0038 - Indústrias culturais

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

Um dos futuros da Arqueologia poderá ser (e tem sido noutros países) a sua entrada no campo da Indústrias Culturais. Face a essa perspectiva, será interessante questionar porque razão as empresas de arqueologia existentes em Portugal nunca enveredaram decisivamente por este caminho e se têm mantido paulatinamente (com excepções pontuais que apenas confirmam a regra) na área da "simples prestação de serviços", mantendo-se afastadas da "área de criatividade" que deverá constituir qualquer indústria cultural.

Uns responderão que não será essa a sua vocação específica. Outros que há défice de criatividade nos recursos humanos dessas empresas. Outros ainda lembrarão que não há ainda verdadeiramente um mercado capaz de sustentar o investimento nesse trajecto. Finalmente, outros recordarão uma mentalidade ainda fortemente enraizada: "Pensamos frequentemente na cultura e na economia como domínios distintos" (Andy Pratt).

Sem esquecer as anteriores, gostaria de sublinhar esta última circunstância, quase axiomática neste país. Ela continua a dominar as políticas culturais, na forma como estas lidam com os impactos económicos da cultura. Se por um lado o Estado tem desenvolvido uma política instrumental da cultura, isto é, utilizando a cultura como factor de atracção de investimento e de reabilitação em determinadas áreas (ex. intervenção urbana), por outro continua a sentir grandes dificuldades (de fundamento ideológico) em defenir políticas que estimulem o desenvolvimento de verdadeiras indústrias culturais capazes de se sustetar fora da "política do subsídio". E quando esta se reduz em tempo de vacas magras, a "produção cultural" decresce, por falta de financiamento. Nisto as Indústrias Culturais não serão muito diferentes de outras "indústrias" em Portugal. A "Política do Subsídio" é uma política que se baseia na ideia de que cultura e rentabilização económica são uma espécie de azeite e água. Daí que o subsídio seja visto como uma despesa e não como investimento. Que dele não deve resultar rendimento económico, mas apenas um produto que se consome e esgota "em benefícios culturais", mas não é capaz (não pode) ser factor gerador de sustentabilidade económica. Por isso não se subsídia a qualidade dos projectos, mas sim o "fim não lucrativo". Isto não será verdade para todas as actividades que hoje se enquadram na designação de "Indústrias Culturais", mas é-o seguramente para muitas, consideradas, pela sua "nobreza", acima das mesquinhas questões económicas. Assim, gerou-se no público o hábito de não pagar (ou pagar pouco) para consumir determinada cultura. O mercado, que já de si é reduzido devido à realidade económica do país, torna-se ainda mais fechado. Atente-se no seguinte gráfico:

 

O Estado português está entre os que mais gasta (propositadamente não digo investem) em divertimento e cultura (proporcionalmente mais que os países mais desenvolvidos e economicamente desafogados) e, pelo contrário, as familias portuguesas são das que menos gastam nesses mesmos items. Poderíamos ser tentados pela explicação simplista: é o reflexo da situação financeira do país. Mas não existe o simples, só o simplificado (se me permitem citar Bachelard). Creio que esta situação reflecte precisamente, não tanto uma ausência de mercado, de consumidores, mas antes uma relação tradicional com a cultura que está a dificultar o desenvolvimento de indústrias culturais e a própria consequência social de muitas potenciais práticas culturais, como será o caso da Arqueologia. Citando novamente Pratt:

"A minha tese é que a cultura, e particularmente a produção cultural - o fazer cultura -, se alterou nos últimos anos (...). Se aceitamos este ponto de vista, então penso que temos de aceitar também outra consequência, ou antes, desafio, : há que repensar a nossa relação com a cultura. Mais especificamente, aquilo que pretendo provar é que a nossa relação colectiva com a cultura - ou seja, o domínio da política pública - tem de mudar (...) sobretudo se quisermos explorar novos caminhos. Manter inalteradas as tendências do passado não é opção viável."

(Andy Pratt, 2007,"O Estado da Economia Cultural: O crescimento da Economia e os Desafios da Definição de uma Política Cultural", A Urgência da Teoria, FCG.)

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