0024 - Que fazer à formação?
Posted by: valera in Untagged on
Ago 20, 2007
Dizia este interveniente que as empresas de arqueologia começavam a ter problemas com a debandada de arqueólogos nos quais haviam investido em termos de formação. Penso, contudo, que a tónica está colocada na "sílaba" errada, pois parece haver maior preocupação com o aproveitamento destes recursos humanos por terceiros, do que com a incapacidade das empresas (que investem na formação) em conservarem as suas "produções".
E essas dificuldades estão relacionadas com problemas estruturais, não só da área da arqueologia empresarial, mas do mundo do trabalho em Portugal. A começar pela legislação.
O debate entre segurança e flexibilidade no trabalho está na ordem do dia. Trata-se de uma daquelas dualidades que só pode ter solução no compromisso, e onde o desequilíbrio em benefício de umas das partes só pode trazer problemas. Sabemos todos que o compromisso é um equilíbrio sempre instável devido à dinâmica da realidade social e por isso deve ser periodicamente reequacionado e renegociado. Não é esse, contudo, o entendimento de muita gente neste país.
É extraordinariamente difícil e muito caro dispensar um trabalhador contratado, por exemplo, quando deixa de existir trabalho para ele. Em sectores que têm grande instabilidade de volume de trabalho, com grandes flutuações de um ano para o outro, ou mesmo durante o ano, a solução é não contratar e recorrer a "recibos verdes". Como pode uma empresa contratar os 30 arqueólogos que necessita este ano, se a sua perspectiva de trabalho garantido nunca ultrapassa em média os seis meses e não sabe se a seguir vai ter um período de "baixa". Como pagaria os salários? Mesmo que consiga manter alguns dos "seus recibos vedes" ocupados quase em permanência, a sua entrada para o quadro seria um quase suicídio face à flutuação do mercado e à forma que a concorrência toma no sector.
Para além disso, um trabalhador no quadro é muito mais honoroso para a empresa (ou para o Estado, que como sabemos, deve ser um dos maiores utilizadores de recibos verdes), o que faz com que as empresas com estrutura (escritório, meios logísticos alargados e pessoal no quadro) tenham mais custos de produção, o que lhes retira capacidade competitiva face a uma realidade onde pontuam "empresas" sem estrutura alguma ou com um mínimo, que funcionam muitas vezes apenas como intermediárias entre o cliente e o arqueólogo que faz o trabalho (que assume tudo).
Cria-se, assim, um dilema. Algumas empresas têm investido na criação e desenvolvimento de uma estrutura e na formação dos seus quadros e dos seus colaboradores a recibos verdes mais frequentes. A razão prende-se com o facto de uma estrutura permitir que a empresa preste serviços de melhor qualidade, esteja apetrechada para responder a um maior número de situações com a competência e a qualidade necessárias, possibilite melhores e mais dignas condições de trabalho, possibilite o desenvolvimento profissional dos seus trabalhadores, em suma, que ajude a consolidar e a dar credibilidade ao sector e aos seus profissionais.
A falta de exigência, de fiscalização e uma disponibilidade de vários profissionais para situações de sub emprego e outras de duvidoso comportamento ético, têm, nos últimos anos, criado dificuldades em quem procurou investir em estruturas. Preços cada vez mais baixos (que impossibilitam a realização de trabalhos com o mínimo de qualidade), salários cada vez mais baixos, trabalhos de qualidade cada vez mais duvidosa.
Torna-se, assim, mais difícil conservar arqueólogos experientes, nomeadamente os que atingem uma idade onde a estabilidade de emprego ao longo o ano é um requisito para preencherem as expectativas de vida que legitimamente alimentam. Por outro lado, a concorrência leva a que se procurem arqueólogos mais baratos, normalmente mais novos e menos experientes, e que um acesso desregulado e precipitado ao mercado de trabalho facilita (nomeadamente com funções de direcção).
E que acontece à formação? Se a tendência é esta, cabe perguntar: para quê investir em formação se essas pessoas provavelmente sairão no curto prazo? Para que formar se o mercado consome baixa qualidade e a fiscalização não actua?
Daí que a tese do recurso a "profissionais liberais", que se esperam competentes e, suponho, que invistam na sua formação, ganhe terreno. A empresa deixa de ter o "peso" de manter estas pessoas no quadro e de lhes proporcionar formação, recorrendo a estes profissionais sempre que tal for necessário.
Este até poderia ser um modelo alternativo interessante (que funciona noutras áreas), capaz de dotar as empresas da flexibilidade necessária para enfrentarem alguns dos seus problemas, nomeadamente o da flexibilidade do mercado. Mas noutro país. Seguramente não no nosso, hoje.
Primeiro, porque não há hábitos de mobilidade de emprego em Portugal. Na Dinamarca, o trabalhador, em média, muda de emprego de 3 em 3 anos. Em Portugal isso seria impensável, pois mesmo que existisse disponibilidade para tal (e não há, a estabilidade de emprego é a do emprego para toda a vida), não há condições sociais que o permitam. Por exemplo, não é fácil mudar de casa em Portugal (é só olhar para o mercado de arrendamento), não existem políticas que permitam uma fácil reconversão dos profissionais, a legislação do trabalho dificulta a mobilidade, muitas instituições são avessas à mobilidade (vejam as universitárias), etc.
Segundo, na área de arqueologia não existem profissionais liberais competentes e com formação adequada em número suficiente no mercado. Quantos arqueólogos com mestrado ou doutoramento, com vários anos de experiência, com áreas de especialidade reconhecidas, estão disponíveis enquanto profissionais liberais para as empresas de arqueologia? Existem seguramente, mas o seu número é claramente insuficiente para as necessidades de um tal modelo de funcionamento. Por outro lado, a própria irregularidade do mercado não facilita a manutenção deste modelo, pois as pessoas precisam de trabalhar todo o ano (pelo menos neste sector). Por isso a falta de profissionais qualificados não será debelada apenas com a formação de mais profissionais qualificados.
Terceiro, porque muitos dos profissionais disponíveis são pouco responsáveis (Quantos aceitam o trabalho e telefonam um dia antes a dizer que não dá ? Quantos o abandonam a meio? Quantos não sabem lidar com as questões de imagem e de confidencialidade? Quantos não entendem que quando se integra uma equipa se veste a camisola dessa equipa e do respectivo clube, sem prejuízo de amanhã poder estar a jogar num outro clube ? )
Quarto, porque um profissional liberal qualificado pretende legitimamente fazer-se pagar bem e a concorrência existente e os baixos preços praticados não estimulam a opção por esse profissional, reduzindo-lhe as possibilidades de emprego, logo não estimulando o desenvolvimento desse tipo de mercado.
Estamos pois perante um dilema de difícil resolução. Dilema que não é específico das empresas de arqueologia, mas que, perante as fragilidades do seu mercado e do seu "estatuto social", é nesta área particularmente grave. Da forma como o mesmo for abordado e ultrapassado depende muito do futuro da arqueologia empresarial. Futuro de qualidade, entenda-se.


0024 - Que fazer à formação?
Outra assunto a merecer atenção (atenta) é a aparente despreocupação pública dos profissionais de arqueologia pelo futuro da profissão e consequentemente pelo seu próprio futuro. Será que o retrato traçado neste Blog sobre aspectos da actual realidade é apenas uma interpretação entre muitas outras possíveis? Será que afinal tudo está a correr bem? E nesse caso, porque pensam alguns que algo está errado? Afinal o modelo da ERA-Arqueologia não é um caso de sucesso e a prova de que a aposta na qualidade e qualificação pode ser vantajosa?
Pela nossa parte continuaremos a persistir. Acreditamos na nossa missão, nas vantagens do que concretizamos para os clientes e nas virtualidades dos valores ddo património, no contexto das actuais mudanças. bem como no contributo de todos os colaboradores. Esperemos que com tempo os melhores possam ser beneficiados e os incompetentes excluídos (ou reciclados). Por força do mercado.