0122 - Arqueologia nas livrarias
Posted by: valera in Untagged on
Dez 15, 2008
É notável a ausência de bibliografia arqueológica nas livrarias em Portugal e muito concretamente em Lisboa. Para além da Livraria Portugal, onde ainda conseguimos encontrar uma prateleira inteira com livros e revistas de Arqueologia, o resto é um deserto.
É certo que, em Arqueologia, se publica pouco em Portugal. É ainda mais certo que se lê pouca Arqueologia, tanto pelos profissionais do ramo, cujo deficit de leitura é manifesto, quer pelo público em geral. Nesta última situação, talvez porque o que se publica é demasiado técnico e pouco destinado a uma divulgação generalista.
Parece, pois, não haver mercado editorial para a Arqueologia. E, no entanto, à partida todos diríamos que a disciplina teria potencial.
Acontece que, no que respeita ao mercado interno, se instalou uma prática e uma rotina em que os agentes pensam que os conhecimentos incorporados durante o trajecto académico são suficientes para com tudo lidar e tudo escavar, etc., etc., etc.. Por outro lado - e é preciso reconhecê-lo e afirmá-lo - a actual situação financeira que envolve a actividade arqueológica não cria condições favoráveis a práticas rotineiras de aquisição de bibliografia. Isto, contudo, não justifica na íntegra a "descontracção" com que , em iliteracia científica disciplinar, muitos se dedicam à profissão.
Quanto ao público generalista, diria que a Arqueologia portuguesa ainda não começou a produzir um discurso didáctico, generalista e gerador de curiosidade e prazer de leitura, como tem acontecidos com autores nacionais da área das ciências físicas e naturais. Existem algumas situações, mas são raras e não parecem ter conseguido atingir as fórmulas mais eficazes.
Estamos, pois, numa situação viciosa em que a ausência de mercado não estimula respostas disciplinares adequadas, ao mesmo tampo que uma falta de vocação da grande maioria dos arqueólogos para lidar com o público generalista também não contribui para a emergência desse mesmo interesse externo, com claros reflexos negativos no Retorno Social que a disciplina deve proporcionar e na consolidação da sua relevância social.
Também é certo que não devemos descurar o facto de que o mercado editorial está infestado por grande quantidade de produtos tóxicos que, devido à sua grande procura por parte do "Homem Massa", acaba por roubar espaço nas prateleiras a outras iniciativas editoriais, remetendo-as para nichos de diversidade ecológica, eles próprios com dificuldades de sobrevivência.
Deveremos, pois, entender a reduzida presença da Arqueologia nas livrarias como um espelho da importância concedida à Arqueologia pela sociedade portuguesa e, simultaneamente, da consideração que os arqueólogos revelam por essa mesma sociedade? Ou será tudo isto resultado de uma lógica de negócio, que não permite o aparecimento e ascensão de projectos editoriais que não vendam à partida milhares de exemplares? Se assim for, os pequenos livreiros prestam um serviço público inestimável e mereceriam a atenção das entidades que governam o país na área cultural. Infelizmente as mesmas que acabaram com as publicações científicas de arqueologia que detinham e encaixotam (sabe-se lá por quanto tempo) uma das mais importantes bibliotecas de arqueologia do país.
Naturalmente, esta debilidade da dinâmica editorial não pode deixar de ter profundas consequências atrofiantes e nefastas no desenvolvimento disciplinar e profissional da Arqueologia portuguesa. Mas também não é muito espectável que quem não costuma ler nem escrever (para além de curtos relatórios) se preocupe muito com o problema, que, em última instância, nem sequer existe. É pura irrealidade.
(Excerto de entrada publicada em http://irrealidadeprodigiosa.blogspot.com)


