0202 - IMPRESSÕES 4º CONGRESSO ALQUEVA

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

 Parte I

Estando a trabalhar na ERA Arqueologia desde 2002, embora não seja arqueólogo ou desempenhe qualquer trabalho directamente relacionado com arqueologia (trabalho na área financeira), desafio-me (quando o dia-a-dia o permite) a participar em congressos "puramente" de Arqueologia. Este objectivo, tendo por detrás algum interesse próprio, visa um objectivo maior que é inteirar-me com mais detalhe do tipo de trabalhos que estão a ser desenvolvidos pelas diversas empresas (onde se inclui a empresa onde trabalho e a sua concorrência, claro), tipo de contextos que estão a ser encontrados, como é transmitida essa informação para o exterior, enfim, conhecer o mercado onde actuamos. Foi com esta perspectiva, que decidi participar no 4º Congresso de Arqueologia do Alqueva.

Antes de mais, deve ser enaltecida a iniciativa levada a cabo pela EDIA afim de partilhar ao público os resultados dos trabalhos. Entenda-se aqui público como comunidade científica e não o público em geral. Sobre este aspecto, gostaria de dizer que, dada a dimensão, densidade geográfica, quantidade e importância dos trabalhos que estão a ser desenvolvidos no Alqueva, situação absolutamente ímpar no país nos últimos 5 anos, é uma pena que, mesmo nesta fase em que os trabalhos ainda se encontram a decorrer, não haja uma maior exposição pública dos referidos trabalhos, por forma a valorizar, não só os resultados obtidos das intervenções, mas, sobretudo, o que aporta para a sociedade em termos culturais, sociais etc. Neste sentido, este congresso ficou aquém das minhas expectativas porque quero assumir, inocentemente talvez, que a função primeira (ou última se quiserem) destas (e de todas) intervenções de arqueologia, para além da salvaguarda, registo do conhecimento, etc, é, inquestionavelmente, uma função social, entenda-se de partilha de conhecimento com o público em geral. Se o património, neste caso, as intervenções efectuadas e respectivas descobertas, não são, por si só, motivo suficiente para potenciar a sua divulgação, em termos financeiros, questão a que sou particularmente sensível, o investimento dispendido talvez merecesse um outro retorno à sociedade. Imagino que, no final dos trabalhos (2014???), vão ser publicadas monografias, eventualmente, realizadas exposições, teses de mestrado e talvez até doutoramento, para além de acções de comunicação, nomeadamente, seminários, "press-release" e outros. De qualquer forma, considerando que os trabalhos ainda estão longe de ser concluídos, creio ser uma oportunidade sem igual para ir mais além, promovendo social e culturalmente a arqueologia no melhor sentido, os institutos que a tutelam, empresas responsáveis pelas intervenções, em suma, a arqueologia e todos os envolvidos.

Parte II

No que se refere às comunicações, é facilmente percebida a indiscutível relevância dos contextos arqueológicos descobertos e a importância que representam no contexto da arqueologia portuguesa. Independentemente da empresa que o fez, e note-se que me estou a referir em termos muito gerais, logo com excepções, assisti a apresentações absolutamente descritivas e muito pouco interpretativas, o que me surpreendeu. Mediante o período cronológico e a descrição apresentada, em todas as comunicações temos estruturas, fossas, fossos, silos , fornos, hipogeus, de todos os formatos e feitios, em alguns casos concentrados em área, outros mais dispersos. Depois temos necrópoles, sepulturas com vários tipos de disposição e materiais como cerâmicas, líticos, lâminas, pontas de seta, campaniformes, contas etc. Ou seja, dada a semelhança entre as comunicações, à terceira ou quarta comunicação, confesso que era mais do mesmo. Não quero desvalorizar a importância destas informações (que na maioria dos casos até já deve estar publicado nos relatórios) para quem as analisa e consegue, seguramente melhor do que eu, tirar outras conclusões mas, mais uma vez, vi em grande parte destas comunicações descrições do que foi escavado, como foi escavado e o que foi encontrado, mas muito pouco da definição do que poderia ter sido o sítio e a interpretação que cada um podia fazer sobre o sítio. Compreendo que isto pode ser o mais complicado em arqueologia mas é também o mais desafiante e interessante na arqueologia. Sendo algo sintomático em praticamente todas as comunicações que assisti, e repito isto é uma conclusão pessoal, pergunto-me se será o facto dos trabalhos ainda estarem a decorrer a razão para as comunicações serem meramente "descritivas" ou se este facto será resultante de alguma lacuna mais estrutural na arqueologia praticada em Portugal. Isto leva-me a perguntar se, numa base na "arqueologia descritiva", não podemos considerar que temos uma arqueologia "mecânica" na medida em que basta seguir as regras básicas de "como escavar"? Deve a arqueologia limitar-se a "descobrir" e a revelar essas descobertas ou deve cada arqueólogo/empresa imprimir o seu cunho pessoal nas intervenções através da sua interpretação própria? O que me leva ainda a perguntar, neste contexto, sobre o que determina a importância de um sítio arqueológico: a importância dos sítios manifesta-se pela importância do que descobrimos ou pela importância que atribuímos ao que descobrimos? Mas se não interpretamos o que descobrimos, como podemos saber a importância dos sítios?

 Parte III

Outro aspecto que não posso deixar passar em claro nas comunicações a que assisti é o formato das apresentações e à performance dos oradores. Estando eu habituado a comunicações noutras áreas de actividade, confesso que é com alguma estranheza que assisto a comunicações feitas de costas para a audiência, a olhar para o chão, de mãos na cintura ou em "posição de sargento", já para não falar nas comunicações lidas, umas vezes até mal lidas, outras vezes lidas a 250km/hora. Evidentemente que este é um pormenor. Mas, efectivamente, se a arqueologia pretende aportar valor à sociedade em geral, através do património histórico e arqueológico, com um contributo social e culturalmente útil e fundamental nos dias de hoje, tem de dar uma imagem de si, antes de tudo, consistente, clara, interessante e, em muitos casos, adaptada aos diversos públicos. Nunca este objectivo será alcançado com este tipo de exposição pública a que assistimos que, enquanto público em geral, é pobre e não passa uma mensagem cativante. Repito mais uma vez que estou a falar em termos gerais. Esta situação agrava-se ainda mais quando, no caso das empresas que, por serem isso mesmo, empresas, deviam ser profissionais e competentes nas suas apresentações. Obviamente que não é um problema unicamente da arqueologia, mas confesso que num projecto de arqueologia, dada a importância que a exposição pública assume, este problema é bem mais notório.

Luís Nuno


Comentários (2)Add Comment
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escrito por Miguel Lago, Março 09, 2010
Provavelmente e na sequência de tantas discussões, foram mais vezes em que concordaram!! Talvez...
Quanto ao post do LN saliento as questões inerentes à comunicação que fazem parte do código genético da Arqueologia e da profissão de arqueólogo. Só assim faz sentido e, também neste domínio, temos um vasto terreno a desbravar, relativamente ao qual assistiremos, nos próximos anos, a melhorias muito significativas. Aliás, as possibilidades de evolução são tão vastas que apenas podem deixar entusiasmados todos aqueles que trabalham na Arqueologia portuguesa.
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escrito por Luis Faria, Março 09, 2010
Ena, pela primeira vez tenho que concordar com o Luis Nuno.

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