0115 - Arqueologia e o "poder" de nomear

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

Tradicionalmente em Ciência, e muito concretamente em Ciências Sociais, considera-se que a distância é um requisito objectivador, da mesma forma que no dia a dia se pensa que a "frio" se vê melhor que a "quente" (quando apenas se vê diferente). A Arqueologia (e há muitos a trabalhar no sentido de tornar, ou manter, a Arqueologia uma ciência social - mas não está fácil) demonstra que não é bem assim.

De facto, em Arqueologia Pré-Histórica, e dada a distância (cronológica, histórica, cognitiva, linguística, etc.) e o carácter indirecto com que o observador lida com o observado (sim indirecta, porque o objectivo da Arqueologia, ao contrário que em tempos foi assumido, são as pessoas e não só as suas materialidades), fica bem patente o que é tentar perceber, interpretar e até explicar quando se está distante do objecto de análise e do seu contexto. Daí que, em momentos de algum exagero, alguns reclamem que falar do passado pré-histórico não é mais que falar do presente, tal esse passado pré-histórico nos é distante e de difícil acessibilidade.

Encurtar essa distância é, tão só, aperceber-mo-nos dela, adoptar uma atitude reflexiva e procurar controlar, ao máximo das nossas possibilidades (sempre limitadas), os subjectivismos, os preconceitos, sabendo que nunca poderão ser anulados na totalidade e que, em determinadas circunstâncias, até são fundamentais para nos aproximar ao objecto da nossa análise. Apesar disso, muitos não prestam atenção à distância e à necessidade de a encurtar.

Estas problemáticas colocam-se com muita frequência perante elementos da cultura material que nos são estranhos e, por vezes com maior aquidade, perante alguns daqueles que consideramos familiares.

Para evidenciar o problema é muito frequente lembrar o famoso quadro de Magritte "Isto não é um cachimbo". Para variar, deixo aqui  outro recurso (onde a palavra toma o lugar da imagem):

"Terça-Feira

Estive a examinar a cascata. É o melhor do parque, penso. O novo ser chama-lhe "Catarata do Niagara" - porquê?, não compreendo. Diz que parece a Catarata do Niagara. Isso não é razão. É um mero devaneio e imbecilidade. Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo um dodo, diz que , logo que avista um, percebe-se que "parece um dodo". Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena, de qualquer maneira. Dodo! Parece-se tanto com um dodo como eu!"

(Mark Twain, Excertos dos diários de Adão e Eva.)

Comentarios (2)Add Comment
...
escrito por Gabrielle , Setembro 21, 2010
Gostei um pokinho disso , meio xato mais tudo bem neh , valeu apena faze esse trabalho , aprendi muito.
...
escrito por Luis Faria, Novembro 09, 2008
Acho que a Antropologia Social encurta muito a distncia, esta cincia parece no existir para a Arqueologia portuguesa. Afinal no estudamos o Homem?

Escreva seu Comentario
smaller | bigger

busy