0123 - Oportunidade perdida.

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Ontem assisti a uma comunicação sobre grutas artificiais ou semi-artificias da Pré-História Recente estremenha. A ideia principal que se procurou comunicar foi a de que muitas dessas construções foram feitas aproveitando as pré-existências naturais, como diáclases, níveis sedimentares mais brandos ou cavidades naturais, as quais conformaram e de algum modo atraíram a intenção humana de ali construir sepulcros. A observação, com sustentabilidade empírica (com ficou claro pela comunicação, embora proferida de forma... exótica), tem potencial para ser explorada em várias direcções. No entanto, lá seguimos a "única direcção" do costume:

no final designou-se este aproveitamento como uma "estratégia oportunista", no sentido de que se recorria a estas circunstâncias porque facilitavam e poupavam trabalho.

As versões do racionalismo economicista e da moderna teoria da inércia aplicadas de forma acrítica à Pré-História continuam a ter clientela. O que não é mau em termos de diversidade ecológica. 

Estive recentemente numa sessão do 3º Congresso Nacional de Geomorfologia onde se realizou uma sessão de "Arqueologia dos Espaços Naturais". A temática era, precisamente, abordar as formas como o "natural" (conceito já de si problemático em Pré-História) são enquadradas pelo cultural. Diria que 95% das comunicações evidenciaram a importância do pensamento simbólico para poder compreender essas formas de integração. Não deixa de ser estranho que, tratando de estruturas consensualmente impregnadas de simbolismo como são as estruturas funerárias, a resposta seja simples e estritamente "oportunista".

Fiquei com vontade de perguntar o que pensavam os comunicantes sobre a ideia que teriam os Pré-Históricos sobre as diáclases, as cavidades cársicas e a água que de lá sairia. Se essa estratégia era oportunista porque lhes poupava trabalho ou era oportunista porque nessas circunstâncias viam vias de acesso a um interior sagrado da terra, ou olhavam uma estratigrafia como metáfora de mundos sobrepostos, ou ....

Mas não perguntei, pois, paradoxalmente, também não me apeteceu perguntar. Não há relação humana com a natureza sem sentidos. Quando esses sentidos não são os da racionalidade moderna, terão que ser outros. Quando não conseguimos conceber ou tentar entender outros, restam-nos, de facto, os nossos. Aqueles que nos gerem, frequentemente de forma incosciente, a acção.

Comentarios (4)Add Comment
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escrito por A. Valera, Dezembro 22, 2008
Caro J. Freire.
Respondo ao seu longo comentário... com o seu comentário. Leu a minha crítica, não gostou e criticou-a. É assim mesmo que se deve estar em ciência. Não há problema nenhum no confroto de ideias (quando o confronto se restringe às ideias).
Quanto ao conteúdo da mesma (da sua crítica) diria:

a) Os comunicantes estão a tirar um mestrado e são arqueólogos há algum tempo. Aliás, conheço-os, pois até já escavaram comigo há vários anos, e tenho boa impressão deles, sobretudo do Pedro com quem na altura me relacionei mais. Mas isso não me impede de dizer que deveriam ir mais além, quer na forma quer no conteúdo. E dessa minha opinião não vem mal ao mundo, nem aos comunicantes. É uma mera opinião, que traduz a exigência que eu acho que se deve ter para com estudantes de pós-graduação. Aliás, você próprio explica em parte a comunicação como resultado da falta de exigência académica.

b)A crítica ao economicismo estrito é, em minha opinião, correctíssima, pois foi essa a roupagem de toda a interpretação e justificação apresentadas na comunicação (o título de "oportunismo" foi deles, não meu). E tudo é simbólico, até o mais estrito economicismo. A nossa relação cognitiva com um mundo é feita através de representações, ou seja de símbolos. E repare que eu afirmo que são "impreganadas de simbolismo", não lhes retirando, com isso, qualquer vertente funcional que possam assumir. É a exclusividade do economicismo na interpretação que é questionada (como se pode ler no final do respectivo parágrafo). Mas no fundo, parece-me que concorda com a crítica, apenas discordou que ela fosse feita, argumentando com uma inexperiência dos autores, a bondade do acto de se disporem a comunicar e a maldade que é o nosso sistema de ensino.

c) Quanto à bondade da comunicação, tudo bem. Mas não elimina, nem deve eliminar, a crítica, porque esta faz parte da actividade científica. Antes deve ser bem vinda, mesmo se lhe refutamos os termos.

d) Quanto a uma eventual inexperiência, diria que os alunos, sejam eles de que ciclo forem, nunca podem ser totalmente desresponsabilizados. A responsabilização dos docentes deve ser acompanhada de uma responsabilização dos discentes, nas proporções que caberão a cada um dos lados.Os alunos não devem ser meras mentes passivas para os professores nelas inscreverem o que entendem. Se estes nada inscrevem e não cumprem a sua função de professores (no que concordo que muitos não o fazem), cabe aos alunos ir mais além. Hoje isso está muito mais facilitado do que estava há vinte anos atrás. A ideia de que a culpa é essencialmente dos mestres não colhe (e não os estou a defender, mas apenas a exigir que se responsabilize quem partilha a responsabilidade - um ensino é um acto dialético).

d) Como disse, concordo em pleno com as críticas feitas a um número significativo de professores universitários e ao ambiente universitário (que não se resume aos primeiros). Contudo, discordo de que a crítica, em ambiente que se quer científico, deva recorrer a considerações do género "sábios", "iluminados", etc., como se esse desdém irónico fosse agumento para justificar o que é insuficiente ou demolidor da justeza de uma crítica (e note-se que não tenho a pretensão de que me tenha incluído nos epítetos). Até porque alguns, mesmo podendo ser maus professores (portanto não tendo autoridade moral), têm autoridade intelectual e científica para criticar. Teremos que saber separar a justeza da crítica da autoridade moral para a fazer. O que até nos pode desbloquer para apreender qualquer - porque se aprende sempre e eu aprendi durante a referida comunicação. Não quero com isto dizer que não exista mediocridade ou mediania na Universidade. Apenas que muitos, tendo comportamentos muito pouco pegagógicos, têm algo para ensinar se soubermos procurar ou ler.

e) finalmente diria que a afirmação de que mais vale pouco e mau do que nada é resignação e desculpabilização. Temos que exigir mais e melhor, não de uma forma irrealista que não atenda às circunstâncias, mas de uma forma firme. Essa exigência é necessária. É muito para além do assunto que estamos a discutir. Esse é um dos problemas do país.
Um dos problemas da nossa Arqueologia é a pouca exigência das reuniões ditas científicas. Tudo pode ser apresentado, porque tudo é melhor que nada. E o nível vai baixando. E quer se queira quer não, também se aprende por mimetismo e o exemplo de falta de exigência contribui para gerar uma sensação de despreocupação, de irresponsabilidade e de incosnciência. Algumas comunicações que vi, por exemplo, no último IV Encontro de Arqueologia do Sudoeste foram simplesmente deprimentes e reveladoras do estado a que se pode chegar quando não há uma exigência mínima. O problema da falta de exigência nas sociedades democráticas há muito que está diagnosticado (Ortega Y Gasset, para a Europa; Delfim Santos ou Eduardo Loureço para Portugal, são bons exemplos): uma confusão de exigência com autoritarismo e ataque às liberdades individuais, que degenerou na difusão da mediocridade, diga-se um dos principais perigos para a Democracia.

Termino dizendo que temos sobretudo que aprender a aceitar a crítica e a exigência como ferramentas estruturantes da aprendizagem, do crescimento intelectual e da produção de conhecimento científico e por isso fico bastante satisfeito com o seu post, quer pelo conteúdo, quer pela elevação.
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escrito por jfreire, Dezembro 20, 2008
Sobre as ditas ?oportunidades perdidas?

Eu também tive o privilégio de assistir a essa mesma comunicação. Não iria tão longe de catalogá-la como tal, talvez de um ponto de vista ?mais positivo?, apenas sublinhar que novas análises conceptuais na arqueologia portuguesa (letra pequenina de propósito, infelizmente!) são raras e muitas das vezes inerentes à ?fama?da personalidade que o faz.

Assim sendo, quando gente ?mais jovem? e ?menos prestigiada? (!) que certos ?senhores detentores de todo o saber? se expressam, mesmo parcamente, eu considero, que é de apoiar. No entanto, entendo que o panorama teórico é, em Portugal, quase inexistente e estando apenas relegado para as ?intensamente pan-académicas e algo pró-científicas? comunicações/publicações das ditas sumidades portuguesas.

Claro que se poderia/deveria ter sido mais ambicioso, colocando o provável pensamento pré-histórico na conjuntura de uma boa base cognitiva. Infelizmente, ao que parece, os comunicantes, não só não seguiram por esse caminho (algo espinhoso), como pactuaram quase integralmente com parte do título da comunicação. A menção de??arquitecturas? nesse título almejava mais um pouco de uma certa ?tradicionalidade portuguesa? do que quaisquer outros ensejos teóricos mais amplos, quiçá indispensáveis.

Claro que o uso dos nossos ?sentidos? e sobretudo, das nossas capacidades cognitivas bidimensionais, obstam quase sempre ao entendimento e alargamento das possíveis leituras das realidades de outrora. Onde a ?tridimensional idade? deveria ser o leit motif das existências. Por isso mesmo consideramos muitas das vezes os povos e as culturas antigas com a nossa própria e incompleta visão ?moderna?, esquecendo uma simplicidade algo arcaica mas inerente, de que os mitos ou as crenças existiam amiúde e em conjunto com todas as situações e vivências da vida; algo que aliás perdemos há bem pouco tempo.

Achei completamente ?mordaz? e profundamente injusto o comentário que refere as conclusões como baseadas ainda e sempre num certo ?racionalismo economicista / moderna teoria da inércia?. Não estará o seu autor a cometer o mesmo ?erro?, ao classificar os enterramentos das grutas artificiais/semi-artificiais como inerentemente simbólicos. Atenção, não digo que o não fossem, apenas que poderiam também ser realizados com a tal componente de bom uso das ferramentas e bom conhecimento dos materiais.

A culpa de tais resultados não é bem nossa mas, bem mais, de nossos mestres de antanho. Os tais que lêem de quando em vez essas belas e complexas obras de arqueologia teórica e que, consequentemente usam igualmente nos seus brilhantes e menos austeros textos. Falham e muito, no entanto, pela falta de divulgação e ensino próprio nas universidades nacionais; embora o façam, fazem-no não só muito pouco como e especialmente, com nenhum usufruto prático desses saberes ?divinos?.

A falta de interpretação constante no panorama científico da arqueologia nacional, prevê a existência sobremaneira mor, de dados e mais dados, sem ou com muito pouca análise das condições e vivências em questão. Tal facto também reside impresso na mentalidade abusiva do processualismo censório português. O tal que permite tão só aos ?sábios? tentar perceber tudo o que é retirado das escavações. Aos alunos aliás, bem cedo se aconselha, ou a simplesmente não comentar, ou a colocar uma breve interpretação, não muito longa ou mesma nada ciente ou original. A descrição parece algo retirada do positivismo do século XIX, onde teve o seu lugar e onde deveria estar sedeada.

Ou seja, quase nenhum estudante de arqueologia em Portugal consegue identificar meia dúzia de teorizações que sejam, ou outros tantos autores e especialistas do campo. Aprender Arqueologia é sinónimo de escavações e catalogações, algo necessário, mas também de uma constante falta de engenho na explanação das possibilidades interpretativas que a ciência em si comporta. Basta aliás reportar as publicações portuguesas de ensejo algo teórico, infelizmente muito poucas.

Dito isto, é claro que me teria também agradado mais que tal comunicação fosse ?elevada? com certas possibilidades extrapoladas das Teorias da Arqueologia mas, assim é que, entendo perfeitamente que ?quem nunca foi ensinado, a mais não é obrigado?. É necessário também entender que, tendo sido a 1ª exposição pública dos tais comunicantes, por certo se iniciaram (mesmo exoticamente) com as ?ferramentas? que possuíam. Por certo poderemos talvez esperar melhores resultados para as próximas e esperadas divulgações científicas.

O valor de tal comunicação encontra-se assim na tentativa, mesmo frugal, de outras leituras sobre o caso em questão. Simbologias à parte, é preciso também tentar expor algumas teorias pejadas de antiguidade. A definição das estruturas merece consequentemente que essas sejam também depreendidas pelo seu ?simples? aspecto arquitectónico. Talvez até depois de se entender bem o processo de construção, se possa então, conjecturar algo tão idealizado como o carácter sacral das mesmas.

A ver vamos. Cá ficamos à espera de (muito) mais, para uma próxima oportunidade. Porque sempre é melhor escrever ?pouco? ou até ? mal?, do que nada!

jfreire - FLUP
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escrito por Cláudia Manso, Dezembro 18, 2008
Decerto estará aqui em causa algo tão premente quanto a fundamental abordagem cognitiva na investigação arqueológica, mormente no que concerne o conceito de materialidade. Arrisco conjecturar que o próprio Julian Thomas iria achar interessante proceder à desconstrução de conceitos ainda cimentados entre os teóricos da arqueologia portuguesa. Infelizmente, o exotismo da exposição ainda inibe o risco da sua leitura...
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escrito por Miguel Lago, Dezembro 16, 2008
Fundamentar perspectivas alternativas e em direcções inovadoras é complicado porque implica estudo, reflexão e a malfadada teorização. É que se assim não for, tudo cai pela base. Face a eventuais ridicularizações, muitos optam pelo comodismo teórico ou a-teórico.

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