0176 - Arqueologia de Lisboa

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Estruturas de condução hidráulica detectadas em trabalhos da EPAL (Ajuda, Lisboa)

  

A Era tem vindo a acompanhar, desde Outubro de 2008, os trabalhos de abertura de vala no âmbito do Projecto de Renovação de Rede da EPAL 70.02 na Ajuda e em Belém. Estas acções enquadram-se numa perspectiva de minimização de impactes sobre eventuais vestígios e contextos patrimoniais a serem afectados pelas intervenções em curso, sendo que as linhas que se seguem dizem respeito à detecção, em Março de 2009, de um curioso conjunto estrutural na Rua Coronel Pereira da Silva (Ajuda). Esta rua corresponde a uma transversal oriental da Calçada da Ajuda, encontrando-se entre a Rua Bica do Marquês e a Travessa da Boa Hora.

 

Para um brevíssimo enquadramento histórico, refira-se que a abertura da Calçada da Ajuda é posterior ao Terramoto de 1755. Esta extensa artéria, com cerca de 1Km de comprimento, fazia a ligação entre o Alto da Ajuda e o lugar de Belém, permitindo, também, vencer a passagem da "Ribeira dos Gafos". Antes de 1755 a zona apresentava um povoamento disperso, caracterizando-se pela presença de campos de cultivo (trigo, pomares, oliveiras). A intensificação da construção ocorreu sobretudo a partir de 1726, e mais expressivamente desde a edificação do Palácio da Ajuda em finais do séc. XVIII. Significativa é também a implantação no local de numerosos quartéis.

 

   Figura 1 - aspecto geral da estrutura de condução hidráulica

 

Entre os números de porta 40 e 44 da Rua Coronel Pereira da Silva foi detectada uma estrutura ao longo de um segmento de cerca de 18m de comprimento, superficialmente afectada pela anterior colocação de infraestruturas de electricidade e saneamento.

 

Este conjunto foi objecto de desmonte parcial após a realização de registo. Trata-se de uma construção sólida, de orientação NE/SO, e que corresponderá àquilo que pode ter sido uma estrutura de condução hidráulica (pequeno troço de aqueduto ou levada de água). Um maciço (cerca de 0,56 m de altura) constituído por alvenaria de grandes blocos de calcário sobrepunha-se a uma base construída em alvenaria de tijolos de burro, que encerrava uma "tubagem" cerâmica. Todo este conjunto foi construído directamente sobre o afloramento calcário. Fronteiro ao edifício nº 40 observou-se, em corte, uma caixa de visita, construída solidariamente com o maciço e que se encontrava forrada com lajes de calcário, apresentado no centro um tanque para onde convergia a canalização de cerâmica. Note-se que o sedimento de enchimento da caixa de visita apresentava materiais muito heterogéneos (fragmentos de faiança, vidros, latas de conserva e tijolo industrial, integrados em depósitos de entulhamento), abarcando um espectro cronológico compreendido entre os séculos XVIII e XX.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figuras 2, 3 e 4 - Fases do processo de detecção da caixa de visita

 

As características deposicionais dos materiais registados não permitem uma datação fiável da realidade estrutural detectada Porém, é possível que tenhamos identificado o resto de um segmento de aqueduto de meados séc. XVIII - altura em que se intensifica a construção nesta área da Ajuda (sendo conhecido um troço de aqueduto na Travessa da Memória ou do Buraco, nas imediações do Palácio da Ajuda). Hipótese mais remota conduziria a uma associação entre a estrutura detectada na Rua Coronel Pereira da Silva e o encanamento da "Ribeira dos Gafos".

 

Marta Lacasta Macedo

António Neves Carneiro

Alexandre Sarrazola

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