0142 - Era uma vez o património 20

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   Gestão de projectos: a Arqueologia no fio da navalha, ou como não se podem perder as oportunidades

 

 

 

 A ERA iniciou, recentemente, dois projectos de execução ambiciosa. São vastas operações de arqueologia, promovidas através de concursos públicos pela EDIA, no âmbito do processo de minimização de impactes sobre o património, decorrente de obras associadas ao Alqueva, nas regiões de Serpa e de Ferreira do Alentejo.

Os trabalhos de escavações arqueológicas, já em curso, resultam de vestígios relevantes identificados durante o acompanhamento arqueológico das obras, concretizado pelas equipas de diversos empreiteiros. Assim, em caso de detecção de sítios arqueológicos por essas equipas, a ERA, contratada directamente pela EDIA (dono de obra), coloca no terreno em prazos muito curtos (24h após a detecção, é o objectivo ideal) as equipas e equipamentos necessários à realização dos trabalhos inerentes ao total desbloquear de interrupções de frentes de obra.

Se as equipas de acompanhamento fizerem o seu trabalho de forma competente, a ERA poderá ter condições para desenvolver um trabalho de referência no contexto da Arqueologia portuguesa. De facto, para além da mera escavação, pretende-se que todas as intervenções a realizar promovam, numa perspectiva global, incrementos em processos de investigação científica e de produção de conhecimento.

 

 

Apesar da limitação dos meios, muito podemos fazer e muito iremos fazer. Com organização, com boa capacidade de gestão de recursos humanos, financeiros e técnicos, e com adequados conhecimentos de base, será possível atingir os objectivos. Para que os trabalhos a realizar sirvam para algo, tem que ser descartada uma perspectiva de trabalhos desgarrados, em benefício de uma visão de integração e de produção de sínteses que promovam incrementos no conhecimento do passado humano naquelas regiões.

De facto, de uma lógica de intervenções dispersas e sem programa que as interrelacione, urge passar a uma abordagem dinâmica que rentabilize as vastas "janelas" que as escavações abrem para tempos remotos. Estas oportunidades não podem ser desperdiçadas em termos de processos de investigação.

Ao longo de mais de uma dezena de anos de arqueologia profissional e comercial, acumularam-se em Portugal dados e mais dados, recolhidos de forma excessivamente acrítica e sem enquadramentos problematizantes. Nunca devemos esquecer que todos os trabalhos de Arqueologia são assentes em interpretações da realidade que nos chega do passado. Sem as perguntas adequadas, sem a preparação devida para questionar o terreno, que validade terão os projectos que diariamente são concretizados por este país fora?

Os projectos em curso para a EDIA, respondem a requisitos pouco comuns em Portugal e que remetem para a perspectiva que defendemos, de maior exigência, rigor e consequência. Infelizmente, estes casos são excepções em Portugal, antes de mais porque a tutela da Arqueologia tende para a aprovação acrítica de planos de trabalho, consumando licenciamentos a arqueólogos que concretizam projectos mal estruturados, sem fundamentação e, muitas vezes, sem as necessárias garantias de competência técnica e científicas para o seu cumprimento.

A nossa obrigação, apesar dos escassos meios e recursos, é clara: gerir de forma competente todos os processos de trabalho para cumprir os objectivos de minimização que passam pela produção de conhecimento. Contudo, tal só será possível através da adequada rentabilização dos recursos que, em Arqueologia, são um bem cada vez mais escasso.

Hoje, emersos num mercado mal regulado e feroz, temos que fazer com muito pouco, o que há alguns anos parecia impossível. Ou seja, um bom trabalho, que satisfaça o cliente, viabilize a empresa e motive colaboradores que sentem cumprir o seu dever. Mas não tenhamos ilusões...que viabilize a empresa!

 

 

Miguel Lago, Abril de 2009

Comentarios (2)Add Comment
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escrito por Miguel Lago, Abril 15, 2009
Não sendo um profundo conhecedor do Projecto de Bracara Augusta, que permitiu avanços relevantes no conhecimento do passado do território de Braga, parece-me que a sua consolidação assentou numa perspectiva auto constrangedora: trata-se da falta de pluralidade e do encerramento do projecto e dos que o protagonizam, numa realidade que tem excluído outras perspectivas teóricas, outros investigadores e outros instituições. Assim, as fontes arqueológicas são exclusivas do Projecto e dos seus protagonistas.
Historicamente, a sua génese talvez não pudesse ser diferente; contudo, hoje, é evidente um mal-estar que urge ultrapassar porque a correcta gestão dos processos de investigação não deve passar pela exclusão e acantonamento de investigadores. De certa forma, o que assegurou a preservação do Projecto é também o seu pecado original.
E se existissem vários projectos de investigação dedicados a Bracara Augusta, protagonizados por diferentes equipas e entidades? Em minha opinião, pluralidade não implica desvalorização ou desqualificação; com rigor no licenciamento e na avaliação de projectos propostos, penso que se poderia criar uma dinâmica ímpar na Arqueologia de Braga e ultrapassar receios de que muito se perca em termos de rigor e de qualidade.
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escrito por Francisco Lemos, Abril 07, 2009
Escreve Miguel Lago:
"Para que os trabalhos a realizar sirvam para algo, tem que ser descartada uma perspectiva de trabalhos desgarrados, em benefício de uma visão de integração e de produção de sínteses que promovam incrementos no conhecimento do passado humano naquelas regiões.
De facto, de uma lógica de intervenções dispersas e sem programa que as interrelacione, urge passar a uma abordagem dinâmica que rentabilize as vastas "janelas" que as escavações abrem para tempos remotos. Estas oportunidades não podem ser desperdiçadas em termos de processos de investigação."

Concordo. Este tem sido e é o objectivo do Projecto de Bracara Augusta.

"....porque a tutela da Arqueologia tende para a aprovação acrítica de planos de trabalho, consumando licenciamentos a arqueólogos que concretizam projectos mal estruturados, sem fundamentação e, muitas vezes, sem as necessárias garantias de competência técnica e científicas para o seu cumprimento."

Concordo. E acrescento: numa perspectiva do vasto projecto de obras públicas anunciadas para os próximos anos é fundamental que as verbas destinadas à Arqueologia sejam aplicadas de forma a que haja um retorno científico e social concreto.
A tutela já deveria ter organizado um grupo de trabalho para estabelecer as recomendações nesse sentido. Nesse grupo
deveriam estar representados os diversos "payers" como agora se diz.

Por exemplo se o corredor de alta velocidade entre Braga e Vigo, com os limites territoriais que foram aprovados em Conselho de Ministros for estudado como deve ser não só haverá trabalho para muitos arqueólogos como também o conhecimento sobre a Arqueologia do Minho dará um relevante passo em frente.

FSL



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