0157 - Estruturas portuárias na Avenida Ribeira das Naus

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Gravura de Lisboa a partir do Tejo, século XVII, ca. 1650, In  Biblioteca Nacional Digital.

 

Os trabalhos de movimentação de terras inerentes à execução da obra da EPAL PRR 57 DN 1000 Praça do Comércio - Corpo Santo têm vindo a ser acompanhados pela ERA desde o seu início em Fevereiro de 2009. A execução de tal tarefa tem implicado para além das acções de acompanhamento sistemático, uma disponibilidade permanente para a mobilização de equipas de reforço para registo específico e fotografia ortogonal georreferenciada, assim como a recorrente contrastação entre as realidades detectadas e a informação documental e iconográfica disponível. Nas linhas que se seguem apresenta-se uma breve súmula dos resultados preliminares de um trabalho em curso.

Relativamente ao espaço intervencionado, desde longo tempo, que existem registos nesta faixa costeira de uma intensa faina construtiva de embarcações, no entanto, será só no reinado de D. Manuel I, sobretudo a partir de 1501, que esta actividade se acentuou, passando a designar-se o local por Ribeira das Naus.

O Terramoto de 1755 faz jazer sob os escombros o supra referenciado complexo, cujos estaleiros, armazéns de pólvora, armas, aprovisionamento de géneros, se definem como um vector essencial na gesta marítima portuguesa.

Em 1759, iniciam-se os trabalhos de reconstrução do Arsenal da Marinha, designação oficialmente atribuída a partir de 1774, sob a responsabilidade de Eugénio dos Santos - executor e inspector de todas as reais obras de arquitectura da corte, arquitecto supranumerário das obras do Paço da Ribeira de Lisboa, arquitecto e medidor da Marinha.

De entre as realidades identificadas que ilustram a relação perene da capital com as actividades fluvio- marítimas, duas se destacam  pelo seu carácter robusto e monumental.

Assim ao longo dos trabalhos de abertura de vala na confluência entre o Largo do Corpo Santo e o Cais do Sodré foi identificada uma estrutura de contenção de margem, com orientação Norte-Sul e cujo paramento no sentido meridional sofre uma inflexão para poente.

 

 

Pormenor do paramento Oeste

 

A supra mencionada estrutura, composta por silhares em calcário de secção rectangular, apresentando cavidades e negativos para elementos de amarração, encontra-se em excelente estado de conservação.

A realidade detectada, de robustas dimensões, revelou-se incompatível com o sentido da conduta a instalar e, após parecer por parte do IGESPAR-IP, foi necessário proceder a alterações ao projecto inicial da EPAL, de forma a não afectar a estrutura portuária em questão.

 

 

Vista geral do topo da realidade supra - referenciada, são visíveis as marcas deixadas pela anterior instalação de infra-estruturas.

 

Já na confluência entre a Avenida Ribeira das Naus e a Praça do Comércio, foi detectada a existência de um talha-mar, cujo complexo era constituído por um paredão e um conjunto de três galerias, que se assumiam como um vector de protecção de margem, diminuindo a potência do fluxo e refluxo de rebentação da maré, e, por consequência a redução do efeito de desgaste e erosão fluvial.

 

 No sentido dos ponteiros do relógio, a partir do canto superior esquerdo - vista geral do interior da galeria sul, pormenor dos blocos calcários pertencentes ao paredão, levantamento volumétrico e arquitectónico da estrutura, silhar de separação entre galerias.

 

Durante o acompanhamento dos trabalhos de remoção de terras, foram identificadas outras realidades de cariz portuário e de relação com o rio - pontões, paredões, estacaria em madeira, lajeados, estruturas essas enquadradas cronologicamente entre a reconstrução do Arsenal da Marinha após o Terramoto de 1755 até ao seu encerramento definitivo em 1939, depois da sua transferência para o Alfeite, na outra margem do Tejo.

 

 

Supra - Lajeado a terminar em paredão de contenção de margem.

Infra - Pormenor de estacaria em madeira e registo gráfico.

 

Finalmente, de realçar a importância de uma estratégia de salvaguarda arqueológica para estes contextos de relação fluvio-marítima, num momento em que estão em curso diversos projectos de requalificação da frente ribeirinha que, necessariamente, deverão integrar a preservação e conhecimento destas realidades patrimoniais de inequívoca importância para a história de Lisboa e do país.

No caso do tipo de trabalhos arqueológicos a que agora se faz menção, torna-se manifesta a necessidade de uma articulação eficaz e permanente entre todas as entidades envolvidas no projecto (Equipa de Arqueologia, Dono de Obra, Entidades Tutelares, Entidades Municipais). Tal articulação implica forçosamente a antecipação de cenários de impasse e tomada de decisão susceptíveis de, por motivos de carácter patrimonial, conduzir a alterações do que foi projectado e respectivos ritmos de execução. O envolvimento institucional e a indispensável clareza na circulação de informação técnica entre os diversos intervenientes são o garante da preservação efectiva de um recurso finito, insubstituível e pertença de todos: o património cultural.

 

Rui Carvalho do Nascimento

Alexandre Sarrazola


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