0044 - Taxistas
Posted by: valera in Untagged on
Nov 13, 2007
As modernas tendências do restauro e da conservação dizem-nos, de forma quase axiomática, que as suas intervenções devem ser sempre reversíveis. Este axioma é uma das expressões do nosso modo actual de lidar com a contingência, com a mudança, e que nos leva à defesa do provisório, ou melhor, ao fim das tentativas de lhe resistir.
Confesso contudo que, embora perceba perfeitamente o sentido deste princípio e, de certa forma, o perfilhe, não deixo de sentir que é uma espécie de casamento já a pensar no divórcio e, sobretudo, um receio de assumir "a nossa marca", a "nossa visão". Caso o futuro não goste ou saiba melhor, sempre nos pode remover da história de um edifício ou de outra coisa qualquer, voltando ao que era antes de nós.
Repito que percebo e que é difícil discordar simplesmente, mas confesso que também fico incomodado. Naturalmente que poderão argumentar que a nossa marca é precisamente essa, a de nos assumirmos como parêntesis, procurando colocar no futuro o que recebemos do passado, interferindo o menos possível. A de nos transformarmos numa espécie de taxistas (dos silenciosos, claro) para património, numa fixação quase doentia no futuro. Mas esta anulação do presente é necessariamente ilusória e essa ilusão leva que, na ânsia de tudo preservar para o futuro, nem sempre se pense o que se está a fazer, com claros reflexos no... futuro.


