0041 - Estados de espírito

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

"Muitas pessoas produzem enunciados críticos sobre a sociedade actual e o papel da arqueologia que parecem correctos, que são sem dúvida inteligentes, mas como é óbvio não mudam nada. São vozes no deserto. E, sobretudo, servem mais a quem as produz do que a mudar qualquer coisa, porque a nossa consciência crítica tornou-se impotente perante as forças do mundo (já o era, mas não o sabíamos com tanta acuidade)."

(Victor Oliveira Jorge, in tran-ferir.blogspot.com)

Um cepticismo que não partilho, embora a angústia e o apelo à desistência sejam, por vezes, muito grandes. Não a partilho por razões de crença (engraçada a expressão "razões de crença"), mas também por razões de teoria: a afirmação de VOJ renova a dicotomia entre sujeito e estrutura, ao admitir a "impotência" da acção individual face às "forças do mundo". Os efeitos da acção individual são restringidos ao próprio agente e, assim, por extensão, a estrutura não é por ele influenciada, levando-nos a um novo determinismo social.

Esta não é, contudo, a perspectiva do pensamento recursivo, que estabelece a dependência entre indivíduo e colectivo, entre acção e estrutura. Se o quotidiano nem sempre nos dá motivos de esperança, se frequentemente nos desanima, podemos sempre encontrar algum conforto na teoria e nas suas implicações práticas. Se a estrutura ("as forças do mundo") não é o simples somatório das acções individuais, se ela limita e simultaneamente viabiliza a acção, ela é também o resultado da acção. Por cansativo que seja (tendo em conta os resultados face ao investimento e às expectativas individuais), a acção individual age recursivamente sobre a estrutura: acção e estrutura pressupõem-se uma à outra. E este é um pensamento reconfortante, que nos pode animar a acção, à qual é reservada alguma consequência social (e não meramente individual). Por pouca que seja.

Naturalmente que sei muito bem que VOJ partilha da concepção recursiva da relação sujeito / totalidade social e que o seu cepticismo é um desabafo face ao ritmo descompassado entre sua dinâmica e evolução pessoal e a da realidade que envolve Arqueologia portuguesa. Mas é inegável que esta mudou nas últimas décadas, por acção de muita gente, apesar das tendências dominantes se manterem na linha de uma positividade ingénua.

A recusa do cepticismo, contudo, não pode gerar um optimismo ingénuo. A mediocridade organizada vai-se perpetuando, a ignorância habilitada vai-se multiplicando, o que reduz drasticamente a capacidade de intervenção e de influência dos "enunciados críticos".

Da mesma cidade e da mesma universidade chega-nos este exemplo:

"(...) sou Assistente de Arqueólogo, finalista da  licenciatura de Arqueologia da FLUP, profissional da ârea há 11anos,  escavo há 14 anos. e é com muita tristeza e revolta. e até com alguma  raiva que todos, ou a maioria dos cursos livres se realizam no Sul. Infelizmente nem toda a gente vive no centralismo nem na mama da  capital do "império", prá lem de Lisboa existe  gente interessada na  cultura, gente humilde e interessada nas coisas da sua terra. Quando é  que a arqueologia deixa de ser usufruto de alguns  "pseudo-intelectuais" e passa a ser a ciência da materialidade? Ciência do saber fazer, ciência na sua esseência socialista; e não  ciência de alguns, poucos. que vivem bem e borrifam-se para o País real? Para além da grande Lisboa existe terra, país, cultura e gente informada. Porque não a regionalização? Será a Arqueologia apanágio dos Lisboetas? Existe tanta Terra, tanta gente, tanta cultura popular, outras línguas  para além daquilo que se conhece. Partem para a descoberta do país real e depois digam alguma coisa. Já agora sou do Porto, da terra que deu nome ao noso país, e nacionalista."

(excerto de texto que circulou na mailing list Archport)

É difícil manter o empenho, de facto. Mas água mole em pedra dura....

Comentarios (2)Add Comment
...
escrito por António Valera, Novembro 05, 2007
Apenas duas notas.
Ir além do inicialmente perspectivado é expressão que não tem em si qualquer critério valorativo: o além pode ser melhor ou pior do que o aquém, ou pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, tendo em conta perspectivas diferentes.
Quando à incapacidade de visionar gerada por um pessimismo desmedido, há também que dizer que, muita vezes, o pessimismo é gerado precisamente por essa capacidade de "visionar o futuro" (ou um dos futuros possíveis) que, naturalmente, nos desagrada. Há, pois, dois pessimismos: um relativo ao presente e à capacidade que este revela de atingir determinado futuro que se deseja; e outro relativo ao futuro, onde se perspectiva uma situação que não se deseja, mas que se acredita que é para lá que o presente se dirige. Naturalmente, estes dois pessimismos podem conjugar-se.
As teorias da acção, sobretudo as mais ligadas ao Interaccionismo Simbólico, o qual põe a tónica na intencionalidade do actor, dizem-nos que as nossas acções são, em grande parte, movidas pela racionalização que fazemos das situações e das opções que se nos oferecem, assim como pelos objectivos que nos movem e que são projecções que fazemos no futuro. Pessimismo e optimismo são duas maneiras distintas de ler os trajectos de futuro. Mas sendo projecções, não são realidade e sim coisas desejadas ou indesejadas, ou seja, só se tornarão realidade através da acção e com a acção. A visão é motivadora ou inibidora, mas é a acção que gera o movimento. O concretizado é resultado da acção e não da visão. Caso contrário, Colombo teria chegado à Índia.
...
escrito por ML, Outubro 30, 2007
Apesar das contingências da estrutura em que nos integramos, estou absolutamente convicto das enormes possibilidades de acção de cada indivíduo e de grupos específicos de indivíduos. Ou seja, o contexto é de facto muito mas não é tudo.
Independentemente da perspectiva, todos actuamos ao longo da nossa existência e o mais importante é prosseguir sempre para além do inicialmente perspectivado. O pessimismo pode contribuir para reforçar necessidades de reflexão; mas também pode limitar a acção por conter em si incapacidades de visionar.
Em torno do património arqueológico e do conhecimento do passado (ou de nós próprios) muito se tem alterado ao longo dos últimos dez anos. Não restam dúvidas, as visões do futuro (mesmo que indefinido no tempo) ajudam no presente.

Escreva seu Comentario
smaller | bigger

busy