0125 - Era uma vez o património 9
Posted by: valera in Untagged on
Jan 20, 2009
Como foi abandonado o Torrão?
Vivenciar uma paisagem. Foi o que aconteceu, forma intensa e durante o Neolítico, na área em que se insere o Cabeço do Torrão, em Elvas.
Apesar das lacunas, o Megalitismo local é conhecido com algum detalhe, o mesmo não se podendo dizer de outros aspectos inerentes ao quotidiano das populações que ali viveram e ali construíram aqueles monumentos.
A descoberta do recinto megalítico do Torrão, no início dos anos noventa, foi apenas mais um acontecimento de uma sequência de milhares de anos: na cerca de um rebanho de ovelhas, durante alguns anos uma equipa de arqueólogos investigou, interpretou e reviveu um local, agora arqueológico.
A emergência do sítio como local arquitectado ocorre num território certamente carregado de significados e no qual os homens se enraizavam fortemente. Dois pequenos recintos, lado a lado; um definido por menires, outro, delimitado por uma vala, no interior do qual diversas fossas foram sendo escavadas. A meia encosta, uma pequena sepultura de cariz megalítico.
Dada a importância do conjunto monumental, o Cabeço do Torrão foi integrado no projecto do Circuitos Arqueológicos das Antas de Elvas, promovido pelo IPPAR. Rapidamente, este projecto entrou em colapso.
Foram investidas verbas muito avultadas: em escavações arqueológicas e produção de conhecimento e em acções de valorização que facilitassem a preservação do sítio e garantissem melhores condições de visita. O projecto assentava em percursos que, a partir do Castelo de Elvas e em viaturas todo-o-terreno percorriam vastas paisagens. O modelo, sensivelmente o mesmo aplicado no Parque do Côa, assentava numa gestão do IPPAR, incluindo as próprias visitas guiadas. Dez anos depois, pouco resta. Os jeeps estão parados (provavelmente avariados por falta de manutenção) e as visitas desactivadas. Como se nada fosse, no site do IGESPAR, tudo continua na mesma, assumindo o instituto uma perspectiva fantasmagórica do Património.
No terreno, tudo está degradado. A sinalética desapareceu, a vedação está degradada e as estruturas estão fortemente degradadas. A manutenção há muito que deixou de ser realizada. O único menir que se mantinha erguido foi tombado. Em suma, o Cabeço do Torrão está abandonado e esquecido.


Quando lá estive recentemente, nada fazia sentido. Porque estive envolvido na descoberta, investigação e valorização, senti que quase tudo fora em vão.
Sozinho, passeei pelas redondezas e a candura da paisagem aberta ao olhar não me deixou dúvidas porque, de súbito, tudo fez sentido. De facto, a natureza ocupou, rapidamente, o seu lugar e, em breve, tudo estará entregue ao sol, ao vento, à chuva e aos bichos. Desta nossa fugaz ocupação restará algum conhecimento.
Quanto à beleza de cortar a respiração, já regressou. Sinceramente, este é o verdadeiro Torrão.
Para quê valorizar?

Miguel Lago (Janeiro de 2009)

escrito por Luís Pinto, Janeiro 28, 2009
escrito por Luís Pinto, Janeiro 28, 2009
Lembro-me que havia dois Circuitos Arqueológicos às Antas de Elvas. Um dedicado às Antas nas proximidades do Guadiana e outro mais afastado desta linha de água principal. Também fiz questão de usufruir deste serviço que parecia promissor e até mais próximo da visão de património fruído in loco. Recordo-me também do agrado, pelos comentários dos visitantes deste género de iniciativa. Na última Anta que visitámos, em pleno por do sol, foi mesmo uma experiência sensitiva muito interessante para quem não tinha contacto frequente com estas realidades da nossa Pré-história.
Obviamente era necessária a cobrança deste serviço cultural, que diga-se era na altura um valor sensato. Segundo informações que obtive, o número de visitantes era considerável, na escala anual e para a nossa realidade. Economicamente falando e porque todos os projectos têm de ser viáveis, será que este dinheiro era suficiente para sustentar este plano de visitas? Se era, porque entra numa fase de colapso? Porque não era utilizado para a manutenção dos sítios que verdadeiramente são a condição primordial para haver este projecto do agora extinto IPPAR? A fusão deste Instituto com o ex-IPA teve implicações neste desfecho?
Respostas que tardam em aparecer. Toda a cultura da Cultura tem de ser rapidamente alterada. O Património é para ser usufruído, vivido. Ajuda a Economia de qualquer País. A lamentável ideia vendida que Património é igual a Despesa é uma equação sem qualquer fundamento. Investimento em conservação, linguagem adequada a cada tipo de público e até apostar na simbiose útil de outros eventos em espaços monumentais deveria ser aposta sem reservas. Sou mais adepto que investimento no Património pode e deve ser retorno. Termos sítios, monumentos, paisagens em semi-abandono é sinónimo de empobrecimento material, cognitivo e desperdício de recursos que não abundam por cá. Outro dia, ao ouvir um programa de rádio na TSF, Encontros com o Património, Carlos Fabião dizia que o caso de Lisboa turisticamente é mais visitado do que a região do Algarve. Devemos rejeitar certas inclinações que nos querem ciclicamente vender. A falsificação de dados é imoral. E o que Lisboa tem para oferecer aos turistas? Entre outros factores, Luz, Gastronomia, características peculiares dos bairros e Património.
Entretanto, o turismo tem de ser reinventado, tal como o funcionamento desta sociedade. Mas isso só acontecerá se todos estivermos interessados em resolver processos que agora, aparentemente, parecem estar em ruptura. A actual crise tem mostrado semana após semana que tem muito mais contornos estruturais do que conjunturais. Não reflectir, não discutir e não agir, assobiando para o lado à espera que tudo melhore é um acto irresponsável e pior, irreversível.

