0228 - Era uma vez o património 47

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 Quem quer os materiais?

 

Está instalada em Inglaterra uma polémica sobre a gestão dos restos humanos recolhidos em escavações arqueológicas

(http://www.guardian.co.uk/science/2011/feb/04/archaeologists-forced-to-rebury-finds).

 A discussão é interessante e estimulante. Na Arqueologia portuguesa abundam os tabus, certos assuntos de que quase ninguém fala. Um deles é o da vacilante política de gestão de espólios de que a componente osteológica é apenas um exemplo.
A situação é, genericamente, desastrosa: descontrolo sobre inventários e locais de depósito; descontrolo relativamente às condições ambientais dos depósitos; descontrolo no que respeita à segurança dos locais de reserva. O Estado, a comunidade em geral e o meio científico não sabem o que temos em depósito, em que estado temos, quem tem colecções ilegalmente na sua posse ou que materiais já terão sido roubados...no entanto, as consciências parecem estar tranquilas. É um silêncio ensurdecedor.

Como em tudo, devemos saber tomar e assumir opções. O absoluto não existe em Arqueologia (como provavelmente em quase nada na vida) daí que seja impossível idealizar que registamos, recolhemos e guardamos tudo. Dispomos dos meios técnicos e científicos do nosso tempo, bem como estamos limitados logística e financeiramente pelo nosso contexto. Como somos homens, muito nos escapa e lemos a realidade de acordo com as nossas limitações.

Parece-me preferível reenterrar selectivamente materiais de forma assumida e consciente, a manter uma hipócrita postura de grande preocupação pelo tratamento dos mesmos. A ERA-Arqueologia entrega regularmente colecções nos mais inacreditáveis depósitos legais: lavados, marcados, acondicionados, contentorizados. Quantos anos resistirão às péssimas condições? Para quê o faz de conta?

Quanto à componente osteológica, na sequência de uma recente intervenção da ERA realizada na Igreja da Ota (http://obrasdaigrejadaota.blogspot.com/), foi decidido reenterrar os ossos humanos após elaboração do respectivo relatório final. Nesse sentido, será implantada uma “caixa” numa das sondagens abertas, podendo a colecção ser “revisitada” mais tarde. No mesmo âmbito e no momento próprio, decorrerá uma cerimónia católica. Aqui, fará sentido. Caso a caso, devemos tomar tais decisões de forma ponderada, sem receitas e respeitando vivos e mortos.
Mas não esqueçamos que as nossas opções, mesmo que claramente assumidas, não devem nunca branquear os baixos níveis de exigência da nossa Arqueologia. Para isso não contém com a ERA.
 

Texto publicado em Novembro de 2009:

http://arqueociencias.blogspot.com/2009/11/osso-do-oficio-que-fazer-com-eles.html

 

Miguel Lago, Fevereiro de 2011

 

Comentarios (4)Add Comment
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escrito por Miguel Lago, Fevereiro 22, 2011
Caro Rui, de que discordas neste assunto?...
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escrito por Rui Boaventura, Fevereiro 22, 2011
Não posso discordar mais neste assunto.smilies/sad.gif
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escrito por JDM, Fevereiro 16, 2011
O blog do NIA, este blog, é um caso extraordinário de espaço de exposição de ideias e de estímulo ao debate sobre algo que pode ser essencial para o futuro do nosso país: o seu Património e as potencialidades que incorpora.
Apesar de certos problemas e perspectivas que aqui são lançadas merecerem debates aprofundados, muitos dos comentários sugerem que as questões estratégicas não estão na ordem do dia para muitos profissionais da Vossa área. Diz muito sobre a pouca ambição de uns tantos que aproveitando um espaço de livre acesso não cumprem as mínimas regras de educação para com os seus anfitriões. Virtudes e defeitos da Internet...
Que os responsáveis por este espaço não desistam!
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escrito por JDM, Fevereiro 12, 2011
O presidente do IGESPAR e o Ministério da Cultura deviam mandar inventariar com rigor quem tem de facto os materiais arqueológicos até hoje recolhidos em Portugal. Legalmente cabe aos arqueólogos essa responsabilidade durante x anos após a conclusão dos trabalhos de campo. Curiosamente não se conhecem protestos desses responsáveis pelo facto das não lhes serem dadas condições para fazer o necessário tratamento (será que as exigem??). O tempo passa e os materiais eternizam-se em casa dos arqueólogos (ou nos mais incríveis sítios que arranjam para armazém!) ou em instalações de empresas ou associações. E no caso dos armazéns ou reservas de materiais arqueológicos do Estado ou câmaras municipais? Na maioria dos casos as condições são deploráveis. Tudo promove o roubo e tráfico de antiguidades. Quem põe cobro a este escândalo??


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