0113 - Contextualizar
Posted by: valera in Untagged on
Out 02, 2008
Trabalhando num dos meus actuais interesses, a relação Homem / Animal na Pré-História Recente, contactei com um plano de curso precisamente sobre a matéria, da autoria de Rob Boddice do European College of Liberal Arts (Berlim). Deparei-me com a seguinte passagem relativa ao trabalho dos alunos (os sublinhados são meus):
"While this course is interdisciplinary in scope it will be historical in style. As such, I would expect students to read and write contextually. Unlike in the core, written assignments should involve a range of sources and ought to be able to deal, analytically, with different scholarly positions. As such, for each week there will be a key reading that will be mandatory, but I will also suggest a range of other materials (either from me or the library) and I recommend you also look for yourselves (especially on Jstor). I encourage as wide a range of reading as possible, to add richness to the discussion and your writing. Furthermore, seminars will often deal with primary sources, which must be subjected to critical scrutiny. It won't be enough to ask, ‘what does it mean?'; one must also ask, ‘when was it written and why and what does that mean?'. The final essay must embrace a range of material, both historical (primary and secondary sources) and interdisciplinary."
Naturalmente, e seguindo os conselhos do próprio texto, há que o saber contextualizar no respectivo ambiente académico. Por cá, são ideias e práticas que não têm muitos seguidores.

escrito por António Valera, Outubro 07, 2008
O seu comentário não foge ao texto, porque o problema da contextualização não destingue objecto de observador. Colaca-se aos dois. Por isso me preocupo há tanto tempo com as condições de produção do conhecimento e com a sua interferência no discurso científico.
De facto o livro de Ingold que refere é uma das fontes inspiradoras da minha investigação actual nesta problemática, embora tenha aqui chegado por via das problemáticas cognitivas (que em parte trabalhei na minha tese de doutoramento). Para além de um outro livro de que é editor e que se chama "What's an animal", são particularmente interessantes os capítulos 4 e 7 do livro que cita, respectivamente "From trust to domination. An alternative history of human-animal relations" e "Totemism, animism and the depiction of animals". De facto,o Homem, em cada contexto histórico, age de acordo com as visões que tem do mundo e aquilo que hoje chamamos "registo arqueológico" depende (em parte claro) dessa mesma agência. É, pois, estranho que se pretenda entender os dados arqueológicos sem levar em consideração aspectos cognitivos, cosmológicos, identitários, etc. Há que ter em conta os modelos de racionalidade dos agentes históricos (que pena José Bajinha ter sido "despedido" da FLL na década de oitenta). Desque que se instituiu o pensamento simbólico (há quem defenda que tal apenas ocorre com o Homem Moderno), a maneira como o Homem se relaciona com os animais depende da maneira como o Homem concebe o mundo, se concebe a si próprio nesse mundo e, por oposição, como concebe os outros. A questão ontológica é pois central. Ora tudo parece indicar que o pensamento animista domina grande parte da nossa Pré-História. Terá mesmo mantido uma presença forte durante os primeiros passos do pensamento religioso (e, naturalemnte, prolonga-se ainda hoje, ainda que de forma mais vestigial). Refiro-me ao mundo ocidentalizado, claro. Ora num quadro essencialmente animista, onde imperam paridades ontológicas ou esquemas hierárquicos que nada têm a ver com uma superioridade ontológica do humano, fenómenos como a domesticação e a caça tem que ser abordados de maneiras que ultrapassem largamente a vertente económica e materialista da relação (como bem exemplicam os exemplos dos caçadores-recolectores do Ártico).
É por aí que quero trabalhar nos próximos tempos. Tenho a ambição de constituir um grupo de trabalho em Portugal sobre o assunto. Mas não parece ser fácil, pelo menos entre os arqueólogos (na comunicação que apresentei no Museu Nacional de Arqueologia sobre o assunto - resumo na secção Encontros ERA - estavam, salvo erro, sete pessoas).
escrito por Sara Cura, Outubro 07, 2008
Desculpe fugir à questão central deste post, mas o tema que o conduziu até ao texto que refere é do maior interesse e, seguindo a máxima «conversa puxa conversa», o post levou-me ao resumo da sua comunicação e, dentro deste, a seguinte passagem -
«o problema da relação Homem-Animal é muito mais que uma questão de subsistência e de gestão económica: é um problema cognitivo, de visão do mundo e de contingência histórica das concepções e descrições do humano» ? logo me levou a uma outra da obra Perceptions of the Environment de Tim Ingold.
Não resisto a transcrever:
«When pursuing a reindeer, there often comes a critical point when a particular animal becomes immediately aware of your presence. It then does a strange thing. Instead of running away it stands stock still, turns it head and stares you squarely in the face. Biologists have explained this behaviour as an adaptation to predation by wolves. When the reindeer stops, the pursuing wolf stops too, booth of them getting their breath back for the final, decisive phase of the episode when the deer turns to flight and the wolf rushes to overtake it. (?) But the deer?s tactic, that gives it such an advantage against wolves, renders it peculiarly vulnerable when encountering human hunters equipped with projectile weapons or even firearms. (?) Now the Cree people, native hunters of north-eastern Canada, Have a different explanation for why reindeer ? or caribou as they are called in North America - are so easy to kill. They say that the animal offers itself up, quite intentionally and in a spirit of good-will or even love towards the hunter. The bodily substance of the caribou is not taken, it is received.»
Uma racionalidade economicista moderna (nas suas palavras) aliada a uma sensibilidade moderna ocidental (como refere o próprio Tim Ingold mais à frente) dirá que esta é uma concepção útil para a desculpabilização do caçador que assim vê o seu recurso explorado. Um raciocínio linear e simplista. Ainda que digam que não há muito por onde «pegar» e chegar ao entendimento da relação humano ? animal na Pré-História num plano além dum funcionalismo e materialismo elementar, essa relação terá existido. Não a podemos ignorar, mesmo que não a possamos ver directamente. Nesta questão, como em muitas outras, urge descentrar visões e compreensões. E quando digo descentrar é porque entendo que essa é a melhor forma de contextualizar.
Talvez isso acontecesse mais vezes se os conselhos do texto fossem seguidos com mais frequência.
escrito por Luis Faria, Outubro 02, 2008


Infelizmente tal não ocorre só na arqueologia portuguesa (onde aliás há excelentes exemplos do contrário). Tão pouco me excluo de não o fazer aqui e ali, até porque tenho enquanto observadora um percurso de formação que em parte se construiu nessa perspectiva de pretenso rigor científico. Sublinho porém, por afinidades e filiações assumidas, que não foi a Arqueologia Processual a responsável por isso, pelo contrário. Mas isso é outra conversa. Por outro lado, estou entre os muitos ausentes na sua conferência. Ainda assim partilho as suas preocupações. Prestamos pouca atenção aos contextos que estudamos e ainda menos ao contexto em que nos inserimos enquanto estudamos. No que diz respeito ao estudo de comunidades caçadores-recolectores é frequente uma desadequação ontológica, que em parte talvez seja consequência de limitadas incursões pela antropologia.
Ou ainda de uma forte concentração no objecto em detrimento do indivíduo que o produziu. É como realizar um filme só com cenários, sem protagonistas.
Voltando à relação humano-animal, esta é determinante e central em qualquer trabalho sobre comunidades de caçadores-recolectores. Por outro lado, dificilmente se estudará o fenómeno da domesticação ignorando as relações entre humanos e animais que o precedem. Portanto a constituir um grupo de trabalho sobre o tema, é manifesto o meu interesse e disponibilidade em colaborar.
Sara Cura