0188 - Vasos comunicantes
Posted by: valera in Untagged on
Dez 05, 2009
A propósito da temática da abordagem cultural à "alimentação" em Pré-História Recente, Mike Parker Pearson, escrevia, em 2003, sobre a necessidade de uma sinergia "to further integrate the "two cultures" - theoretical /humanistic and technical/scientific - which still divide archaeology both practically and institutionally".
Esta divisão, mais não traduz a manutenção de uma compartimentação na organização administrativa da produção de conhecimento com raízes medievais. Por várias vezes já sublinhei que o que a ciência produz, o seu tipo de conhecimento (olhem que há outras formas de conhecer), não resulta só daquilo que estuda, dos conceitos e modelos que utiliza e dos métodos a que recorre para estudar, mas também da maneira como se estrutura e organiza. Ou seja, da forma como se compartimenta em disciplinas, da forma como agrupa umas nuns edifícios e outras noutros, na forma como financia umas e outras, na forma como organiza a reprodução da sua própria matéria humana, das instituições que a praticam, etc. (Há um longo texto na secção de Publicações / Citações, sobre o assunto).
Ora uma das razões (não seguramente a única) do fosso entre as duas culturas a que Pearson se refere é precisamente a forma como administrativamente as disciplinas se agrupam e se formam as relações de vizinhança.
Hoje, em vários países, tem-se procurado ultrapassar os malefícios destas compartimentações e destes "gulags" disciplinares, através de uma organização não disciplinar mas temática: juntam-se pessoas de distintas origens disciplinares para tratarem um problema, um grande tema. Mas não se juntam para uma reunião. Juntam-se administrativamente, na organização institucional. Os resultados são maior transdisciplinaridade.
Em Portugal, contudo, isso seria pouco viável, pois impera a compartimentação: nas instituições e nas mentes. O caso da Arqueologia é evidente. De um lado critica-se quem procura ligar uma investigação sobre o Homem (e o Homem é o assunto da Arqueologia) às ciências sociais: esses ratos de biblioteca, sempre a filosofar e a especular. A Arqueologia torna-se menos científica dizem. Do outro, a crítica aos que pretendem fazer do Arqueólogo um rato de laboratório, que nas suas sortidas de campo mais parece um agente do CSI e que pensa que o Homem apenas se conhece na lamela de um microscópio. Claro que há uma terceira categoria, talvez até maioritária, mas essa não é evocada na equação de Parker Pearson e por isso a deixo de lado.
De um lado pensa-se que se pode falar de ritual, de símbolo, de hierarquia, de arquitectura, de morte, de lixo, de caça, de paisagem, de interacção, de identidade, ou até de periodização, sem passar os olhos sequer por um livro de antropologia, de sociologia, de psicologia social ou filosofia. Do outro pensa-se que se pode falar daquilo tudo sem prestar grande atenção às tafonomias, às dinâmicas geomorfológicas, à natureza dos materiais, à correcta determinação da sua origem, à as tecnologias através dos quais foram trabalhados, ao rigor da construção dos dados empíricos (mesmo quando estes já são percebidos como não absolutamente objectivos).
É fácil, ou deveria ser, perceber a ingenuidade da dicotomia e parece quase tempo perdido argumentar sobre a necessidade de a ultrapassar. É mesmo estranho que o problema se continue a colocar, o que só pode ser explicado pelo facto de essas duas vertentes do pensamento/actividade em Arqueologia (chamemos-lhes assim) não serem duas, mas três, esquecendo-se muito frequentemente essa terceira: a gnoseologia e a epistemologia, ou seja a teoria do conhecimento em geral (não confundir com qualquer pretensão a uma teoria geral do conhecimento) e a teoria do conhecimento em ciência. Fossem estas mais estudadas pela Arqueologia Portuguesa e mais facilmente aquela dicotomia seria ultrapassada.
É estranho que quem se quer dedicar a produzir conhecimento, não se preocupe com o debate sobre o que é conhecer e como se produz conhecimento. É como produzir chouriços sem se preocupar em ter uma ideia sobre o que é um chouriço.
Pensar o que é conhecer, pensar o que é conhecer cientificamente, pensar o que é conhecer na disciplina Arqueologia deveria ser trajecto percorrido, mesmo que de forma não muito profunda, por quem reclama que faz ou quer fazer ciência em Arqueologia (ou em qualquer outro campo disciplinar).
Perceber-se-ia, talvez com mais facilidade, o problema da dupla hermenêutica quando se estuda o Homem; problema que não é duplo, mas mono, quando se estudo o objecto em si. E que as Arqueometrias ou as ditas Arqueociências lidam essencialmente com o segundo e a Arqueologia, enquanto Ciência Social, lida essencialmente com o primeiro. Mas que a dicotomia não é mais que dualidade. Perceber-se-ia, finalmente, que a especialização, sem uma preocupação de manter a ligação ao global, dá origem ao especialista ignorante.
Quanto à tendência que, neste país, irá engordar e à que irá emagrecer, estou em crer que é uma questão dos que conseguirem aceder e controlar o poder. Porque a produção de conhecimento científico é também, e muito, uma questão de poder. Por mais que os cientistas se pretendam "isentos", imaculadamente sérios, extraídos ao seu mundo e às virtudes e defeitos do comum dos mortais, estarão aí sempre os "climategates" para lhes lembrar que não é assim. Algo que muitas filosofias há muito ensinam e as práticas também.
Por mim, estaria interessado em criar um grupo que se interessasse por estudar o problema da Ontologia na Pré-História Recente. Um problema vasto, pois engloba a visão que o Homem tem do mundo, de si próprio, das outras entidades (animais, objectos, elementos da paisagem, etc.) e central para se tentar compreender o que fez e como fez. Este seria um assunto que Childe consideraria para além das possibilidades da Arqueologia, opinião que muitos ditos arqueocientistas perfilham (embora, sem considerarem o problema, estejam constantemente a falar do que o homem pensava e entendia). Mas muitos têm demonstrado ser um campo possível para a disciplina. Mas para uma disciplina que ultrapasse essa paralisante dicotomia. Pois uma abordagem científica a esta temática só poderá ser disciplinarmente inclusiva, permitindo ultrapassar os excessos especulativos e os excessos tecnocratas e de senso comum. Quem se mostrar interessado que o diga.

escrito por marcos, Dezembro 18, 2009
Considero à partida que a relação que mantemos com o passado é a mesma que mantemos com o futuro, ou seja, este é tao incerto como o outro. Um tal como outro são baseam-se em prespectivas presente e dependem de condicionalismos também eles ligados ao presente.
Porém de uma coisa creio que podemos ter a certeza as cadeias mentais de pensamento humanas mantem-se inalteráveis ao longo do tempo,. Tomemos como exemplo o exemplo da criação de um instrumento. Existe uma cadeia pré operatoria mental (que implica ver por exemplo num pedaço de barro uma malga em potencia) uma operatória (processo de fabrico) e uma pos operatoria (apos a fabricação do objecto com a sua funcionalidade intrinseca decora ? lo por exemplo). E se tal é valido na pré historia também o é actualmente (imaginemos por exemplo os admiradores do tunning construtivo (pensam constroem o veiculo e depois decoram no na sua perferencia).
Bem á partida poderás dizer mas por exemplo nas cadeias pós operatias pode se revelar uma forma diferente de encarar o mundo (de facto as decorações das malgas e dos carros veria ao longo do tempo). Porém o processo mental que está por base disso é mesmo.
Antonio obviamente que não tenho bases cientificas para discutir contigo um problema tao vasto por isso agradecia que se pudesses me arranjasses alguma da bibliografia (se tiveres em formato digital podes enviarme por email), até porque tudo o que disse aqui é com base em ?fellings? sem base alguma.
Relativamente À imposição da orientação do debate, desculpa ainda sao os tiques do debate dirigido pelo secretariado do comite central... sao coisas que ficam e depois um gajo não se consegue libertar delas.
escrito por António Valera, Dezembro 17, 2009
Não sou dos que partinham uma visão essencialista da humanidade, isto é, de que existe um âmago inalterável que define o homem através do tempo e do espaço. Penso que ser humano em épocas e espaços diferentes pode, por vezes, ser muito diferente. E é por isso que digo que estudar a ontologia dos outros é, simultaneamente, estudar a nossa: porque nos compreendemos e nos descobrimos no confronto com o outro, com o diferente.
Penso que ser humano no Neolítico seria muito diferente de ser humano hoje, e referimo-me, não às tecnologias e ao conhecimento, o que seria óbvio, mas às cosmologias e às próprias versões de funcionamento da mente (as ciências cognitivas são aqui essenciais, deveriam ser mais estudadas e conhecidas na Arqueologia portuguesa - são-no na inglesa e americana, por exemplo - e há muita bibliografia traduzida para português que seria extremamente últil para abordar as questões do pensamento, do seu processamento e da sua diversidade contextual histórica).
Mas também não alinho com aqueles que dizem que o passado nos é inacessível e que quando falamos dele estamos tão só a falar sobre nós próprios. Lembro o que disse: mantemos uma relação com o passado. Um passado diferente, mas uma relação, o que por si só implica a existência de duas partes em diálogo, contribuindo ambas para esse diálogo. Neste contexto, as teorias da tradição, desenvolvidas por exemplo por Gadamer (cuja filosofia recomendo para esta questão), e as virtudes que ainda podemos reconhecer nas abordagens estruturalistas, revelam-nos essas pontes, que de certa forma vão ao encontro do que dizes (ainda que o exprimas de forma exageradamente "ahistórica", como que a enraízares directamente no passado coisas muito presentes). Esses enraízamentos directos são problemáticos e frequentemente perigosos. Mas, como diz Gadamer, é o que em nós existe de passado que nos facilita e possibilita a veleidade de o tentar entender.
Quanto à orientação que queres dar aos teus comentários, é contigo. Aqui não se impõem orientações e um debate pode ir de um lado para o outro sem problema (o que só demonstrará como tudo se articula com tudo).
escrito por marcos, Dezembro 15, 2009
Acho que as vezes tendemos a considerar o homem passado, e porque é passado, como um ser um pouco mais limitado cognitivamente que o ser de hoje. Naturalente que existe todo um saber acumulado ad milenium porém esse saber na minha opiniao apenas provocou alterações no sistema tecnológico das populações.
Será que politicamente as pop. neolíticas assumiam tendências tao distintas das actuais? Não me esquecerei nunca de uma conversa que tive com a minha mãe ha mais de dez anos qd ainda estudava no secundario e lhe perguntei se antes do 25 de abril ela se sentia repremida. Ela respondeu que existia uma aparente liberdade.Os sistemas politicos todos eles ditadura (esquerda ou direita) democracia monarquia ou oligarquia no fundo no fundo não são todos a mesma coisa? Sera que o democrata socrates ou o democrata durao, ou o ditador x ou o ditador y não pretendem todos eles apenas o controlo da população em geral conferindo lhes liberdade virtual tendo em vista o bem comum mantendo as instuituições e as activadades de produção em movimento? E no Neolítico os fundamentos nao seriam também esses?
Falei aqui de politica mas podia ter abordado aqui outro qualquer vector porem não querendo o risco de não estar a ir ao encontro daquilo que pretendes com este post fico por aqui... se sim amanha continuo
abraços
escrito por António Valera, Dezembro 15, 2009
Naturalmente tudo é subjectivo, ou, se se preferir, tudo é relativo (excepto esta afirmação, que parece ser um absoluto). Até na Física.
Nas Ciências Sociais (onde arrumo a Arqueologia), por causa da tal dupla hermenêutica, o problema é "apenas" mais agudo.
Ninguém pode, pois, pretender "eliminar o sujeito" que conhece. Essa era a crença positivista de Augusto Comte e que ainda anda por aí (a crença, não o Augusto). Hoje está assumido (cientificamente demonstrado, diga-se) que o conhecimento objectivamente absoluto é uma impossibilidade humana, pois não se consegue anular na totalidade o contexto de observação, mesmo, repito, no âmbito das ditas ciências "duras". A Objectividade hoje é relativa, ou seja, é uma objectividade controlada pela nossa própria análise crítica das condições de produção de conhecimento (o chamado pensamento reflexivo).
Assim, procurar abordar a problemática da ontologia humana é um assunto difícil. Mas é também um assunto essencial, se queremos trabalhar em ciências humanas. Dificuldade não pode ser confundida com impossibilidade e deverá ser mais estímulo que entrave.
Como posso tentar compreender e mesmo explicar as acções humanas sem ter em conta a racionalidade que o homem faz do mundo? Das opções que vislumbra e da valorização que lhes atribui? E como entender essas visões do mundo e as organizações ideológicas que nelas se baseiam, sem procurar entender o estatuto que o Homem atribui a si próprio nesse mundo e, por correlação, atribui às outras coisas? É que a noção de humanidade é histórica, isto é, muda no tempo e no espaço. Não é uma essência.
A resposta à pergunta "O que é ser Humano?" é tão central para compreender normativos que regem as deposições de animais há 6000 anos, como o é para compreender a actual Declaração dos Direitos do Homem, ou para compreender a forma como os caçadores do Ártico, descritos por Ingold, viam e praticavam a sua caça.
O nosso discurso sobre a Pré-História é baseado numa relação: a relação entre nós e essas comunidades. Uma relação indirecta, mediada pelo tempo. Mas uma relação ainda assim. Não temos o seu discurso falado ou escrito, mas temos muitos dos seus outros discursos. Temos ainda a Antropologia que nos alarga os horizontes e nos revela a nós próprios ao mesmo tempo que nos coloca perante a diferença, gerando a reflexividade crítica no nosso pensamento. Temos uma bateria de ciências físicas e naturais que nos ajudam a compreender melhor o que foi feitos, para melhor podermos compreender porque foi feito. No final, verificaremos que a investigação sobre a Ontologia Pré-Histórica é também um trabalho de Ontologia Contemporânea. A capacidade de reconhecermos o diferente é produtora de auto conhecimento. Por isso a já clássica máxima de que todo o conhecimento é auto-conhecimento também.
Critérios para lidar com a dificuldade: honestidade científica, esforço de abertura de espírito e de desenvolvimento de uma racionalidade crítica, muita leitura, valorização do papel dos dados empíricos na validação do conhecimento. Em suma, e como diria Eduardo Lourenço, um posicionamento heterodoxo.
escrito por marcos, Dezembro 15, 2009
Para o estudo da problematica ontologica quer na pré historia quer em outros periodos historicos terá de, assumir-se desde logo o caracter extremamente subjectivo do problema. Tal como a prova ontológica da existência de Deus de S. Anselmo é acima de tudo uma prova de fé creio que o enverdar pelo problema em arqueologia poderá redundar também ele numa especie de quase religiao se não forem definidos à partida uma serie de parametros de analise que possam conferir objectividade à subjectividade da questão.
Como eliminar o sujeito (nós) do objecto de análise (visao que o Homem pre historico tem do mundo)?
escrito por António Valera, Dezembro 14, 2009
É que a linguagem é matéria de pensamento e não simples meio de comunicação de pensamento (creio que não há maneira mais simples de o dizer).
Mas esta entrada não é assim tão hermética, ou pelo menos seria menos, se a responsabilidade na formação fosse outra.
Quanto às suas intenções de não ofença, não esteja preocupado. Eu entendi que não as tem (depreende-se do facto de estar a debater o assunto consigo).
escrito por Gonçalo Lopes, Dezembro 12, 2009
escrito por António Valera, Dezembro 12, 2009
Mas desiludia-me, no final, relativamente à questão (pelo menos relativamente ao curto / médio prazo).
escrito por Gonçalo Lopes, Dezembro 11, 2009
É que se não for isso, não percebi mesmo...
escrito por João Rebuge, Dezembro 10, 2009
Interesse existe pelo conhecimento do outro e pelo auto-conhecimento. Mas, com que base de partida, ou de chegada.

