verdadeira gruta está fechada há muitos anos. Na escuridão, não é possível olhar o original mas a noção do sítio permanece inalterada. Entretanto, continua a discussão: abrir ou não a gruta (o director do Museu pretende criar condições, muito rigorosas, que permitam a sua reabertura a visitantes)...

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2009


0131 - Porto de Santos

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    «No estudo arqueológico da realidade portuária do passado, é relevante a definição daquilo a que chamamos, de um modo genérico, "porto". O conceito de porto, uma abstracção, exige que, do ponto de vista do potencial arqueológico, seja necessário distinguir os elementos (equipamentos) que formam o espaço portuário, cujas funções são especificamente de tipo portuário, e ainda os que constituem a parte complementar desse todo que configura a realidade portuária. Esses elementos específicos integram um local de desenvolvimento de actividades que abrange os seguintes momentos e gestos: chegada, partida, carga, descarga, importação, exportação, apoio, escala técnica, reabastecimento alimentar e/ou aguada de rotas de navegação, substituição de guarnições militares, desembarque de lastros.» (Blot, 2003, p.137)

 

Pormenor de estaca associada a um dos níveis de madeira mais relevantes de todo o conjunto

Terminaram agora os trabalhos de escavação da estrutura portuária detectada no Largo de Santos, no âmbito do Plano de Minimização de Impactes do empreendimento Casas de Santos.

Os elementos aqui detectados  - estruturas portuárias em madeira, associadas a um paredão e a diversas estruturas de apoio, em alvenaria - caracterizam-se, na sua maioria, por serem perecíveis, devido à permanência contínua com os níveis freáticos. Os níveis de madeira revelaram uma continuidade construtiva, quer se tratasse de aproveitamento ou reabilitação dos tabuleiros anteriores, mostrando áreas de maior ou menor potência de madeira e estacas associadas a alguns destes níveis, bem como um possível poste de amarração em madeira. «A técnica da estacaria surge, aliás, nos ensinamentos de Vitrúvio que, no caso específico das construções portuárias, aconselhava a construção de cofragens de estacas de carvalho destinadas a receber a mistura de argamassa com caementa (Vitrúvio, Livro V, 3; Maciel, 1996, p. 326-327), ou ainda, em caso de fundo pouco consistente, uma "estacaria de álamo ou de oliveira impregnada com carvão" (Vitrúvio, V, 6; apud Maciel, 1996, p. 328) para instalação de algo como alicerces de opus quadratum que podiam receber construções, nomeadamente em madeira (Vitrúvio, V, 6; Maciel, 1996, p. 328). Note-se que, na época moderna, verificamos a mesma continuidade na utilização da madeira, com a preferência pela estacaria de pinho verde para o assentamento de estruturas em meio húmido ou aquático.» (Blot, 2003, p.140).

 

 Associados a este espaço portuário encontram-se outros elementos que traduzem uma dinâmica de actividades a este associadas, nomeadamente, fontes históricas e os materiais arqueológicos recolhidos in situ. Sob e entre os diversos níveis de madeira registados, encontraram-se inúmeros fragmentos cerâmicos, maioritariamente de faiança e porcelana chinesa, fragmentos de corda vegetal, diversos cravos, solas de sapatos, fragmentos de couro e cachimbos caulinos.

  

Susana Pires

Inês Mendes da Silva


0130 - Era uma vez o Património 13

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   Monumental abandono?

Forte da Graça, em Elvas. Em visita recente, fiquei perplexo com o abandono deste extraordinário monumento. Lamentável para a sua preservação e perigoso para os que se aventuram a penetrar num cenário fantasmagórico. Apesar disso, a sensação de aventura é inegável porque, de súbito, parece que nos aventuramos para lá do nosso tempo. Até recentemente prisão militar, a sua construção foi lendária e a sua história uma verdadeira saga.

Independentemente de tudo o que são as sensações de percorrer algo de tão monumental em estado de abandono, é curioso que nos gabinetes da autarquia se promova a sua candidatura a património mundial. A contradição é evidente; ou não. Afinal, o património serve sempre para qualquer coisa, até para nos servirmos dele para gerar candidaturas, promover projectos, gerar emprego, distribuir riqueza, ganhar eleições e afirmar poderes ou posicionamentos que em nada se relacionam com a herança que nos chegou.

Passada a fase da intenção das candidaturas e do uso mais imediato da sua expressiva imagem e valor, espero que se possa continuar a deambular nostalgicamente pelo Forte da Graça. Imperdível.

 

 

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2009


0129 - Património

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A minha vida profissional tem-me envolvido com um conceito complexo. O conceito de património. Ao longo da minha carreira, se carreira lhe posso (ou devo) chamar (creio que me sentiria melhor com o termo percurso), tenho-me confrontado com muitas e diferentes concepções de património. Desde as mais formais e normativas, às que buscam os seus fundamentos psicológicos ou simplesmente às mais imbecis.

Ao fim de alguns anos de caminhada, chego à conclusão que entre as várias perspectivas de património, existe uma dimensão partilhada: a do património como pretexto.

Poderão os mais distraídos pensar, numa primeira e apressada análise, que ao fazer esta afirmação estou a condenar algumas práticas menos claras que se servem do património em vez de servir o património.

Porém, não é assim. Estou a assumir que toda a relação com o património é uma relação de interesse, de pretexto, e que o servir o património não só não existe, como seria uma perfeita patetice se existisse.

O património existe para servir e só é património o que serve. E servirá sempre múltiplos e diferentes interesses, porque a sua capacidade de servir, e portanto de ser património, não depende dele, mas daqueles a quem serve.

(retirado de http://irrealidadeprodigiosa.blogspot.com)


0128 - Era uma vez o património 12

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  Pelas Linhas de Torres

 

 As Linhas de Torres são famosas, especialmente pela "Alameda das Linhas de Torres", percorrida diariamente por milhares de portugueses.

Menos conhecidas são as verdadeiras Linhas, constituídas por inúmeras estruturas arquitectónicas de carácter militar. Concebidas como um engenhoso e eficaz sistema defensivo, implementado sob coordenação do exército britânico instalado em Portugal, que tinha como função a protecção de Lisboa e da sua península relativamente a uma esperada invasão francesa.

O abandono e o passar do tempo da maioria destas estruturas, muitas delas construídas à base de terra e fossos escavados, tornou-as quase imperceptíveis para os mais desprevenidos. Apesar do passar de quase duzentos anos desde a sua construção, a grande maioria das arquitecturas está num surpreendente estado de conservação e, quando visitadas, não podem deixar de causar uma forte impressão.

Vários municípios estão, actualmente, em fase de implementação de um vasto projecto que pretende estudar, salvaguardar, preservar e valorizar na óptica do visitante um conjunto relevante de sítios que constituíam estas descontínuas linhas defensivas (não se tratavam de muralhas, mas sim de linhas de fortes ou fortins, espaçados ao longo de uma paisagem acidentada).

Aguardemos pelos resultados finais, não apenas ao nível da reabilitação de sítios mas também em termos de valorização e gestão global do projecto. Como sabemos, o mais complicado é assegurar a sustentabilidade destas iniciativas a médio e longo prazo, sendo minha convicção que um projecto deste género poderia beneficiar de uma gestão por objectivos devidamente contratualizada a uma entidade privada como a ERA (o problema é o lucro!, esse elemento tão diabolizante...talvez com uma associação...).

 Até lá, a maioria dos sítios permanece anónimo na paisagem (apenas os sítios mais monumentais mereceram uma utilização mais continuada e obras de preservação regulares). Trata-se, inegavelmente, de um conjunto surpreendente: pelas histórias que encerra, pela monumentalidade, pelo seu significado histórico e pelo potencial didáctico, formativo e lúdico.

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2009


0127 - Era uma vez o património 11

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  Precisamos do Património

A Vénus de Milo permite uma outra abordagem, de maior proximidade. E como não é tão popular como a Gioconda a pressão dos visitantes é menor (recordo-me agora de um turista que mencionou que, naturalmente, vira no Louvre a Mona Lisa, mas quanto à Gioconda, não se recordava de ter passado por ela).

Nesta sala é mais fácil fazer retratos para mais tarde recordar; de corpo inteiro e com a estátua mesmo ao lado. Um a um, são muitos os que assumem a sua pose.

Mais tarde, sem pressas, ultrapassada a ansiedade de tirar fotografias e a necessidade de passar ao próximo "ícone" do museu, talvez seja possível reparar naquele corpo sem braços. Talvez. E então, talvez alguns sintam que têm que lá voltar.

 

Miguel Lago, Janeiro de 2009


0126 - Era uma vez o património 10

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Património em estado puro

 

 

 

A solidão de Mona Lisa, resguardada pela vedação e pelo vidro sobre a tela.

 

A multidão e a obra de arte. A vontade de ter o Património, de guardar a referência e de preservar através da fotografia uma experiência. 

Afinal, que viemos aqui fazer?

 

Miguel Lago, Janeiro de 2009


0125 - Era uma vez o património 9

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   Como foi abandonado o Torrão?

 

Vivenciar uma paisagem. Foi o que aconteceu, forma intensa e durante o Neolítico, na área em que se insere o Cabeço do Torrão, em Elvas.

Apesar das lacunas, o Megalitismo local é conhecido com algum detalhe, o mesmo não se podendo dizer de outros aspectos inerentes ao quotidiano das populações que ali viveram e ali construíram aqueles monumentos.

A descoberta do recinto megalítico do Torrão, no início dos anos noventa, foi apenas mais um acontecimento de uma sequência de milhares de anos: na cerca de um rebanho de ovelhas, durante alguns anos uma equipa de arqueólogos investigou, interpretou e reviveu um local, agora arqueológico.

A emergência do sítio como local arquitectado ocorre num território certamente carregado de significados e no qual os homens se enraizavam fortemente. Dois pequenos recintos, lado a lado; um definido por menires, outro, delimitado por uma vala, no interior do qual diversas fossas foram sendo escavadas. A meia encosta, uma pequena sepultura de cariz megalítico.

Dada a importância do conjunto monumental, o Cabeço do Torrão foi integrado no projecto do Circuitos Arqueológicos das Antas de Elvas, promovido pelo IPPAR. Rapidamente, este projecto entrou em colapso.

Foram investidas verbas muito avultadas: em escavações arqueológicas e produção de conhecimento e em acções de valorização que facilitassem a preservação do sítio e garantissem melhores condições de visita. O projecto assentava em percursos que, a partir do Castelo de Elvas e em viaturas todo-o-terreno percorriam vastas paisagens. O modelo, sensivelmente o mesmo aplicado no Parque do Côa, assentava numa gestão do IPPAR, incluindo as próprias visitas guiadas. Dez anos depois, pouco resta. Os jeeps estão parados (provavelmente avariados por falta de manutenção) e as visitas desactivadas. Como se nada fosse, no site do IGESPAR, tudo continua na mesma, assumindo o instituto uma perspectiva fantasmagórica do Património.

No terreno, tudo está degradado. A sinalética desapareceu, a vedação está degradada e as estruturas estão fortemente degradadas. A manutenção há muito que deixou de ser realizada. O único menir que se mantinha erguido foi tombado. Em suma, o Cabeço do Torrão está abandonado e esquecido.

Quando lá estive recentemente, nada fazia sentido. Porque estive envolvido na descoberta, investigação e valorização, senti que quase tudo fora em vão.

Sozinho, passeei pelas redondezas e a candura da paisagem aberta ao olhar não me deixou dúvidas porque, de súbito, tudo fez sentido. De facto, a natureza ocupou, rapidamente, o seu lugar e, em breve, tudo estará entregue ao sol, ao vento, à chuva e aos bichos. Desta nossa fugaz ocupação restará algum conhecimento.

Quanto à beleza de cortar a respiração, já regressou. Sinceramente, este é o verdadeiro Torrão.

Para quê valorizar?

Miguel Lago (Janeiro de 2009)


0124 - Boas Festas

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0123 - Oportunidade perdida.

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Ontem assisti a uma comunicação sobre grutas artificiais ou semi-artificias da Pré-História Recente estremenha. A ideia principal que se procurou comunicar foi a de que muitas dessas construções foram feitas aproveitando as pré-existências naturais, como diáclases, níveis sedimentares mais brandos ou cavidades naturais, as quais conformaram e de algum modo atraíram a intenção humana de ali construir sepulcros. A observação, com sustentabilidade empírica (com ficou claro pela comunicação, embora proferida de forma... exótica), tem potencial para ser explorada em várias direcções. No entanto, lá seguimos a "única direcção" do costume:

no final designou-se este aproveitamento como uma "estratégia oportunista", no sentido de que se recorria a estas circunstâncias porque facilitavam e poupavam trabalho.

As versões do racionalismo economicista e da moderna teoria da inércia aplicadas de forma acrítica à Pré-História continuam a ter clientela. O que não é mau em termos de diversidade ecológica. 

Estive recentemente numa sessão do 3º Congresso Nacional de Geomorfologia onde se realizou uma sessão de "Arqueologia dos Espaços Naturais". A temática era, precisamente, abordar as formas como o "natural" (conceito já de si problemático em Pré-História) são enquadradas pelo cultural. Diria que 95% das comunicações evidenciaram a importância do pensamento simbólico para poder compreender essas formas de integração. Não deixa de ser estranho que, tratando de estruturas consensualmente impregnadas de simbolismo como são as estruturas funerárias, a resposta seja simples e estritamente "oportunista".

Fiquei com vontade de perguntar o que pensavam os comunicantes sobre a ideia que teriam os Pré-Históricos sobre as diáclases, as cavidades cársicas e a água que de lá sairia. Se essa estratégia era oportunista porque lhes poupava trabalho ou era oportunista porque nessas circunstâncias viam vias de acesso a um interior sagrado da terra, ou olhavam uma estratigrafia como metáfora de mundos sobrepostos, ou ....

Mas não perguntei, pois, paradoxalmente, também não me apeteceu perguntar. Não há relação humana com a natureza sem sentidos. Quando esses sentidos não são os da racionalidade moderna, terão que ser outros. Quando não conseguimos conceber ou tentar entender outros, restam-nos, de facto, os nossos. Aqueles que nos gerem, frequentemente de forma incosciente, a acção.


0122 - Arqueologia nas livrarias

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É notável a ausência de bibliografia arqueológica nas livrarias em Portugal e muito concretamente em Lisboa. Para além da Livraria Portugal, onde ainda conseguimos encontrar uma prateleira inteira com livros e revistas de Arqueologia, o resto é um deserto.

É certo que, em Arqueologia, se publica pouco em Portugal. É ainda mais certo que se lê pouca Arqueologia, tanto pelos profissionais do ramo, cujo deficit de leitura é manifesto, quer pelo público em geral. Nesta última situação, talvez porque o que se publica é demasiado técnico e pouco destinado a uma divulgação generalista.

Parece, pois, não haver mercado editorial para a Arqueologia. E, no entanto, à partida todos diríamos que a disciplina teria potencial.

Acontece que, no que respeita ao mercado interno, se instalou uma prática e uma rotina em que os agentes pensam que os conhecimentos incorporados durante o trajecto académico são suficientes para com tudo lidar e tudo escavar, etc., etc., etc.. Por outro lado - e é preciso reconhecê-lo e afirmá-lo - a actual situação financeira que envolve a actividade arqueológica não cria condições favoráveis a práticas rotineiras de aquisição de bibliografia. Isto, contudo, não justifica na íntegra a "descontracção" com que , em iliteracia científica disciplinar, muitos se dedicam à profissão.

Quanto ao público generalista, diria que a Arqueologia portuguesa ainda não começou a produzir um discurso didáctico, generalista e gerador de curiosidade e prazer de leitura, como tem acontecidos com autores nacionais da área das ciências físicas e naturais. Existem algumas situações, mas são raras e não parecem ter conseguido atingir as fórmulas mais eficazes.

Estamos, pois, numa situação viciosa em que a ausência de mercado não estimula respostas disciplinares adequadas, ao mesmo tampo que uma falta de vocação da grande maioria dos arqueólogos para lidar com o público generalista também não contribui para a emergência desse mesmo interesse externo, com claros reflexos negativos no Retorno Social que a disciplina deve proporcionar e na consolidação da sua relevância social.

Também é certo que não devemos descurar o facto de que o mercado editorial está infestado por grande quantidade de produtos tóxicos que, devido à sua grande procura por parte do "Homem Massa", acaba por roubar espaço nas prateleiras a outras iniciativas editoriais, remetendo-as para nichos de diversidade ecológica, eles próprios com dificuldades de sobrevivência.

Deveremos, pois, entender a reduzida presença da Arqueologia nas livrarias como um espelho da importância concedida à Arqueologia pela sociedade portuguesa e, simultaneamente, da consideração que os arqueólogos revelam por essa mesma sociedade? Ou será tudo isto resultado de uma lógica de negócio, que não permite o aparecimento e ascensão de projectos editoriais que não vendam à partida milhares de exemplares? Se assim for, os pequenos livreiros prestam um serviço público inestimável e mereceriam a atenção das entidades que governam o país na área cultural. Infelizmente as mesmas que acabaram com as publicações científicas de arqueologia que detinham e encaixotam (sabe-se lá por quanto tempo) uma das mais importantes bibliotecas de arqueologia do país.

Naturalmente, esta debilidade da dinâmica editorial não pode deixar de ter profundas consequências atrofiantes e nefastas no desenvolvimento disciplinar e profissional da Arqueologia portuguesa. Mas também não é muito espectável que quem não costuma ler nem escrever (para além de curtos relatórios) se preocupe muito com o problema, que, em última instância, nem sequer existe. É pura irrealidade.

(Excerto de entrada publicada em http://irrealidadeprodigiosa.blogspot.com)


0121 - Azeite caro

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 No Alentejo, a rede de rega de Alqueva continua a revolucionar o conhecimento que temos da Pré e Proto História regional. Agora são contextos de fossas, com as mais variadas morfologias e conteúdos que aparecem um pouco por todo o lado, com cronologias do Neolítico ao Final da Idade do Bronze. Enterramentos em fossa, com deposições de animais associadas começam também a surgir, imitando situações peninsulares melhor conhecidas (como a da região de Madrid, por exemplo).

Enquanto ainda recentemente alguns falavam de Bronze do Sudoeste, a multiplicidade de soluções funerárias tem vindo a evidenciar o carácter datado de um conceito histórico-culturalista referente a uma "cultura arqueológica" cuja identidade material (essencialmente construída com determinado tipo de contextos funerários) se desvaneceu.

A "Revolução Empírica" continua. A Teórica está mais atrasada.

Mas a par destes projectos cujo impacte proporciona esta dinâmica revolucionária, outros há que são bem mais modestos e estarão sobretudo a provocar uma revolução silenciosa: a destruição sistemática de contextos deste género.

Refiro-me concretamente ao plantio de vastas áreas de olivais. Àreas de incalculáveis hectares, onde, face à realidade evidenciada pela vizinha rede de rega (tão vizinha que existe precisamente para alimentar estas propriedades), é impossível que estas (e outras) realidades arqueológicas não estejam presentes.

E, no entanto, não há estudos de impacte, não há acompanhamentos arqueológicos, não há minimizações. E que faz a tutela do património, organismo que no Estado tem a função de zelar pela salvaguarda do património?

O azeite já não está barato. Mas este vai sair imoralmente caro.

 

Fossa em corte na área abrangida por trabalhos de obtenção de terras de empréstimo para obras da rede de rega. Os trabalhos foram interrompidos, a obtenção de terra moudou-se para outro lado e a minimização está a ser realizada. Depois, tudo voltará a ser entulhado. E depois, talvez não muito depois, vem o olival. O sítio está lá, é conhecido, é importante, mas desconfio que o projecto de plantação vai em frente e nada será feito em termos de arqueologia.


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