0117 - Era uma vez o património 8
Posted by: valera in Untagged on
Nov 03, 2008
Descobrir, conhecer, salvar...
A Arqueologia tem quase sempre associado o fascínio da descoberta. Em certos momentos, como o do processo de escavação de um esqueleto humano, pouco mais resta do que a pura concentração do arqueólogo na sua tarefa. Algo mais, talvez seja respeito.
Aqui, uma estrada está em construção no Telhal, perto de Sintra. Enquanto as obras avançam noutros locais, nas áreas a afectar do sítio arqueológico tudo é exposto, registado e interpretado. Depois de desmontadas todas essas realidades que o constituem, as obras podem avançar.
Trata-se de um importante sítio romano, totalmente desconhecido até hoje. A necrópole será islâmica. Parte dos contextos a afectar serão aterrados, mas de acordo com o parecer da tutela, apenas serão escavados os que sejam afectados por escavação de obra. O que vier a ser selado por aterro permanecerá, na generalidade, totalmente desconhecido.
Em casos como este o trabalho tem objectivos e fortes condicionantes; sendo intenso, o ritmo da equipa não pode abrandar, porque os compromissos são sérios. É necessário assumir decisões de forma rápida e compreender a lógica de formação dos contextos integrando-os, sempre que possível, nos problemas inerentes ao enquadramento cronológico e cultural específico. O que nem sempre é fácil porque as equipas podem não estar devidamente preparadas, desconhecendo alguns dos pressupostos teóricos que as condicionam e moldam ou estando pouco apetrechadas para compreender a razão de ser de determinadas realidades.
É fundamental motivar as equipas, estimulando o estudo, o diálogo e a troca de impressões em torno das opções tomadas, da evolução dos trabalhos e da forma como o sítio vai sendo construído a partir da sua escavação, devendo ser evitadas situações de puro trabalho mecanicista em que os arqueólogos mais não são do que escavadores e cumpridores de rotinas técnicas. Dado que uma escavação arqueológica é uma interpretação da realidade, o resultado final será proporcional ao saber da equipa.
Como sempre, compreender, pensar e conhecer ajuda a manter o fascínio da descoberta e o gozo de ser arqueólogo. Mas também a utilidade de o ser.
Miguel Lago (Novembro de 2008)

escrito por Luis Faria, Novembro 09, 2008

