0163 - Revolução empírica
Posted by: valera in Untagged on
Jul 07, 2009
Tenho falado e escrito bastante sobre a revolução empírica em curso na Pré-História Recente do Sudoeste Peninsular. Os projectos decorrentes da minimização das redes de rega de Alqueva, tendo a EDIA, S.A como promotor, são dos que mais têm contribuído para essas novas "paisagens arqueológicas" em construção.
Um exemplo, que acabei de visitar, é o do sítio do Outeiro Alto 2 em Brinches (Serpa) , em escavação por uma equipa da ERA dirigida no campo por Víctor Filipe e coordenada por Sandra Brazuna.
Trata-se de uma conjunto de fossas e hipogeus concentrados numa pequena área (cerca de 40 estruturas negativas).
Víctor Filipe e o plano das fossas, bem concentradas.

Vista geral da escavação
Este tipo de contextos, que têm surgido em abundância nos últimos tempos no distrito de Beja (e também no de Évora) eram pouco frequentes em território português, embora frequentes e conhecidos desde há muito no vizinho território espanhol. A tardia descoberta da sua real expressão arqueológica deve-se, em grande medida, à natureza pouco expressiva e de difícil detecção destas realidades arqueológicas, só passíveis de serem reconhecidas no âmbito destes empreendimentos de modernização de infraestruturas (o que nos diz bem do seu real impacto positivo no desenvolvimento do conhecimento, apesar do implícito impacto negativo que sempre acarretam).
No caso do OC2, existem inúmeras fossas (muitas só com sedimentos e praticamente sem materiais), mas também pequenos hipogeus funerários.

Hipogeu, com poço de entrada e câmara funerária (em priemeiro plano, amostragem para datação de luminescência; em segundo, antropóloga escavando restos osteológicos na câmara).
É ainda prematuro avançar grandes informações sobre este contexto. Talvez apenas que nos dois hipogeus aparecem lâminas de sílex que, associadas a uma ausência quase total de cerâmicas até ao momento, faz lembrar a necrópole de Hipogeus da Sobeira de Cima (ali perto, na extremidade norte do concelho da Vidigueira), a qual vai progressivamente deixando de estar sozinha e surgindo enquadrada por uma realidade funerária que se vem delineando a sul da Serra de Portel e que estruturalmente se contrapõe à grande mancha megalítica que se localiza a norte daquela linha de relevo que separa a peneplanície de Beja da de Évora. Uma fronteira de tradições arquitectónicas funerárias, sem dúvida. Resta saber a que outros níveis do fenómenos social global se estende esse contraste.

Aspecto de um trabalho difícil.
Para garantir a possibilidade de uma referenciação cronológica de um conjunto de fossas, entre as quais várias sem materiais nos seus enchimentos, estão a ser recolhidas amostras para permitir posteriores datações por B-OSL.
Local de amostragem em mediação de radiação.
Há toda uma nova Pré-História a reescrever sobre o Sudoeste Peninsular. Assim tenhamos as condições e as capacidades para o fazer.
António Carlos Valera



Mas, como delimitar o seu topo quando as diferenças entre o contexto em que foram escavadas originalmente e as terras que hoje as preenchem são muito ténues. Na maioria dos casos, a distinção quase não se consegue perceber, confundindo-se a base em que foram escavadas e os sedimentos que as preenchem. Nesses casos (esmagadora maioria), apenas uma adequada, minuciosa e exaustiva limpeza do terreno pode denunciar estruturas ocultas. Este é um problema que, não sendo resolvido, pode condicionar a leitura dos sítios, inviabilizar a percepção da sua estruturação e permitir a pura e simples destruição de contextos arqueológicos relevantes. Mas não só. Do ponto de vista de obras em curso, a não detecção de contextos por impossibilidade de ler o terreno pode trazer atrasos porque, retomada a obra, pode a equipa de acompanhamento arqueológico identificar novas realidades, retornando ao local a equipa de escavações.
Assim, a solução para eventuais prejuízos e atrasos indesejados no evoluir das obras está na correcta abordagem arqueológica aos sítios.