0209 - Era uma vez o Património – 39
Posted by: valera in Untagged on
Mai 19, 2010
O Estado das coisas

Um dos mais graves problemas da Arqueologia portuguesa e internacional é o da evidente dificuldade em rentabilizar, dos pontos de vista científico e social, os resultados obtidos de ano para ano. Problema, porque a actividade arqueológica é hoje muito intensa, prospectando-se e escavando-se diariamente muitos sítios pelo nosso território fora. Nunca, como nos últimos anos, se conheceram directamente tantas novas realidades ou se produziu tal quantidade de dados passíveis de renovar os nossos conhecimentos sobre o passado.
Se a Arqueologia nasceu e se consolidou pela vontade de conhecer, a sua profissionalização e enquadramento em políticas de ordenamento do território, fundamentais para a criação de condições de base para a salvaguarda, investigação e valorização patrimonial, trouxeram alguns vícios típicos de ambientes burocratizados. De facto, face a uma Arqueologia imposta legalmente respondeu-se com uma acção predominantemente visando o cumprimento de procedimentos administrativos. Ou seja, resvalou-se para actuações em que parece que o mais importante é demonstrar uma coisa: que se intervencionou. As razões, o enquadramento dos projectos em problemas de produção de conhecimento científico ou a disponibilização de conteúdos para partilhar com a comunidade, tornaram-se secundários e sujeitos a critérios pouco claros.
Este estado das coisas deve ser alterado, porque é nocivo. Beneficia quem não compreende as virtualidades que resultam do actual sistema legal que, afinal de contas, pode favorecer, pelas regras que estimulam actuações sistemáticas, a nossa Arqueologia.
Por tudo isto, não entendo a estratégia da tutela do Património que pouco pugna pela elevação da exigência e incremento da qualidade dos projectos executados, parecendo subordinada ao princípio do "agir para cumprir algo". De igual modo, não compreendo a estratégia da generalidade das universidades e empresas desta área. As primeiras parecem não interiorizar que poderiam ter acesso a impressionantes fontes arqueológicas que nem imaginam estar ao seu alcance; era sua obrigação prestar a máxima atenção ao que se passa na Arqueologia Comercial. As segundas, as empresas, trituram possibilidades de gerar conhecimento. Não são todas, mas são a grande maioria. E silenciosas.
Como alguém da tutela me dizia há tempos, a ERA fala demais, escreve em excesso e solicita em demasia a participação da tutela nos processos em curso. Quem não se expõe e não convoca os seus pares prossegue por caminhos que apenas visam em exclusivo o benefício próprio, gerando-se um ambiente de suspeição relativamente a actos de corrupção.
Por tudo isto, espero que os profissionais da ERA continuem a dar exemplos de profissionalismo, procurando sempre conciliar as melhores práticas técnico-científicas com os objectivos dos clientes, beneficiando os processos de conhecimento do passado e dando algo de consequente à sociedade em que nos inserimos.
Miguel Lago, Maio de 2010


