0065 - De novo a Ordem dos Arqueólogos
Posted by: valera in Untagged on
Mar 12, 2008
Pessoalmente, que integro uma equipa que diariamente luta pelo incremento de boas práticas na arqueologia portuguesa, pela dignificação dos nossos profissionais e pela credibilização da actividade junto da nossa sociedade, considero, por princípio, as Ordens profissionais como algo de fortemente constrangedor da liberdade individual. Já uma estrutura associativa como a APA me parece mais adequada à acção em defesa das boas práticas profissionais na arqueologia, precisamente pela liberdade de adesão, devendo o seu peso decorrer do prestígio conquistado pela sua actuação diária em defesa dos profissionais e do Património (nunca o devemos esquecer!).
De facto, muito poderia ser feito por uma APA profissionalizada que não colocasse como seu grande objectivo a transformação em Ordem. Quanto a mim, seria de extrema vantagem a sua evolução para uma estrutura agregadora de profissionais de arqueologia e de outras pessoas (profissionais e amadoras) ou instituições, cuja actividade se relacionasse com o património arqueológico. Ou seja, deveria ser definida uma estratégia de abertura e não de enclausuramento dos associados, como aquela que, de alguma forma, decorreu da aprovação de normativos restritivos da inscrição na própria associação. Penso que o seu objectivo poderia, com vantagens, visar o incremento das boas práticas na actividade arqueológica e na actuação prosseguida por arqueólogos ou instituições sobre bens arqueológicos. A sua acção ao nível da ética profissional deveria ultrapassar a mera publicação de um código deontológico, afirmando-se antes pela plena difusão dos seus princípio, nomeadamente através de acções de formação e de sensibilização em diferentes patamares, particularmente através de contactos com as universidades e as empresas de arqueologia. Neste sentido, poderia ser considerada a possibilidade de definição de protocolos ou standards devidamente qualificados para a prática em determinadas situações (ex: normas mais adequadas para proceder a um correcto acompanhamento arqueológico de obras), naturalmente suportados em formações aprofundadas, certificadas e, consequentemente, garante de respeitabilidade.
Uma instituição como a APA, profissionalmente e socialmente prestigiada, deveria ter preocupações permanentes com a prática arqueológica - que trabalhos são feitos? em que condições? com que metodologias e equipamentos? adequam-se os projectos às necessidades sociais e patrimoniais? o que não é feito? Como se actua sobre o nosso património arqueológico? Ou seja, antes da luta pela Ordem, não poderia a APA ser dinâmica, consequente e respeitável junto dos profissionais, das instituições públicas e privadas da área do património arqueológico e da opinião-pública em geral?
Para além do exposto, as questões recentemente tão faladas da remuneração dos profissionais devem ser consideradas no seio do debate em torno das boas-práticas da profissão. Esse é um pilar fundamental da actuação de qualquer profissional: procurar incrementar os níveis de qualidade nos diferentes contextos laborais, garantindo, a partir da competência e da qualificação, as mais adequadas remunerações. Um crivo decorrente da exigência da tutela e dos "pares" representados pela associação, permitiria reforçar a qualidade final da prática arqueológica de todas as origens, podendo o olhar crítico, a denúncia ou a arbitragem de incompetências, de más-práticas e de eventuais destruições ser assumido pela APA.
Deveria ser pelo prestígio e não pela imposição que uma estrutura como a APA se deveria impor. Pelo rigor do seu código deontológico e pela elevação das normas técnicas defendidas e amplamente difundidas, seria possível criar um sistema de qualificações profissionais que garantissem planos e projectos de actuação arqueológica eficazes e competentes, passíveis de ser apreciados qualitativamente; então, pela criteriosa prática e pela visibilidade devidamente controlada de resultados, poderiam os profissionais ser avaliados. A visibilidade da profissão, a sua credibilização e a procura de bons profissionais incrementaria a qualidade, a formação e a qualificação de profissionais actualizados e sérios. Com essa procura dos bons para as melhores práticas, surgiria uma saudável competição, adequando-se, naturalmente, as remunerações às competências e aos níveis de responsabilidade de cada um.
Em síntese, sem um grande lastro de associativismo profissional e sem um profundo amadurecimento dos profissionais e consequentemente da profissão, não será a Ordem a resolver, milagrosamente, os problemas. A Ordem pode ser consequência de uma importância que a profissão venha a conquistar; mas, certamente, não será ela a gerar o que nos falta: profissionalismo, maturidade, consciência de classe, auto-estima e auto-regulação assente na permanente procura dos mais elevados padrões de actuação profissional sobre o património. Quando estes valores estiverem plenamente implementados, concluiremos que a Ordem de nada serve. A luta é árdua, mas acredito que existe maturidade suficiente para iniciar processos de exploração de caminhos que nos permitam ser cada vez mais úteis à sociedade em que nos inserimos.
Miguel Lago

escrito por Anjo Perpétuo, Março 04, 2010
escrito por ML, Março 13, 2008
escrito por recibosverdes, Março 12, 2008
Agora, paga muito mal ao pessoal que contrata para trabalho de campo, atraindo assim muitos recém-licenciados, daí, a imaturidade, a mediocridade, a falta de profissionalismo,.......
A culpa não é dos miúdos, eles até tentam, no fundo são usados e por vezes massacrados.
Agora quando pessoas que sabem o que estão a fazer os colocam à frente de acompanhamentos ou mesmo direcções de escavação, porque são baratos, depois criticam a imaturidade, a mediocridade, a falta de profissionalismo,......., bem, temos uma pescadinha de rabo na boca.

Na ERA todos temos problemas de remuneração; na Arqueologia, todos temos problemas de remuneração que resultam da importância social que a Arqueologia tem (ou não tem). Muito faz a ERA, que paga melhor do que a generalidade das empresas, cumprindo escrupolosamente os compromissos assunidos com todos os profissionais contratados. Queremos ser a melhor empresa; temos alguns dos melhores profissionais; permitimos o crescimento e a afirmação de muitos arqueólogos. Mas, não tenhamos dúvidas, para sermos mais bem pagos, temos que ser melhores, muito melhores do que a nossa concorrência, sempre melhores do que já fomos. Nos projectos para os clientes e na forma como, numa perspectiva de incremento da qualidade e dos níveis de exigência, actuamos no nosso contexto profissional. Se os clientes (o mercado) compreenderem e aceitarem essa diferença, estaremos mais próximo do sucesso. É esse esforço para melhorar que muitos de nós fazem diariamente, inclusivamente alguns dos mais jovens e menos experientes que querem evoluir sempre mais. A estrutura empresarial da ERA somos nós, todos os que aqui estão.