0212 - Cruz da Areia

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A intervenção arqueológica no sítio Cruz da Areia enquadrou-se numa perspectiva de minimização de impactes numa área com enorme potencial arqueológico. Este sítio já havia sido diagnosticado em trabalhos anteriores, contudo os resultados obtidos não foram suficientemente esclarecedores para questões relacionadas com a cronologia, formação e preservação. A primeira fase destas novas intervenções consistiu na realização de três sondagens manuais de forma a compreender a relação de um nível de termoclastos com artefactos líticos e a sua formação antrópica ou natural e também a confirmação ou não da existência de zonas de combustão relacionadas com a ocupação pré-histórica do sítio.

 

 

 Vista geral da escavação e da Sondagem 1 (nível de termoclastos)

 

 Na sondagem 1 está presente um momento de ocupação humana relacionado com um nível com milhares de termoclastos e centenas de peças líticas talhadas, cuja funcionalidade não está de todo esclarecida, pois trata-se de uma extensa área, cerca de 1000m2, tendo sido intervencionados apenas 14m2

Já para a zona onde foram implantadas as sondagens 2 e 3, existe um nível preservado (solo antropogénico) onde estão presentes seis estruturas de combustão, estruturas negativas, milhares de peças líticas talhadas e ainda uma placa de xisto com gravações filiformes.

 

Estruturas de combustão 3 e 1.

 

A interpretação preliminar deste sítio aponta para a presença humana durante um período da pré-história antiga, provavelmente no paleolítico médio e paleolítico superior final. A localização do sítio, entre os vales do Rio Lena e do Rio Lis, tornam o local numa zona preferencial para o estabelecimento de comunidades de caçadores-recolectores, com acesso a um vasto território pautado por grandes vales e áreas de abastecimento de matéria-prima. Estamos perante realidades arqueológicas preservadas in situ, testemunhada por estruturas de combustão de várias dimensões e com diversas funcionalidades, estruturas negativas, milhares de peças líticas talhadas, bem como vários elementos pétreos que demonstram a mobilidade destes últimos grupos de caçadores-recolectores pelo território envolvente a curta e longa distância (seixos rolados, dioritos, sílex, calcário, xisto).

 

 

Industria lítica alongada presente nos contextos arqueológicos.

 

(Tiago do Pereiro, 20-08-2010)

 

Comentarios (9)Add Comment
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escrito por Miguel Lago, Outubro 24, 2010
No contexto da Arqueologia portuguesa, o Blog do NIA um espao privilegiado de fornecimento de informaes, debate de ideias e escrutnio do trabalho da ERA-Arqueologia. Com seriedade, argumentao e liberdade, assim continuaremos.
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escrito por José Bastos, Outubro 24, 2010
No entanto, «o melhor (no mínimo um dos melhores) projecto de acompanhamento arqueológico da implementação de infra-estruturas rodoviárias alguma vez implementado em Portugal» permitiu que fossem destruidos e tardiamente identificados sitios arqueológicos de relevo e igualmente importantes como a Cruz da Areia.



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escrito por Miguel Lago, Outubro 11, 2010
Felizmente a excelente equipa da ERA foi acompanhda muito de perto pela equipa da extensão de Torres Novas do IGESPAR. Desta articulação, deve ter nascido o melhor (no mínimo um dos melhores) projecto de acompanhamento arqueológico da implementação de infra-estruturas rodoviárias alguma vez implementado em Portugal. O modelo pode ter melhorias ao nível da articulação entre todas as entidades envolvidas neste tipo de processos; resta esperar que não estejamos perante uma excepção.
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escrito por João Gomes, Outubro 09, 2010
Pois, erros de casting...
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escrito por José Bastos, Outubro 09, 2010
Pois é, têm todos muita razão. Lembremos, contudo, que este sítio já havia sido objecto de uma intervenção-relâmpago, tendo sido os resultados «inconclusivos»... Neste sentido, considerou-se (pelos responsáveis desta primeira intervenção) a área liberta, e não fosse a persistência do IGESPAR/IP, (que, em certas ocasiões, ainda responde de acordo com as suas competências), as máquinas teriam avançado sem uma escavação «conclusiva»... Num sítio, como referido, «de evidente importância para o conhecimento da Pré-História antiga»... Valha-nos a sensatez...
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escrito por Tiago do Pereiro, Outubro 02, 2010
A leitura de um texto nunca deve ser feita na vertical, e para o perceber correctamente devera ser feita uma nova leitura, s assim compreendemos a mensagem e os factos nele apresentados. Como referido no texto, o stio j havia sido identificado, contudo no se pode contextualizar todo um local nem a sua localizao correcta com base em meia dzia de lascas e termoclastos. Advm desta situao a importncia dos trabalhos realizados.
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escrito por Miguel Lago, Setembro 16, 2010
A identificação do sítio tem vários anos, como aliás mencionava o texto do Tiago do Pereiro; no entanto, o processo de estudo e investigação implementado decorreu, de facto, da implementação de medidas de minimização relacionadas com a construção de uma auto-estrada. Neste âmbito, o facto de ser colocada no terreno uma equipa que coordenava todas as acções de acompanhamento e de escavações, bem dimensionada e com competências específicas, reforçou as possibilidades de implementar uma acção de qualidade. Refira-se que, independentemente deste local, foram vários os sítios relevantes identificados pela equipa da ERA, em fase de efectivo acompanhamento de obras.
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escrito por flor-de -liz, Setembro 14, 2010
De facto o Dr. Miguel Lago tem razão no que diz respeito à importância da realização de um acompanhamento arqueológico de qualidade em meio de obra.
No entanto, e se o Dr. me permitir, só gostava de repor a verdade dos factos.
Com efeito, o sítio da Cruz da Areia não foi identificado por qualquer arqueólogo da Era S.A. e muito menos no âmbito do acompanhamento arqueológico das obras actualmente em curso da LOC e acompanhadas por arqueólogos dessa empresa.
O sítio em apreço foi identificado à alguns anos pela arqueóloga Vânia de Carvalho, na altura a realizar acompanhamento em obras promovidas pela SIMLIS para a empresa Ocrimira.
O sítio é referido na carta arqueológica do concelho de Leiria já à alguns anos, muito tempo antes do início destas obras.
Obrigado.
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escrito por Miguel Lago, Setembro 01, 2010
Este sítio, de evidente importância para o conhecimento da Pré-História antiga, demonstra que o acompanhamento arqueológico de obras pode ser uma fase essencial desse processo. Naturalmente, tal só é possível com equipas correctamente dimensionadas e apetrechadas com as competências necessárias. O que, como sabemos, parece não acontecer na maioria dos casos, ficando a sensação (ou certeza) de que muito é destruído por este país fora, mesmo quando, formalmente, as obras têm o necessário acompanhamento arqueológico. A ERA tem, desde há muito, criado metodologias e formas de actuação exemplares, que visam conciliar a efectivo estudo e salvaguarda do Património com os interesses dos promotores de obras.

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