0203 - Faianças do Largo de Santos
Posted by: valera in Untagged on
Mar 10, 2010
Na sequência das escavações arqueológicas realizadas no Largo de Santos surge agora uma primeira análise ao espólio de fragmentos de faiança ali recolhidos. Este trabalho surge numa óptica de continuidade dos trabalhos de minimização onde se pretende que a informação não se cinja à elaboração de um Relatório Final mas que sirva de base para outras abordagens mais detalhadas, não só ao nível do espólio, como ao nível das estruturas, da evolução da linha de costa lisboeta, entre outros aspectos que decorram destes mesmos estudos.
Cada vez mais se impõe a necessidade de desenvolver os trabalhos de minimização para lá do que se produz no terreno e para além da informação imediata que daí decorre, não só devido à carência de informação específica sobre os sítios mas também devido às exigências da própria comunidade científica.
Nas escavações do Largo de Santos foram identificados fragmentos de faiança que sugerem estar ligados aos despejos de alguma olaria de finais do século XVII ou primeiras décadas do século XVIII, localizada nas proximidades. Esta cronologia é avançada com base nos fragmentos de pratos recolhidos onde predominam os covilhetes (pequenos pratos sem decoração) muito requisitados pelos conventos portugueses e que parecem ter ditado uma moda de utilização doméstica. Surgem igualmente alguns fragmentos decorados com faixas barrocas e contas, decoração que sabemos prevalecer a partir dos finais de seiscentos e muito comuns nos contextos do Terramoto de 1755.
A localização destes achados não é de todo estranha atendendo à proximidade da zona onde, a partir dos finais do século XVI, se desenvolveram as olarias de branco em Lisboa, como comprovado pela diversa documentação que coloca variadas oficinas naquela região de Lisboa (Mangucci, 1996). Seria efectivamente zona privilegiada para os despejos dos restos de produção.
Os vestígios revelaram diversas peças em biscoito, a faiança após a primeira cozedura, mas antes do banho de vidrado que irá revestir a sua superfície com o vidrado branco opaco. Entre os achados destacam-se três fragmentos de caixas ou casetas, recipientes em cerâmica refractária com o propósito de levaram as peças de faiança ao lume, evitando a sua exposição ao fogo directo, minimizando as hipóteses de acidentes de cozedura, identificados nas UE 5006, e 1079. Estes exemplares revelam-se do mesmo estilo de outros que haviam sido recolhidos no Largo de Jesus (Santos, 2007), onde foi encontrada igualmente zona de despejos de olaria, embora aqui tenham sido igualmente identificados restos da fornalha de forno. Tratam-se recipientes cilíndricos com base plana e com fundo aberto. O diâmetro daqueles varia entre os 0,280 m e os 0,190 m, pelo que certamente serviriam para produzir diferentes tipos de louça, com distintas formas e tamanhos. Estranhamente e, ao contrário do que aconteceu no arqueossítio acima mencionado, não foram identificados trempes, cuja função seria separar, dentro das caixas, peças como pratos e taças, durante a cozedura.

Foram solicitados alguns fragmentos para a realização de análises de espectroscopia de Raman, oriundos de recolhas de superfície e da UE 115. Os objectivos desta técnica passam por identificar elementos utilizados na composição das pastas e vidrados comprovando cientificamente as informações que a documentação seiscentista nos tem vindo a indicar acerca da proveniência e utilização de diversas matérias-primas. Esta técnica vai incidir ainda nos pigmentos utilizados na coloração dos elementos decorativos comprovando a sua natureza, bem como algumas das técnicas utilizadas na produção desses mesmos vidrados, nomeadamente a temperatura de cozedura, com a vantagem de não ser destrutiva.
De entre os achados foram identificados alguns fragmentos de cerâmica revestida a esmalte azul com decoração a azul, tradicionalmente identificados como produções sevilhanas do século XVII. A grande dispersão destes achados em Portugal e nomeadamente em Lisboa, muitas vezes associadas a zonas de produção, pode sugerir tratarem-se produções lisboetas, pelo que um dos fragmentos recolhido no Largo de Santos (UE 115), irá ser submetido a análises de pasta e comparado com as análises das chacotas, comprovando se utilizaram os dois a mesma pasta, provando a sua produção lisboeta.
Os resultados obtidos através das análises destas peças serão ainda comparados com as informações obtidas através de análises semelhantes em peças recolhidas de caqueiros das zonas de produção de Coimbra e Vila Nova, tentando identificar diferenças ou semelhanças entre os três centros produtores.

Bibliografia
SANTOS, M. (2007) - Largo de Jesus. Contributo para a História Incógnita de Lisboa Antiga. Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 10(1), pp. 381-399.
MANGUCCI, A. (1996) - Olarias de louça e azulejo da freguesia de Santos-o-Velho dos meados dos séculos XVI aos meados do século XVIII. Almadan. Almada. Centro de Arqueologia de Almada, pp. 155-168
Tânia Casimiro
Inês Mendes da Silva

