0132 - Era uma vez o Património 14

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Património reproduzido

  

O Museu de Altamira integra uma réplica da gruta de Altamira.

Foi a solução encontrada para resolver o problema da impossibilidade de abrir ao público a mais famosa gruta do mundo com pinturas pré-históricas. Os debates em torno da reprodução das obras de arte têm uma longa história e a opção aqui assumida é um notável caso de necessidade ou de imperiosa vontade de aproximação ao real.

Desde a sua descoberta, nunca mais pararam as reproduções. A luta entre a preservação da autenticidade e recato de um lugar "sagrado" e a difusão da sua existência como algo de acessível para todos, foi-se  acentuando. A vitória da visita ao autêntico redundou no descontrolo e colocou em causa a sua integridade, obrigando a um repensar das estratégias do Poder relativamente ao acesso livre a Altamira. A democratização do acesso e o impacte económico desse processo são, desde há muito, motivos de debate e de mal-estar na comunidade científica e entre os decisores políticos. 

 

 

  

 Dos muito locais da Cantábria com arte pré-histórica é o único controlado pelo governo de Madrid. O poder central assumiu o controlo do "ícone" e moldou o museu a partir das suas necessidades de âmbito nacional, criando-se uma cisão em relação a todo o restante património que permaneceu sob controlo do governo regional.

Altamira é tão representativo do poder do Património, como do uso que o Poder faz do Património nas sociedades contemporâneas, cristalizando-se visões oficiais do passado em locais de aparato. Apesar das virtualidades que são patenteadas pela disponibilização de conhecimentos ao público, o Museu não marca a agenda da produção científica e tende para a estagnação. Assim, pela exposição, não vale a pena voltar regularmente; pelas actividades pedagógicas para crianças e jovens, encaradas de forma mais dinâmica, é possível que sim. Afinal, talvez o mais interessante seja mesmo a possibilidade de aceder, através da réplica, à emoção de olhar o que na realidade não pode ser visto.

A porta da verdadeira gruta está fechada há muitos anos. Na escuridão, não é possível olhar o original mas a noção do sítio permanece inalterada. Entretanto, continua a discussão: abrir ou não a gruta (o director do Museu pretende criar condições, muito rigorosas, que permitam a sua reabertura a visitantes)...

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2009

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