0200 - Do que não se fala não há
Posted by: valera in Untagged on
Mar 04, 2010
O blog do NIA atinge o seu post nº 200. Estes números "redondos" são normalmente aproveitados para balanços, olhares retrospectivos e coisas desse género. Não fugindo a essa regra (e até porque alguns se têm dedicado ultimamente a discutir professias realizadas num passado recente), resolvi olhar um pouco para trás, não para uma professia, mas para um diagnóstico.
Em 2003, na introdução à secção temática da revista ERA Arqueologia nº 6 dedicada ao tema "Arqueologia Portuguesa e Produção Teórica" (publicada em 2004), escrevia:
"Disciplinarmente, contudo, este desenvolvimento tem sido desequilibrado. Face a um crescente número de sítios intervencionados, de textos publicados, de graus académicos obtidos, de projectos apresentados, de intervenções de minimização e salvamento realizadas, o panorama no que respeita a preocupações teóricas, quer de natureza epistemológica, quer no âmbito das "teorias de enquadramento" ou dos modelos, tem-se revelado particularmente deficitário.
Uma grande parte (demasiado grande) da Arqueologia Portuguesa parece viver despreocupada com as questões relativas à natureza da produção de conhecimento e das suas vinculações teóricas e ideológicas, quer em termos gerais, quer na sua área disciplinar específica."
Nessa mesma secção temática, Lucy Evangelista escrevia, na sua colaboração intitulada "Da perpetuação do discurso à normalização da prática", o seguinte:
"O verdadeiro amadurecimento da disciplina dar-se-á apenas quando estas questões, nos termos em que aqui são colocadas, deixarem de ser motivo de discussão e já não for necessário colocar em causa a fraca recorrência dos temas teóricos no quotidiano da Arqueologia. Esse, sim, será um sinal claro de progresso e de evolução qualitativa da Arqueologia"
Passados sete anos, contam-se pelos dedos de uma mão (e ainda sobram) os textos escritos que falam do assunto, sobretudo no contexto que mais Arqueologia pratica: o comercial. Na net, os jovens arqueólogos reclamam sobre tudo, mas nem uma linha sobre este assunto. Nos colóquios somos encharcados de dados. Aparentemente, é um assunto que não motiva a discussão.
Daqui se concluiria, segundo a equação de Lucy Evangelista, que estamos perante um sinal de "progresso e de evolução qualitativa". Se não falamos dos problemas é porque eles já não existem.
Mas está a Arqueologia portuguesa realmente sem problemas? Não! Claro que não. Os salários são baixos, o trabalho precário e com más condições, suspeita-se de comportamentos pouco éticos, a incompetência prospera, a componente legal está velhinha, etc. Estes são assuntos que se debatem ciclicamente ao longo do ano. Logo existem. A questão da produção teórica não. Portanto, não existe. Do que não se fala não há.
De facto, uma Arqueologia sem problemáticas dispensa qualquer teoria. Libertámo-nos dos problemas teóricos. E como conseguimos esta proeza que mais ninguém parece conseguir? À boa maneira do regime da actualidade política: se ninguém parece conseguir, baixa-se a exigência; se ainda assim não cumpre, anula-se a exigência. Problema resolvido. É assim que se está a resolver o problema do sucesso escolar e necessidade de qualificação e será assim que se vai tratar de outros.
Finalmente a prática, liberta dos constrangimentos complicados, entediantes e supérfluos da teoria, livre de "filosofisses" e escritas ininteligíveis, pode desenvolver-se livremente, construindo o seu mundo de fazeres sem porquês.
O que eu ainda não percebi é como é que um fazer sem "porquês" vai conseguir gerar uma área de actividade profissional, no campo da ciência e do património, socialmente reconhecida, bem paga e com boas condições de trabalho. Mas isso deve ser porque me apego à aparente complexidade das coisas, descurando a sua óbvia simplicidade.
António Carlos Valera

escrito por Miguel Lago, Março 05, 2010
escrito por Miguel Lago, Março 04, 2010

