0155 - Planos de leitura tecnico-científica

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Um dos problemas que afecta o desempenho profissional de muitos arqueólogos é a falta de uma prática corrente de leituras de natureza técnico-científica. Tal insuficiência está plasmada no seu trabalho e na própria tranquilidade que evidenciam relativamente aos seus próprios níveis de desconhecimento e ignorância. Ou seja, o problema que sublinho, mais que a ausência de leitura, é a ausência de um sentimento de desejo e necessidade de leitura para o cabal desempenho profissional.

Sublinhei noutro sítio (aqui) que sendo um problema que não está a ser convenientemente atacado a montante, na área de formação de base, seria bom atacá-lo a jusante, em pleno espaço de prática profissional. E avancei com a ideia de desenvolver planos de leitura, organizados temática, espacial e/ou cronologicamente. Planos que fossem pensados em função de objectivos específicos, bem  estruturados e praticáveis em contextos de desempenho profissional.  

Esses planos devem, para além dos assuntos específicos que abordam, ter um objectivo comum: o consciencializar para o facto de que a profissão não pode ser desempenhada competentemente sem uma razoável dedicação à leitura técnico-científica da disciplina e respectivas áreas de intercepção disciplinar.

Hoje em dia, a produção de "literatura" técnico-científica é enorme e qualquer estratégia de actualização é sempre parcelar. Por outro lado, a explosão de compartimentações temáticas, vulgo especializações, obriga a um esforço de equilíbrios entre conhecimentos gerais relativos a vários compartimentos e um bom conhecimento especializado de alguns deles.

Significa isto que uma orientação das leituras é essencial. A existência de planos de leitura temáticos poderia ser uma boa ajuda, minimizando os efeitos de uma formação insuficiente e pouco exigente.

Mas o problema poderá estar precisamente aqui, na exigência. É que ela tem que surgir primeiro nos próprios para consigo prórprios.


Comentários (8)Add Comment
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escrito por Luis Faria, Maio 26, 2009
Eu espero ser sempre arqueólogo "de campo" e só escavar em "salvamento". Agora podes sempre fazer parte de uma (ou várias) de investigação, é uma questão de juniores e seniores. Trabalho de equipa é o caminho, acabou o tempo dos "grandes" arqueólogos a trabalharem sozinhos (ou às custas dos outros). Se as Universidades não apanharem o comboio ficam para trás. Isto já acontece em Portugal. As empresas de Arqueologia assumem funções, perante a sociedade, das Universidades.
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escrito por Miguel D. Almeida, Maio 26, 2009
Ok, o "sem teorizar" era uma provocaçãozinha, admito (eh eh). O que me parece é que a maioria daqueles a que tu chamas arqueólogos "de campo" só o são porque não tem meios de ser outra coisa. Não há nenhum (acho eu) que não gostasse de ter o seu próprio projecto de investigação e de tratar um parte desses dados que vão aparecendo todos os dias. Não me parece que essa função tenha de ser "monopólio" das universidades.

Já agora, quanto aos "planos de leitura temáticos", poderia ser uma boa ajuda a publicação aqui no site do NIA de listas de bibliografia de referência organizada por temas (quem sabe até pedindo a colaboração dos especialistas nas várias áreas). Sempre seria uma ajuda para a real dificuldade que existe em "saber o que ler". Mais do que isso, só talvez um programa de visitas ao domicilio para leituras de cabeceira antes de adormecer.
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escrito por Luis Faria, Maio 26, 2009
Uma escavação é sempre uma critica, feita com método e numa linguagem cientifica, para poder ser desmontada quando tivermos mais peças do puzzle. Nunca é acritica.
As empresas não têm capacidade para transformar em conhecimento toda a informação que acumulam. Os professores universitários não têm orçamento para escavar. Nem vejo a necessidade de escavar mais sitios enquanto não se assimila a informação que já temos.
As teorias que se produzem hoje nos meios acdémicos já foram ultrapassadas pelos novos dados que estão escondidos nos relatórios das escavações de "salvamento".
PS- A ERA Arqueologia é mais dinâmica, forma mais os seus arqueólogos, trabalha mais em equipa e produz mais conhecimento do que as Universidades por onde passei.
Quem está a perder uma oportunidade são as Universidades.
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escrito por Luis Faria, Maio 26, 2009
Almeida, a Arqueologia de "salvamento" está limitada à partida por uma série de condicionantes: o local da obra, os prazos, aquilo que encontras, a própria empresa (de Arqueologia) para quem trabalhas. Tu não tens um projecto à partida e nunca tens tempo para fazer aquilo que queres, fazes o que podes...é a aqui que entram os "teóricos". Depois de tantas conversas e horas de trabalho juntos achas mesmo que eu penso que alguém e cito: "cava e regista sem teorizar"?
É tudo uma questão de tempo, vontade e ....capacidade.
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escrito por Miguel D. Almeida, Maio 25, 2009
Luís, não queres explicar melhor o que entendes por arqueólogo de "campo" e arqueólogo "teórico"? É que, na minha maneira de ver, um arqueólogo que só "cava e regista" sem teorizar (pensar) o que faz é que é um arqueólogo "teórico" (ou seja, "na prática" não o é).
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escrito por A Valera, Maio 24, 2009
A relação entre as empresas de arqueologia e as universidades é um caminho importante. E, no que respeita à minha prática pessoal, fui dos primeiros, dos mais assíduos e dos mais comprometidos nesse caminho e no seu pensar crítico. E nesse pensar, sempre vi essa relação como uma parceria, não como uma divisão institucional do trabalho. Caminhar por aí, na minha modesta opinião,significaria um inadesejável aprofundamento da tecnocracia da arqueologia feita por empresas, onde estas escavam acrítica e "industrialmente" e onde as universidades "pensam".
Costuma, nestas alturas, falar-se de vocação das instituições. Mas eu gostaria de lembrar a vocação das pessoas. A exigência de uma universidade de qualidade não se pode ficar por uma universidade disponível para entrar em parcerias com o mundo empresarial. Se tal é importante e estratégico, tão ou mais importante é a a função formadora, potenciadora do intelecto crítico e criativo. Ora como todos esses potenciais "produtos de qualidade" não têm lugar na Universidade, nem se pode conceber que a Universidade forme essencialmente para a Universidade, fica claro que a saída dessas "produções" é a sociedade em geral e os respectivos mercados de trabalho em particular, que, aliás, reclamam por essa qualidade (certamente para dela fazerem uso) e onde as "produções", também certamente, deverão ter interesse em se desenvolver e crescer.
Por outro lado, não menos importante, as investigações não começam depois das observações e dos registos, começam antes.
Ou seja, sem dúvida que a virtude está no meio, no equilíbrio entre pragmatismo e idealismo. Mas temos de ter cuidado, para não pensar que o idealismo é (ou deve ser) propriedade exclusiva da Universidade e que o pragmatismo é (e deve ser) propriedade exclusiva das empresas.
Creio que a situação social global que vivemos evidencia precisamente isso.
Devemos, pois, manter o esforço para ser responsáveis (pessoas e instituições), enquanto procuramos chamar os outros às suas responsabilidades. E não tenhamos ilusões (nem idealistas nem pragmatistas): é a vida e a morte de muita coisa que está em jogo.
PS - Idealismo e pragmatismo é mais uma daquelas dicotomias que, a institucionalizar-se, só carrega prejuíso.
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escrito por Miguel Lago, Maio 23, 2009
Entre idealismo e pragmatismo estará a virtude, sobretudo porque a realidade não é fácil.
As lacunas da formação associadas aos problemas do controlo da profissão e do mercado implicam esforço individual mas, sobretudo, empenho colectivo e inter-institucional. Se pretendemos uma Arqueologia mais profunda, apenas o conseguiremos de forma mais ampla e consequente com uma aproximação das universidades ao que se passa nos projectos comerciais. Se nas empresas, ou em algumas, sinto que esse é um caminho olhado como evidente, nas universidades (enquanto instituições) não vejo nenhuma preocupação ou tendência nesse sentido. Como é possível que as universidades não estejam atentas à revolução empírica que ocorre, neste momento, no conhecimento da pré-história recente do sul de Portugal? O P.S. do Luís Faria é extremado mas, como todas as caricaturas, tem um fundo de verdade.
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escrito por Luis Faria, Maio 23, 2009
Algumas questões:
---Um arqueólogo está a escavar cetárias numa semana, tem que fazer o relatório, na semana seguinte está a escavar estruturas de combustão do Paleolítico. Onde encaixar as leituras? Que leituras? Que assimilação pode esperar dessas "interpertações"?
---Não será melhor uma divisão entre arqueólogo de "campo" e arqueólogo "teórico", mais trabalhos de equipa, recorrendo às universidades e aos especialistas?
O pouco tempo que sobra (e é sempre uma questão de investimento de tempo) não será melhor investido nas fontes locais (documentais e a falar com as pessoas da terra)e no próprio sitio? A "ver" o enquadramento do sitio para além dos m2 da escavação, a "ler" desenhos de sitios semelhantes, a comparar, a pensar os problemas. Resumindo a fazer o melhor "salvamento" ou "interpertação" possivel num "código" que possa ser entendido por outros mais tarde.

PS- As universidades não ensinam os alunos a pesquisar (onde e como), não ensinam a trabalhar em equipa, não ensinam a dinâmica de um projecto. Porquê? Porque não sabem e se sabem não querem partilhar, uma vergonha.

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