0150 - Era uma vez o património 24

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Povo dos subterrâneos

 

O conhecimento que hoje temos da pré-história do actual território português conheceu avanços extraordinários nos últimos vinte anos. A inventariação de sítios e a acumulação de dados resultantes de prospecções ou de escavações arqueológicas é impressionante. No entanto, apesar da(s) evolução(ões) teórica(s) e do sucesso de determinados projectos, é evidente que muito se tem perdido porque a esmagadora maioria dos resultados decorrem de intervenções desenquadradas de processos de investigação. E deles vão permanecendo à margem.

Um exemplo evidente deste tipo de casos relaciona-se com as "novidades" que nos últimos anos têm surgido relativamente a contextos arqueológicos inerentes a estruturas escavadas e que, consequentemente, assumiriam um carácter subterrâneo, parcial ou total. Se em termos de investigação, tudo começou em Campo Maior com as escavações do Cabeço do Cubo e de Santa Vitória, hoje, sobretudo a partir dos trabalhos ainda em curso no âmbito do Alqueva, já ninguém sabe quantos pontos existem no mapa. Estas realidades desconhecidas condicionaram durante algum tempo o olhar dos investigadores que não estavam preparado tais diferenças.

Este tipo de estruturas, que actualmente sabemos terem começado a ser criadas a partir do Neolítico um pouco por toda a Bacia do Mediterrâneo e Europa, enquadram variantes ao nível das vivências dos que as construíram, usaram ou delas usufruíram de alguma forma. Todas implicaram, no acto de construção, o conhecimento de uma série de técnicas específicas de forma a garantir a sua efectiva escavação, manutenção e preservação. Tais estruturas negativas enquadram-se em vastas e profundamente enraizadas tradições construtivas que, a partir de então, perduraram: a construção por adição, com pedra, terra, barro, madeira ou meterias vegetais e a construção por subtracção, resultante da escavação de terra ou rocha, de que são exemplo as valas, os fossos, determinados sepulcros, silos, cabanas e tantas outras realidades que ainda não entendemos.

Tais tradições construtivas assentaram em estruturas mentais próprias, implicando pensamento, manipulação do real, conhecimento profundo da natureza dos territórios, das matérias-primas e das tecnologias. A sua emergência ou consolidação ocorreu a partir de um momento histórico em que as comunidades humanas aceleraram a capacidade de manipulação e de transformação da natureza, domesticando-a e arquitectando-a, por exemplo, com monumentos megalíticos, hipogeus, recintos delimitados por fossos, muros, lombas ou paliçadas.

Temos certamente muito para conhecer e compreender; não creio, no entanto, que se deva estudar e interpretar a tradição das construções negativas de forma uniforme e estanque, como se de um fenómeno unitário se tratasse, desenquadrado dos contextos específicos, da natureza envolvente e das restantes técnicas construtivas disponíveis. Como hoje, também na Pré-história as ideias circularam e permitiram a difusão de conhecimentos, crenças e convicções. As construções implicam concepções prévias, materiais e técnicas; em conjunto são significantes e contam parte da história de cada comunidade. Daí que as crenças e convicções religiosas que suportaram o Megalitismo do Ocidente também sustentassem a tradição de tumulação em sepulcros escavados ou a delimitação por fossos de recintos cerimoniais. Que significam de factos estas diferentes arquitecturas de diferentes materiais e técnicas de construção?

É urgente integrar os novos dados em perspectivas de investigação seriamente ponderadas e sustentadas, sob pena de cairmos em caricaturas do tipo "povo do granito", "povo do calcário", "povo do barro" ou "povo dos subterrâneos", este último certamente o mais místico!

 
 

Miguel Lago, Abril de 2009

Comentarios (2)Add Comment
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escrito por Miguel Lago, Maio 07, 2009
Não esquecer o papel das universidades; quanto a mim, fazem muito pouco neste sistema. Tão pouco que até tendemos a esquecer que existem, o que é de lamentar mas é sintomático no que respeita ao seu desempenho. Cabe a elas, pela sua vocação natural, um papel progressista no condicionamento da construção à priori dos dados.
Felizmente, as lacunas reforçam a vontade de outras entidades e pessoas cumprirem esse papel (e lá volto eu a pensar na ERA...mas, não chega).
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escrito por António Valera, Maio 07, 2009
"A inventariação de sítios e a acumulação de dados resultantes de prospecções ou de escavações arqueológicas é impressionante"

É um facto, e disso tenho feito notícia. Mas atenção à qualidade que deve informar o termo "dados".

A "qualidade" destes dados depende da forma como são obtidos (obviamente quero dizer construídos), quer do ponto de vista das metodologias, dos métodos, dos enquadramentos teóricos, dos questionários e dos objectivos sociológicos vários (inerentes a qualquer acção social).

Quer isto dizer que a questão de colocar a integração dos "dados" a posteriori em projectos de investigação é sobretudo resultado de um constrangimento social, pois os questionários de investigação deveriam também condicionar a "construção" dos dados (isto é, a priori).

Sabemos, contudo, que a realidade social que envolve a Arqueologia de Salvamento é bem diferente. Pelo que o nível de qualidade do discurso científico produzido será necessariamente correlativo do nível, ou dos diversos níveis, que estiverem presentes na hora de "construir os dados". Por outras palavras, os dados dependem da viabilidade e autoridade da tutela, da boa vontade de promotores, da capacidade e viabilidade das empresas (e aqui, naturalmente, do interesse do mercado), da formação e do saber ou da ignorância dos arqueólogos, etc. etc. etc.
Ah! E também dependem daquilo que do passado (com todas as tafonomias) sobreviveu. Mas cada vez menos.




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