0115 - Arqueologia e o "poder" de nomear
Posted by: valera in Untagged on
Out 11, 2008
De facto, em Arqueologia Pré-Histórica, e dada a distância (cronológica, histórica, cognitiva, linguística, etc.) e o carácter indirecto com que o observador lida com o observado (sim indirecta, porque o objectivo da Arqueologia, ao contrário que em tempos foi assumido, são as pessoas e não só as suas materialidades), fica bem patente o que é tentar perceber, interpretar e até explicar quando se está distante do objecto de análise e do seu contexto. Daí que, em momentos de algum exagero, alguns reclamem que falar do passado pré-histórico não é mais que falar do presente, tal esse passado pré-histórico nos é distante e de difícil acessibilidade.
Encurtar essa distância é, tão só, aperceber-mo-nos dela, adoptar uma atitude reflexiva e procurar controlar, ao máximo das nossas possibilidades (sempre limitadas), os subjectivismos, os preconceitos, sabendo que nunca poderão ser anulados na totalidade e que, em determinadas circunstâncias, até são fundamentais para nos aproximar ao objecto da nossa análise. Apesar disso, muitos não prestam atenção à distância e à necessidade de a encurtar.
Estas problemáticas colocam-se com muita frequência perante elementos da cultura material que nos são estranhos e, por vezes com maior aquidade, perante alguns daqueles que consideramos familiares.
Para evidenciar o problema é muito frequente lembrar o famoso quadro de Magritte "Isto não é um cachimbo". Para variar, deixo aqui outro recurso (onde a palavra toma o lugar da imagem):
"Terça-Feira
Estive a examinar a cascata. É o melhor do parque, penso. O novo ser chama-lhe "Catarata do Niagara" - porquê?, não compreendo. Diz que parece a Catarata do Niagara. Isso não é razão. É um mero devaneio e imbecilidade. Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo um dodo, diz que , logo que avista um, percebe-se que "parece um dodo". Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena, de qualquer maneira. Dodo! Parece-se tanto com um dodo como eu!"
(Mark Twain, Excertos dos diários de Adão e Eva.)


