0121 - Azeite caro

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

 No Alentejo, a rede de rega de Alqueva continua a revolucionar o conhecimento que temos da Pré e Proto História regional. Agora são contextos de fossas, com as mais variadas morfologias e conteúdos que aparecem um pouco por todo o lado, com cronologias do Neolítico ao Final da Idade do Bronze. Enterramentos em fossa, com deposições de animais associadas começam também a surgir, imitando situações peninsulares melhor conhecidas (como a da região de Madrid, por exemplo).

Enquanto ainda recentemente alguns falavam de Bronze do Sudoeste, a multiplicidade de soluções funerárias tem vindo a evidenciar o carácter datado de um conceito histórico-culturalista referente a uma "cultura arqueológica" cuja identidade material (essencialmente construída com determinado tipo de contextos funerários) se desvaneceu.

A "Revolução Empírica" continua. A Teórica está mais atrasada.

Mas a par destes projectos cujo impacte proporciona esta dinâmica revolucionária, outros há que são bem mais modestos e estarão sobretudo a provocar uma revolução silenciosa: a destruição sistemática de contextos deste género.

Refiro-me concretamente ao plantio de vastas áreas de olivais. Àreas de incalculáveis hectares, onde, face à realidade evidenciada pela vizinha rede de rega (tão vizinha que existe precisamente para alimentar estas propriedades), é impossível que estas (e outras) realidades arqueológicas não estejam presentes.

E, no entanto, não há estudos de impacte, não há acompanhamentos arqueológicos, não há minimizações. E que faz a tutela do património, organismo que no Estado tem a função de zelar pela salvaguarda do património?

O azeite já não está barato. Mas este vai sair imoralmente caro.

 

Fossa em corte na área abrangida por trabalhos de obtenção de terras de empréstimo para obras da rede de rega. Os trabalhos foram interrompidos, a obtenção de terra moudou-se para outro lado e a minimização está a ser realizada. Depois, tudo voltará a ser entulhado. E depois, talvez não muito depois, vem o olival. O sítio está lá, é conhecido, é importante, mas desconfio que o projecto de plantação vai em frente e nada será feito em termos de arqueologia.

Comentarios (1)Add Comment
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escrito por Miguel Lago, Dezembro 12, 2008
Trata-se de mais um exemplo de dois importantes factos da nossa Arqueologia e portanto da gestão do nosso Património:

1 - o desfazamento entre as universidades, as empresas de arqueologia e a tutela do património arqueológico; quem tenta remar contra a maré de uma Arqueologia meramente técnica são algumas (poucas) empresas como a ERA.

2 - o IGESPAR e as DRC não têm meios nem capacidade política para prosseguir uma verdadeiramente séria, justa e homogénea salvaguarda do Património Arqueológico. Por isso, a maioria do nosso território não está protegido de destruições. Mais uma vez parece que a política em vigor é a do "faz de conta". Como li recentemente, a ausência de política é em si mesmo uma política.

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