0143 - Ciência, arte e sociedade
Posted by: valera in Untagged on
Abr 14, 2009
O debate que o anterior post suscitou leva-me a colocar aqui uma parte de um texto publicado na revista Praxis Archeologica, intitulado "A divulgação do conhecimento em Arqueologia: reflexões em torno de fundamentos e experiências." Fica assim mais claro o meu pensamento e embora o texto seja relativo essencialmente à questão da divulgação, as suas ideias aplicam-se da mesma forma à questão da produção científica.
É um pouco longo para um blog, eu sei. Mas há coisas que exigem mais que meia dúzia de palavras.
"Ao longo do século XIX, a ciência adquiriu um estatuto de forma de conhecimento superior, de base simultaneamente empirista e racionalista. A crença na possibilidade de um conhecimento objectivo do mundo através da capacidade do cientista em se distanciar do seu contexto (e assim captar a realidade das coisas) gerou a ideia de que o conhecimento científico era algo que tinha que ser imune à sociedade, que as suas condições de produção tinham que ser "assépticas" relativamente a contaminantes do seu contexto físico, social, cultural, politico e ideológico. A Ciência, para se realizar, tinha que se "isolar" e o cientista transformou-se numa espécie de Xamã, ou seja, aquele que na sociedade tem as capacidades para viajar nesta espécie de além, de onde se consegue a perspectiva de olhar o mundo de fora. A separação entre a ciência e o seu contexto social não seria mais que uma manifestação dessa capacidade corporativa dos observadores (comunidade científica) se neutralizarem face à sua contingência, de se suspenderem no tempo e no espaço.
Esta percepção fez com que ao longo do século XX a Ciência construísse a sua idealização como corpo que se exteriorizou à sociedade, que se pretendeu a ela imune (fazendo dessa imunidade condição da sua realização) e com a qual apenas manteria laços na negociação das condições que assegurariam essa mesma autonomia e independência (Bourdieu, 2004). O comportamento do cientista sustentaria uma prática que se queria independente do contexto social, permitindo o estabelecimento de uma superioridade epistemológica (medida em termos de objectividade e verdade) e ética que, simultaneamente, validava e retirava validade dessa separação: a superioridade ético-epistemológica justificava a separação da ciência e retirava autoridade dessa mesma separação. Com base nessa autoridade foi progressivamente substituindo a fé na regulação da vida social, sendo hoje um conhecimento considerado privilegiado e superior, convocado para resolver os mais variados e quotidianos problemas das nossas vidas, para as quais se tornou imprescindível. Como refere Eduarda Gonçalves: "Nos países ocidentais de tradição liberal o ‘contrato social' da ciência com a sociedade e o estado assentou, até ao século XX, nos postulados de que o conhecimento científico constitui um bem público e de que o que é bom para a ciência é bom para a sociedade" (Gonçalves, 2000: 1). Por isso se tornou tão comum ver uns "cientistas" com o seu traje específico, a bata branca (que, para o grande público, mais que um traje de trabalho, é um símbolo de rigor, verdade, conhecimento e comportamento ético irrepreensível), a anunciar em comerciais televisivos todo o tipo de produtos, apresentados como cientificamente validados. A maior ou menor subtileza com que a publicidade recorre ao "critério científico" como factor diferenciador da qualidade do produto é um inequívoco sintoma do enraizamento da "religião científica". Creditado como detentor da Verdade, da capacidade de controlar a Natureza e de a por definitivamente ao serviço do progresso humano, o conhecimento científico passou a regular grande parte das nossas vidas e comportamentos.
Assim, a evolução sociológica da ciência não só condicionou a forma como o edifício administrativo da sua produção se foi organizando, como a forma como ela se viria a relacionar com o público. Um relacionamento frequentemente paradoxal: uma relação estrutural com um diálogo superficial.
De facto, o avanço da ciência assenta no desenvolvimento de linguagens próprias, de domínio restrito, cujos requisitos de rigor tornam a comunicação difícil e que o tradicional analfabetismo ou o moderno iletrismo agravam. Neste contexto de destacamento e de dificuldade de comunicação, a produção de conhecimento científico não desenvolveu a necessidade da sua divulgação à sociedade, reservando essa divulgação essencialmente ao interior das comunidades científicas, por vezes extensível a pequenas elites económica e culturalmente diferenciáveis, e frequentemente com um marcado pendor ideológico no que a algumas áreas científicas dizia respeito. De facto, no caso concreto da Arqueologia e até meados do século XX, muita da divulgação serviu desígnios políticos e ideológicos nacionalistas, os quais em parte sustentavam muita da actividade arqueológica. Por aqui facilmente se poderia descortinar o comprometimento social da ciência. Mas a evocação da sua "neutralidade" era fundamental para a autoridade da sua argumentação e para a instituição da sua forma "superior" de conhecer."
(...)
Voltando às bases epistemológicas do problema, relembro que a busca cientista da objectividade levou a que, durante muito tempo, a dimensão psicológica, emocional, da ciência fosse reprimida, com consequências no discurso científico de divulgação. O objectivismo cientista, que consagrou a separação entre o cientista e a sociedade, consagrou igualmente a separação de linguagens. A linguagem da ciência, séria e objectiva, era uma linguagem formal, de rigor conceptual inimputável, policialmente contida dentro das fronteiras do mais puro racionalismo e purismo conceptual. Na sua relação com o público a ciência não faria concessões. Seja na produção seja na divulgação, a ciência teria que se afastar da narrativa, da linguagem poética, da arte. Afastamento que mais não era que a tradução do pretenso distanciamento entre o cientista e a sociedade com vista à máxima objectividade.
Contudo, ao longo da história da ciência, a aproximação à arte e à narrativa foi sistematicamente ensaiada, revelando que, para desespero de alguns, os grandes cientistas se comportam frequentemente como artistas. De facto, o sucesso que a divulgação científica vem tendo nas últimas décadas tem muito a ver com o ultrapassar da perspectiva de uma ciência "descontextualizável" e passível de ser feita por verdadeiros "aliens". A concepção humanizada da produção científica facilitou a humanização do seu discurso de divulgação, com significativas consequências na sua capacidade de relacionamento com o grande público. Tem sido essa a evolução do discurso historiográfico:
"A uma "História Ciência", descrita como apresentando uma natureza analítica, demonstrativa e explicativa, com uma aspiração cientista à objectividade e apreensão da verdade, que se expressa por um discurso considerado seco e repetitivo, condicionado por princípios normativos inibidores, contrapõem-se uma História Narrativa (adjectivada de poética, contemplativa ou artística) que, liberta dos constrangimentos do cientismo, se preocupa com a criatividade e com a forma de comunicação, valorizando as dimensões interpretativas e subjectivas do conhecimento, aproximando-se, com maior ou menor prudência, da expressão metafórica e ficcional. Também aqui o momento da comunicação é considerado crucial para o regressar de um público (e com ele a efectivação de um prolongamento da memória), o qual teria sido afastado pelo hermetismo e cinzentismo do discurso científico." (Valera, 2004)
Devo mesmo acrescentar que a tendência não traduz apenas uma alteração de forma de comunicar, mas que também corresponde a um enriquecimento do próprio conteúdo, pois valorizando a interpretação num contexto de um enredo dramatizado, acrescenta ao pensamento lógico uma dimensão intuitiva e sensorial, permitindo atingir modalidades de conhecimento a que o pensamento racional se encontra paradigmaticamente fechado, ganhando novas potencialidades de captar o interesse do público e de comunicar de forma mais subliminar e eficaz.
Reconhecido o valor da narrativa nos próprios processos de produção de conhecimento e de comunicação inter pares, a sua reafirmação no capítulo da divulgação pública é a consequência natural. Os cientistas, como todos os grupos sócio-profissionais, estão inseridos num contexto competitivo e já perceberam que a sua existência e capacidade de actuação é correlativa da sua habilidade de cativar o público, isto é, de conseguir ter mercado, e que este requer formas e capacidades específicas de comunicação. O desafio é, pois, o de comunicar bem, de forma imaginativa, apelativa e criativa e simultaneamente rigorosa e pedagógica."

escrito por António Valera, Abril 30, 2009
escrito por Luis Faria, Abril 30, 2009
P.S.- apareçam no Blog Violência e Pré-História.
escrito por Miguel D. Almeida, Abril 30, 2009
É evidente que o "código" (leia-se linguagem) a utilizar na divulgação da Arqueologia "para fora" não pode ser o mesmo. Assim como o comum dos mortais não está, por exemplo, minimamente interessado em saber os nomes dos vários tipos de ânfora, também não me parece que faça sentido os artigos científicos hoje em dia começarem por "Era uma vez, na longíqua Idade da Pedra..." (ou fará?).
Resumindo: para cada situação é necessário utilizar a linguagem adequada. Não vamos querer correr o risco de, dentro de algum tempo, serem os arqueólogos a não saber escrever a palavra "Arqueologia", pois não?
Abraço, Luís
Há muito tempo que não tinhamos um bate-papo destes, hein?
escrito por Luis Faria, Abril 30, 2009
Só juntos é que teremos uma voz, isto nunca vai acontecer enquanto continuarmos a comunicar "em código".
Uma nota interessante, nos meus dez anos de campo tive que pedir muitas facturas, o número de pessoas que nem sabe escrever a palavra "Arqueologia" fala por si.
escrito por Miguel D. Almeida, Abril 30, 2009
escrito por Luis Faria, Abril 29, 2009
escrito por Miguel D. Almeida, Abril 28, 2009
escrito por António Valera, Abril 24, 2009
escrito por Luis Faria, Abril 18, 2009

