0204 - Era uma vez o Património – 36

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Arqueologia para desopilar

 

 

 

Incompetência ou falta de preparação para concretizar projectos de Arqueologia é muito comum em Portugal. Já foi pior, mas ainda temos muito que evoluir para atingir o patamar de outras áreas de actuação, que ao nível de projectos de investigação, quer ao nível de projectos de Arqueologia aplicada.

Apesar de impaciência, não podemos esquecer que a Arqueologia foi quase sempre realizada sem grandes pressões, quer ao nível dos pressupostos teóricos que orientavam a investigação, quer ao nível do controlo de qualidade, de custos ou de prazos de execução. Normalmente, chegava-se a um sítio e as coisas iam andando; iam-se fazendo, enquanto se tinha tempo e dinheiro (pouco) para continuar; tudo isto, conjugado com voluntarismo e amadorismo. Para alguns, as campanhas de verão serviam para desopilar...

 Daí que cinco aspectos base, que eram impensáveis para muitos, sejam nos nossos dias de enorme relevância para todos aqueles que pretendem obter resultados credíveis e sustentáveis em Arqueologia:

o que fazer;

porquê;

como concretizar;

durante quanto tempo e

(cada vez mais)

com que custo?

Todos eles remetem para a noção de definição de objectivos que, obviamente, deve estar inerente a qualquer intervenção arqueológica. Perante a sua simples enumeração, constata-se o absurdo, ou seja, que é uma raridade na generalidade dos casos, independentemente de falarmos de prestadores de serviços, de profissionais que executam ou mesmo de clientes de Arqueologia. Quase todos vão aceitando um sistema que pactua com a tradição da impossibilidade de prever e, portanto, de planear. Não sendo considerados aqueles aspectos, é evidente que a grande maioria das intervenções não são ponderadas por ausência de tradição neste meio e por manifesta falta de formação dos próprios arqueólogos. No entanto, estamos no limite: a nossa sociedade já não pode correr certos riscos riscos e a incerteza é um problema cada vez maior.

Hoje, para quem está bem informado ou é muito exigente, já não é tolerável obter resultados científicos desproporcionados face ao investimento ou aceitar custos descontrolados. Por isso, por uma questão de sobrevivência, é urgente planear, executar e controlar de forma correcta. É o que pretendemos, cada vez mais, fazer na ERA.

Também a Gestão de Projectos devia ser ensinada nos cursos de Arqueologia. Será que ainda ninguém pensou nisso?

Miguel Lago, Março de 2010

Comentarios (3)Add Comment
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escrito por miguel lago, Março 24, 2010
Não podemos exagerar; existem muitos problemas, mas também muitas coisas boas e grandes oportunidades no horizonte. Os problemas, são conhecidos conhecemos e tendemos a salientá-los; coisas boas são várias, a começar pelas possibilidades de progressão e afirmação na carreira como nunca antes existiu e a terminar nos conhecimentos que nos quinze anos de arqueologia profissional se atingiram e que são absolutamente ímpares relativamente aos anteriores cem anos. Podia ser melhor? sim, sem dúvida; conseguiremos melhor? Não sei, mas em grande parte depende de nós próprios.
Quanto aos Arqueólogos que trabalham na Arqueologia de Salvamento (não gosto particularmente desta expressão), reconheço plenamente que são fundamentais e que, em muito casos, são grandes profissionais. Mas também está neles a chave para muitas mudanças e não posso deixar de me surpreender com a passividade que revelam, na maioria dos casos, em relação aos destinos da profissão.
(quantos arqueólogos estarão no próximo sábado na Assembleia Geral da nossa Associação Profissional?)
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escrito por Luis Lobato de Faria, Março 24, 2010
A Arqueologia, em Portugal, está cada vez mais longe da sociedade.
Os arqueólogos mais velhos e com posições de poder, são se tal maneira individualistas que conseguiram deformar uma geração de arqueólogos (tive mais formação na ERA do que na Universidade).
O pouco conhecimento produzido é transmitido em códigos que são impossiveis de compreender ou são Arte. É um conhecimento desligado da Antropologia nos problemas que afectam o Homem hoje.
A Arqueologia ainda está viva graças aos profissionais anónimos que trabalham na Arqueologia de Salvamento, contra o sol, contra a chuva, contra o salário, contra os prazos, contra as máquinas, a favor da nossa identidade cultural.......os meus parabéns a todos.
Não existe discussão, não existe IPA, não existe Ordem, não existe Sindicato, vamos deixar de ter Museu.....e a culpa é nossa, coitado do Vasconcelos.
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escrito por Luis Nuno, Março 23, 2010
Miguel, não podia estar mais de acordo, particularmente, no que se refere à questão da formação. Quando é que se vai reconhecer que, ao gerir um projecto de arqueologia, para além das competências específicas de arqueologia, são necessárias outras competências como saber gerir recursos humanos e materiais, conhecer a legislação, contactar e lidar com os vários clientes (entre eles o IGESPAR), saber comunicar e, simultaneamente a todas estas tarefas, planear. Quando é que se vai reconhecer que disciplinas como Recursos humanos, Gestão, Marketing, Comunicação e até Matemática (perceberiam porquê se ouvissem algumas questões que me são colocadas) podem ser um mais valia importante na formação de um arqueólogo e, por isso, quando farão parte do plano curricular dos cursos de arqueologia? Estas necessidades de formação são necessidades reais do dia-a-dia dos arqueólogos, de quem ?emprega? e de quem contrata, enfim, da arqueologia portuguesa. Tenho a certeza que o resultado final dos projectos de arqueologia, a todos os níveis, só iria beneficiar com esta complementaridade na formação dos arqueólogos.
Parece-me muito estranho que as universidades excluam estas disciplinas/competências dos planos curriculares. Certamente é porque estão a preparar arqueólogos, não para o mercado empresarial (onde devem actualmente trabalhar mais de 80% dos arqueólogos no activo), mas para outra função qualquer. A bipolaridade a que assistimos entre o que as universidades leccionam e o que o mercado precisa é gritante (e não é caso único a arqueologia como sabemos). Não percebo porquê, confesso, porque está à vista de todos. Discute-se e discute-se sobre o estado e reconhecimento da arqueologia e não se vai ao cerne da questão. Este é o cerne da questão. Não estas competências em particular mas, num sentido mais lato, a formação obtida nas universidades e o seu resultado traduzido no que o arqueólogo está preparado para aportar à sociedade.

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