|
Entrada
|
Posted by: valera in Untagged on
Nov 26, 2008
Por força das circunstâncias estive "preso" ao Auditório 3, pelo que pouco ou nada posso dizer sobre o que se passou nos Workshop. São as contingências de ter sessões em simultâneo, mas isso é o que vai acontecendo por todo o lado, face ao aumento do número de participantes e propostas de comunicação. Qualquer fórum que ambicione congregar um número relevante de participações e discutir temáticas variadas terá que enveredar por esta solução. Como em muitas outras ocasiões na vida, somos obrigados a optar. Mas isso não é um mal, apenas uma responsabilização. Assim, apenas poderei emitir opinião sobre a percepção que desenvolvi sobre o Congresso em geral e sobre o que se passou no Auditório 3 em particular.
Em termos gerais devo dizer que o Congresso cumpriu. Poderia ter-se atingido um nível um pouco mais alto, mas, mais que uma crítica, esta observação deve ser entendida como o sublinhar da existência de margem de progressão. Antes de tudo mais cabe destacar o facto de que foi possível, com consequência prática, reunir empresas concorrentes em torno de projectos de interesse comum e geral. Neste sentido, e face ao historial da arqueologia portuguesa, esta conquista não é de desprezar. Segue-se o facto de o Congresso traduzir uma dupla atitude: primeiro, afirmação de que há, apesar de tudo, qualidade na arqueologia realizada em contexto empresarial; segundo que existe uma atitude de auto reflexão e de auto crítica nesse meio, atitude que, infelizmente, não é generalizada.
Quando a observações mais concretas, diria (como já foi comentado por outros) que se repetiram diagnósticos há muito estabelecidos, faltando a indicação de caminhos e de soluções para resolver o que já todos percebemos estar mal. Poderia mesmo dizer que 2008 foi um ano (e continua a ser) muito profícuo em "reuniões de diagnóstico", sendo a capacidade de arqueólogos e instituições que os enquadram para actuar na resolução dos problemas inventariados inversamente proporcional à sua capacidade de diagnosticar. Esta afirmação, já tantas vezes repetida, não deixa de ser mais uma demonstração dessa mesma evidência. Um mal nacional, que se traduz numa tradicional e generalizada atrofia para a acção, a qual foi várias vezes exposta com incomparável beleza por Pessoa. A título de exemplo: "Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, criar coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer." (Bernardo Soares, O Livro do Desassossego)
Mas também aqui, o CPAE, pelo simples facto de ter sido concretizado, parece querer inovar. Quanto ao que se passou no Auditório 3, gostaria de salientar o brilhantismo da conferência de Criado Boado. Concorde-se ou não com a mensagem, esteve ali o que deve ser um arqueólogo: inteligente; com capacidade crítica para perceber as redes complexas que contextualizam qualquer problema; com opção por um caminho estruturado e claro, sustentado por uma percepção educada da actual sociologia que envolve a ciência, as suas disciplinas em geral e a arqueológica em particular. Do que foi o conjunto da sua mensagem gostaria de sublinhar a ideia que vincula a administração a não abandonar o "bebé": se de facto foi através da legislação que se gerou uma "inovação social" (uma área de actividade económica, social, cultural e política), um "sector" anteriormente inexistente, então a administração não pode apenas assumir que se responsabiliza pelo património. Terá também que perceber que tem impacto (e responsabilidade) em tudo aquilo que gira à volta dele. Não de uma forma dirigista e paternalista, mas de uma forma "fomentadora" e "reguladora". Não há património sem um "sector" do património, que deveria ser ajudado a crescer na sua diversidade institucional.
Quanto ao resto, e porque a "conversa já vai longa", diria que houve coisas boas e outras menos boas. Mas a avaliação não pode ser feita apenas relativamente às necessidades do presente e ao que possamos ambicionar de melhor no futuro. Há que olhar para trás. E quando temos esse olhar, então fica óbvio que este Congresso foi revelador do que se conseguiu em apenas 10 anos. Assim haja ideias e capacidade para as por em prática. Empreendorismo, portanto. Mas cuidado, noutros 10 anos (ou menos) as coisas podem regredir. Como diz um anúncio actual numa das televisões, o erro da humanidade é pensar que males passados não se podem repetir. Tudo, depois de conquistado, necessita de manutenção (e não apenas os sítios arqueológicos). O CPAE é uma dessas conquistas merecedoras de manutenção. Não tanto pelo que já fez, mas sobretudo pelo que ainda pode fazer. Quanto às "bocas" que vão aparecendo, sugiro que se releia o que escrevi sobre a intervenção de Criado Boado.
António Valera (Retirado de http://www.almadan.publ.pt/blogue.htm)
Posted by: valera in Untagged on
Nov 21, 2008
Hoje e amanhã, irá decorrer em Lisboa o primeiro Congresso de Arqueologia Empresarial. O programa é interessante e o congresso será seguramente um espelho do trabalho produzido actualmente por Empresas de Arqueologia em Portugal. Tudo indica que teremos apresentações de grande qualidade reflectindo o trabalho sério que a grande maioria dos Arqueólogos tem produzido. Haverá certamente interessantes discussões sobre técnica e ciência da Arqueologia. Existem no entanto duas conclusões que, a meu ver, se sobrepõem às considerações anteriores: 1 - Existem empresas de arqueologia; 2 - Existe mercado para a arqueologia empresarial; Parece óbvio não é? Mas há 10 anos atrás - só dez anos - não era óbvio. Tudo começou com o Alqueva. Mal ou bem, Portugal foi pioneiro. Pela primeira vez uma obra de dimensão Europeia iria ter em conta o Património Arqueológico! Os trabalhos foram definidos, planeados, orçamentados, adjudicados e executados. A abordagem escolhida pela EDIA gerou muitas discussões, críticas e indignações. A abordagem poderia ter sido diferente, por ventura com melhores resultados. Mas a verdade é que a obra está feita, e foi feita dentro do prazo e do orçamento. No entanto, o verdadeiro mérito do Alqueva (no que diz respeito à Arqueologia) não foi demonstrar que é possível planear e executar obras em Portugal sem atrasos e derrapagens orçamentais. Alqueva foi o catalizador da Arqueologia Empresarial em Portugal. A matéria-prima estava lá, só faltava algo que a ligasse e que pusesse tudo em funcionamento - foi o Alqueva. Foi muito gratificante participar no desenvolvimento da Arqueologia durante esse período. Os Arqueólogos tiveram um desempenho extraordinário. Foi-lhes exigida uma capacidade de adaptação extrema. Os conhecimentos adquiridos na Universidade estavam longe, muito longe, das necessidades da altura. Todos os meses se criavam novas metodologias de trabalho, técnicas de escavação, de registo, de desenho. Enfim, um verdadeiro frenesim. As palavras "orçamento", "planeamento" e "prazo" começaram a sair das trevas! Depois acabou... Mas só o Alqueva, porque a Arqueologia continuou e continuou a crescer! Se calhar vai acabar em breve - não sei. Mas a verdade é que em 10 anos Portugal assistiu à criação de uma nova actividade. O impacto económico da Arqueologia em Portugal não é sequer mensurável, tão pouco apelativo como os novos clusters de Biotecnologia ou outras Tecnologias de Ponta. Mas a Arqueologia existe e é responsável por muitos postos de trabalho. Como é normal nestas coisas não é possível saber qual é o futuro da Arqueologia Empresarial em Portugal. No entanto, estou certo de que não haverá futuro se não houver vontade dos intervenientes - e os intervenientes são as Empresas e os Arqueólogos. Henrique Pestana 20 de Novembro de 2008
Posted by: valera in Untagged on
Nov 15, 2008
"O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam de saber. Nós não." (Fernando Pessoa, Textos Filosóficos)
Posted by: valera in Untagged on
Nov 03, 2008
Descobrir, conhecer, salvar...
A Arqueologia tem quase sempre associado o fascínio da descoberta. Em certos momentos, como o do processo de escavação de um esqueleto humano, pouco mais resta do que a pura concentração do arqueólogo na sua tarefa. Algo mais, talvez seja respeito. Aqui, uma estrada está em construção no Telhal, perto de Sintra. Enquanto as obras avançam noutros locais, nas áreas a afectar do sítio arqueológico tudo é exposto, registado e interpretado. Depois de desmontadas todas essas realidades que o constituem, as obras podem avançar. Trata-se de um importante sítio romano, totalmente desconhecido até hoje. A necrópole será islâmica. Parte dos contextos a afectar serão aterrados, mas de acordo com o parecer da tutela, apenas serão escavados os que sejam afectados por escavação de obra. O que vier a ser selado por aterro permanecerá, na generalidade, totalmente desconhecido. Em casos como este o trabalho tem objectivos e fortes condicionantes; sendo intenso, o ritmo da equipa não pode abrandar, porque os compromissos são sérios. É necessário assumir decisões de forma rápida e compreender a lógica de formação dos contextos integrando-os, sempre que possível, nos problemas inerentes ao enquadramento cronológico e cultural específico. O que nem sempre é fácil porque as equipas podem não estar devidamente preparadas, desconhecendo alguns dos pressupostos teóricos que as condicionam e moldam ou estando pouco apetrechadas para compreender a razão de ser de determinadas realidades. É fundamental motivar as equipas, estimulando o estudo, o diálogo e a troca de impressões em torno das opções tomadas, da evolução dos trabalhos e da forma como o sítio vai sendo construído a partir da sua escavação, devendo ser evitadas situações de puro trabalho mecanicista em que os arqueólogos mais não são do que escavadores e cumpridores de rotinas técnicas. Dado que uma escavação arqueológica é uma interpretação da realidade, o resultado final será proporcional ao saber da equipa. Como sempre, compreender, pensar e conhecer ajuda a manter o fascínio da descoberta e o gozo de ser arqueólogo. Mas também a utilidade de o ser.
Miguel Lago (Novembro de 2008)
Posted by: valera in Untagged on
Out 23, 2008
Algumas situações recentes, que, diga-se, me recordam outras mais antigas, levam-me a crer que há por aí uma nova hermenêutica, partilhada por diferentes instituições, para expressão "minimização arqueológica": fazer o mínimo de arqueologia. De certa forma, trata-se de inverter a "filosofia da coisa", a qual afirma a necessidade de minimizar o impacte de empreendimentos sobre o património arqueológico, centrando agora a preocupação no minimizar o impacte que a necessária intervenção arqueológica tem nesses mesmos empreendimentos. Qual atitude reflexiva (antes fosse), vivemos tempos preocupados com minimizar a minimização. Resolvi, pois, passar a escrito um conjunto de juízos e reflexões sobre o assunto, num artigo para a próxima Almadan, os quais, uma vez mais, desembocam na relação que existe (ou deve existir) entre o que é feito e as razões, legalmente consagradas, que fundamentam esse fazer. Um texto algo espirituoso. Isto porque a lei tem "letra", mas também tem "espírito".
Posted by: valera in Untagged on
Out 11, 2008
Tradicionalmente em Ciência, e muito concretamente em Ciências Sociais, considera-se que a distância é um requisito objectivador, da mesma forma que no dia a dia se pensa que a "frio" se vê melhor que a "quente" (quando apenas se vê diferente). A Arqueologia (e há muitos a trabalhar no sentido de tornar, ou manter, a Arqueologia uma ciência social - mas não está fácil) demonstra que não é bem assim. De facto, em Arqueologia Pré-Histórica, e dada a distância (cronológica, histórica, cognitiva, linguística, etc.) e o carácter indirecto com que o observador lida com o observado (sim indirecta, porque o objectivo da Arqueologia, ao contrário que em tempos foi assumido, são as pessoas e não só as suas materialidades), fica bem patente o que é tentar perceber, interpretar e até explicar quando se está distante do objecto de análise e do seu contexto. Daí que, em momentos de algum exagero, alguns reclamem que falar do passado pré-histórico não é mais que falar do presente, tal esse passado pré-histórico nos é distante e de difícil acessibilidade. Encurtar essa distância é, tão só, aperceber-mo-nos dela, adoptar uma atitude reflexiva e procurar controlar, ao máximo das nossas possibilidades (sempre limitadas), os subjectivismos, os preconceitos, sabendo que nunca poderão ser anulados na totalidade e que, em determinadas circunstâncias, até são fundamentais para nos aproximar ao objecto da nossa análise. Apesar disso, muitos não prestam atenção à distância e à necessidade de a encurtar. Estas problemáticas colocam-se com muita frequência perante elementos da cultura material que nos são estranhos e, por vezes com maior aquidade, perante alguns daqueles que consideramos familiares. Para evidenciar o problema é muito frequente lembrar o famoso quadro de Magritte "Isto não é um cachimbo". Para variar, deixo aqui outro recurso (onde a palavra toma o lugar da imagem): "Terça-Feira Estive a examinar a cascata. É o melhor do parque, penso. O novo ser chama-lhe "Catarata do Niagara" - porquê?, não compreendo. Diz que parece a Catarata do Niagara. Isso não é razão. É um mero devaneio e imbecilidade. Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo um dodo, diz que , logo que avista um, percebe-se que "parece um dodo". Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena, de qualquer maneira. Dodo! Parece-se tanto com um dodo como eu!" (Mark Twain, Excertos dos diários de Adão e Eva.)
Posted by: valera in Untagged on
Out 08, 2008
Pelo Buraco da fechadura Por vezes sente-se que a realidade nos escapa. Ou por falta de formação, ou por falta de informação, ou mesmo por falta de visão. O real é complexo e difícil de conhecer. Depois de consultados os horários do Circuito das Antas de Elvas, que consta do site do IPPAR (estranho, porque a instituição já não existe), decidi arriscar uma visita ao Castelo daquela cidade. Ali, supostamente, seria possível comprar bilhetes para a visita, tomar um café e visitar o castelo. No entanto, confirmou-se a minha suspeita. Porta fechada, num Domingo de manhã. O facto não me perturbou; antes de mais, já esperava; para além disso, conheço bem as Antas. O que mais me interessava era saber como estava o Projecto. Portugal é mesmo assim. Nada de explicações, nenhum horário afixado nas portas, nenhum símbolo institucional, nada. Por ser Domingo, eram vários os visitantes que ali chegavam. Olhavam, circulavam em torno das muralhas e seguiam sem protestos. Foi então que dei por mim a espreitar pelo buraco da fechadura. Entre puro voyeurismo e a esperança de compreender o que se passava, insisti na espreitadela. Foi então que vi, ao fundo, um jeep do IPPAR e das Antas de Elvas. Senti que algo não fazia sentido. Mais tarde, através do Turismo de Elvas, vim a saber que o Circuito das Antas está desactivado e que o próprio Castelo, a cargo não sabiam de que instituição, estava fechado. É extraordinário que uma instituição extinta seja a cara de um projecto que já ninguém sabe se existe. É sintomático de políticas de Património assentes no muito curto prazo, o mesmo sucedendo aos investimentos (ou despesas) realizados. Lamentável. Quanto às antas, dispersas pela paisagem, que a natureza trate delas. Miguel Lago, Setembro de 2008
Posted by: valera in Untagged on
Out 02, 2008
Trabalhando num dos meus actuais interesses, a relação Homem / Animal na Pré-História Recente, contactei com um plano de curso precisamente sobre a matéria, da autoria de Rob Boddice do European College of Liberal Arts (Berlim). Deparei-me com a seguinte passagem relativa ao trabalho dos alunos (os sublinhados são meus): "While this course is interdisciplinary in scope it will be historical in style. As such, I would expect students to read and write contextually. Unlike in the core, written assignments should involve a range of sources and ought to be able to deal, analytically, with different scholarly positions. As such, for each week there will be a key reading that will be mandatory, but I will also suggest a range of other materials (either from me or the library) and I recommend you also look for yourselves (especially on Jstor). I encourage as wide a range of reading as possible, to add richness to the discussion and your writing. Furthermore, seminars will often deal with primary sources, which must be subjected to critical scrutiny. It won't be enough to ask, ‘what does it mean?'; one must also ask, ‘when was it written and why and what does that mean?'. The final essay must embrace a range of material, both historical (primary and secondary sources) and interdisciplinary." Naturalmente, e seguindo os conselhos do próprio texto, há que o saber contextualizar no respectivo ambiente académico. Por cá, são ideias e práticas que não têm muitos seguidores.
Posted by: valera in Untagged on
Set 20, 2008
Posted by: valera in Untagged on
Set 20, 2008
E pronto! Terminou a campanha deste ano e com ela a intervenção no Sector I no âmbito do projecto da metalurgia.
Os resultados no que respeita à questão metalúrgica não foram significativos, mas foram-no, e muito, relativamente a várias outras problemáticas centrais para a caracterização e compreensão dos Perdigões. Mesmo no final, um "presente" proveniente das terras revolvidas pela surriba que haviam sido retiradas com recurso a máquina.
Posted by: valera in Untagged on
Set 19, 2008
Depois de um dis cansativo, cheio de compromissos mediáticos (importantes e necessários), aqui vão algumas imagens e notícias dos trabalhos quase concluídos. No Fosso 3 chegou-se finalmente ao fundo. Fica aqui uma nova imagem do mais recente "canito", mas igualmente interessante é a sequência estratigráfica, a qual revela momentos de deposição por acção humana intervalados por fases de erosão e deposição de elementos finos por acção hídrica. Esta situação documenta um preenchimento faseado e relativamente lento, com diferenças significativas relativamente ao Fosso 4, logo ali ao lado. Este tipo de estratigrafias, bem preservadas e escavadas, são fundamentais para o actual debate em torno da natureza e dinâmica de preenchimento destas estruturas. Já no que respeita à última fossa em escavação ( a Fossa 7, onde se encontra o Ricardo na imagem), continuou a fornecer alguns restos humanos em conexão anatómica.
Na imagem seguinte observa-se restos de um pé. O facto de nesta Fossa (ao contrário da Fossa 11, com esqueletos praticamente completos) se encontrarem partes de corpos em conexão anatómica, mas não esqueletos completos, sugere que ali terão sido feitas deposições primárias, mas em que as partes em falta terão sido removidas. Circunstância que alimenta a ideia de que este local de deposições funerárias primárias poderá ser um dos pontos de origem das deposições secundárias conhecidas na área da necrópole.
Posted by: valera in Untagged on
Set 15, 2008
Recomeçaram as escavações nos Perdigões, agora apenas para terminar a intervenção de Julho/Agosto. No Fosso 3, e após os primeiros centímetros, apareceu mais um crânio de cão (no círculo da imagem). Este crânio aparece, aparentemente, uma vez mais isolado, estando depositado sensivelmente na mesma zona do anterior, mas algumas dezenas de centímetros mais abaixo. Esta deposição de cânios de canídeos no Fosso 3 não tem paralelo em qualquer dos outros troços de fosso já escavados nos Perdigões, tratando-se de um dado importante para o projecto que se inicia sobre a relação Homem / Animal no 3º milénio AC.
Posted by: valera in Untagged on
Set 14, 2008
Vai iniciar-se amanhã mais uma semana de trabalho nos Perdigões, com o objectivo de concluir a escavação do Fosso 3 e da fossa com restos osteológicos humanos, contextos que ficaram por terminar na intervenção de de Julho / Agosto.
Posted by: valera in Untagged on
Set 11, 2008
Estou a ver a Grande Entrevista a Maria José Morgado e está a (re)encher-me a alma. São pessoas como estas que nos fazem ainda acreditar que é possível. Que é possível combater a mediocridade que invade o país, nas suas mais diversas instituições públicas e privadas. Há um Portugal brilhante, pena que tão minoritário e tão arredado do poder.
Posted by: valera in Untagged on
Set 10, 2008
Em termos institucionais e até aos anos noventa do século vinte, é praticamente impossível falar de uma arqueologia pensada, organizada e praticada por entidades privadas. O que em nada contradiz uma longa tradição de interesses privados presente na arqueologia portuguesa, precisamente porque sem uma política para o património arqueológico, este foi, quase sempre, secundarizado e marginalizado. De facto, o Estado deixou um vazio naturalmente preenchido pela actividade de pessoas mais ou menos empenhadas e fascinadas pela arqueologia. Mesmo em casos em que exerciam funções em organismos públicos, a sua acção em termos arqueológicos assentava eminentemente num empenho pessoal. Sensivelmente até à segunda metade dos anos noventa, perduraram indefinições óbvias nas políticas de património, pelo que, sem estratégias, sem planeamento, sem verbas previstas para investimentos em concretização de trabalhos, é óbvio que não podia existir mercado, incremento da actividade ou a sua profissionalização. Por esta razão, as primeiras iniciativas privadas de carácter institucional assumiram um teor associativo e sem fins lucrativos, modelo de actuação mais adaptado à realidade do meio arqueológico de então. O enquadramento institucional privado de âmbito empresarial, apenas surge nos anos noventa, inicialmente de forma incipiente e pelo cruzamento de ligações, muitas vezes pouco claras, entre determinados promotores de obras públicas e pessoas que realizavam Estudos de Impacte Ambiental ou concretizavam as primeiras acções de minimização implementadas formalmente em Portugal. No nosso enquadramento sócio-económico é possível aos cidadãos actuarem de diversas formas, individualmente ou colectivamente. Assim, as instituições criadas, nomeadamente as empresas, são ferramentas de actuação que têm a vantagem de, em sociedades convenientemente organizadas, serem transparentes, controladas e fiscalizadas, sendo sempre possível conhecer os interesses que as suportam. Significa isto que a emergência de actuações privadas na área do património arqueológico, nomeadamente de empresas, se enquadra numa visão clarificadora dos interesses em campo. Enquadrando este recente fenómeno na história da arqueologia portuguesa, podemos considerar que a emergência de instituições empresariais, configuram uma salutar mudança, reveladora da valorização social atribuída aos bens arqueológicos e do amadurecimento dos profissionais; agora, os interesses pessoais são tendencialmente assumidos de forma mais clara, cabendo às instituições públicas e sobretudo aos que nelas trabalham a responsabilidade de verificar a aplicação das regras de funcionamento. Aos que exercem as suas funções na esfera privada, exige-se o cumprimento das regras legais e comportamentos assentes em códigos de ética profissional e empresarial. Este tipo de sistema é, infelizmente, sujeito a perversões, nomeadamente decorrentes de fenómenos de corrupção. Mas estou convencido que nas sociedades contemporâneas é cada vez mais difícil mentir e ocultar desvios às regras do jogo. Se a legislação for exigente e as instituições públicas funcionarem, será mais fácil impedir a perpetuação de vícios antigos ou recentes, resultantes de interesse privados ocultos. Para estes, um sistema transparente, organizado e controlável torna-se desvantajoso. Temos de reconhecer que, curiosamente, o amadurecimento do fenómeno empresarial na arqueologia, apesar de desigual, foi extremamente rápido. Não existindo por parte do Igespar dados concretos sobre a representatividade dos diferentes tipos de enquadramentos institucionais na actual prática profissional, não temos dúvidas em relação ao facto da esmagadora maioria dos trabalhos autorizados individualmente por aquele instituto remeterem para indivíduos integrados de alguma forma numa empresa ou, em menos casos, trabalhando por conta própria. É natural que a rapidez do fenómeno coloque problemas ao nível da consistência das estruturas criadas, existindo uma maioria de empresas de reduzida dimensão e sem uma efectiva cultura empresarial. Estas características são, apesar de tudo, compreensíveis porque o meio arqueológico, por preconceitos bem enraizados ideologicamente, não estava preparado para aceitar novas formas de actuação, tal como o nível da formação não se adequava (ou adequa) a exigências que estão para além dos aspectos técnico-científicos inerentes à prática específica. Neste nova fase da arqueologia portuguesa, os interesses privados têm que ser conhecidos, devem estar identificados e expostos pelo controlo de entidades fiscalizadoras. O meio arqueológico é muito permeável a rumores que apontam para graves insinuações de que existirão nítidas evidências de corrupção, assentes em interesses privados de determinadas pessoas ou instituições. Este ambiente de suspeição poderia ser ultrapassado através de processos de clareza e transparência processual, de uma correcta fiscalização e da elevação dos padrões de qualidade vigentes. Determinadas áreas geográficas ou determinadas instituições promotoras de intervenções no território passíveis de interferir em bens arqueológicos não mostram sinais de abertura ao mercado; nesses casos, as suspeitas ou indícios objectivos de práticas menos transparentes persistirão, tal como será impedido o normal e livre crescimento da actividade. Miguel Lago (Texto ligeiramente adaptado de Lago, Miguel (2003) Público, Privado e Futuro na Arqueologia Portuguesa. Arqueologia e História, vol. 55, p. 141-150.)
|
|