0230 - Igespar offline

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

Hoje ouvi o Primeiro Ministro a vangloriar-se pelas reformas informáticas do Estado, que permitiram que os cidadãos passassem a tratar de muitos assuntos pela net, com conforto para os próprios, com benefício para os serviços, com poupanças para o país (a vários níveis). Não sendo simpatizante do nosso PM, subscrevo. Eu noto que nos últimos anos muito foi agilizado e custos (de todo o tipo) foram reduzidos. É algo de positivo o que foi feito nesta matéria.

 

Mas ao mesmo tempo que aplaudo, apupo. Apupo o Ministério da Cultura, que, suspeito, faz parte do mesmo governo e da mesma administração. Apupo, em concreto, o Igespar. E, mais em concreto ainda, a área responsável pela Arqueologia.

 

De facto, quando tratamos dos assuntos de contribuições (talvez o assunto mais importante actualmente para o Estado na sua relação com os cidadãos), podemos resolver quase tudo online. Declarações, tudo online. Vamos para o privado, e a nossa relação com os bancos é já quase que exclusivamente online. Na investigação, apresentam-se os projectos e as candidaturas a financiamentos online (na FCT, na Gulbenkian), até na área de Arqueologia. Acreditem. Eles acham-nos suficientemente aptos para o efeito e as plataformas suficientemente seguras, face a matérias tão relevantes.

 

Contudo, o Igespar continua, estranhamente, no século passado (talvez numa equívoca interpretação do conceito de património). Porque razão ainda temos que enviar as Fichas de Sítio (4 páginas normalizadas para resumir cada intervenção arqueológica) em papel, quando poderiam ser preenchidas online e de forma a que a informação migrasse facilmente para a base de dados Endovélico (poupando trabalho a funcionários que fazem falta noutros serviços)? Porque razão ainda temos que fazer os pedidos de trabalhos arqueológicos em papel e receber um ofício em papel com a autorização (caramba, não há empresa que não nos queira enviar facturas electrónicas para poupar, mesmo que evoque a politicamente correcta preocupação ecologista, que não deixa de lá estar)? Porque razão é possível enviar um relatório científico e financeiro online para a Gulbenkian e para a FCT e não para o Igespar? Porque razão não podemos consultar os relatórios aprovados online? Porque razão não existe um espaço do arqueólogo numa página do Igespar, onde esteja todo o cadastro do próprio, como acontece no das finanças? Enfim, porque razão o instituto do património está tão desfasado do seu tempo, das tendências da sua administração, das reformas do seu governo?

 

Finalmente, porque razão a Direcção do Igespar, que tantas e tantas vezes se queixa de falta de pessoal, não coloca a modernização do seu (e nosso) modus operandi como uma das prioridades para se tornar mais eficaz e responder às suas obrigações (que são cada vez mais complexas e diversificadas)? Beneficiaria o tempo de resposta e a circulação de informação, reduziria custos na área da Arqueologia (que, por vezes, se tem preocupado em reduzir onde não deve, isto é, no que deve efectivamente ser feito nas acções de minimização e salvamento), teria uma outra capacidade de gestão dos seus próprios recursos humanos.

 

Hoje em dia ouço falar de Planos Estratégicos em todo lado. Uma daquelas receitas tecnocráticas da moda. Onde está o Plano Estratégico do Igespar para optimizar os seus (nossos) processos administrativos? Ou simplesmente (sem as designações tecnocratas ou dos bonequinhos imbecis que frequentemente as acompanham), onde está o bom senso?

Comentarios (4)Add Comment
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escrito por António Valera, Fevereiro 27, 2011
Pois na minha opinião os relatórios arqueológicos são, hoje, genericamente de qualidade medíocre ou simplesmente sofrível (Naturalmente, também há bons e maus). Várias razões concorrem para isso e a ordem das que vou elencar não reflecte qualquer tipo de hierarquia.n1) A pressão do mercado para os baixos preços não deixa margem para fazer bons relatórios pagos;n2) A fraca exigência de qualidade nos relatórios por parte da tutela e, no caso das situações de arqueologia de contrato, o desinteresse pela qualidade dos mesmos (ou a dificuldade em a avaliar) por parte de promotores;n3) A fraca qualidade de muitos trabalhos arqueológicos: um trabalho sufrível só com bastante arte e engenho consegue dar um bom relatório;n4) A medíocre ou sofrível qualidade de muitos arqueólogos;n5) A medíocre ou sofrível formação que recebem a nível universitário;n6) O isolamento de muitos arqueólogos dos palcos e dos livros onde a disciplina floresce;n7) As más condições de trabalho e de remuneração;nsmilies/cool.gif A falta de uma sociedade civil interessada e exigente;n9) A falta de uma política para o património arqueológico bem definida e de regras claras e equitativas para a sua aplicação;n10) O ambiente de corrupção, clientelismo, promiscuidade que continua com altos índices no país e que, naturalmente, não pode deixar de afectar todos os sectores da sociedade portuguesa.nBom, mas fiquemos pelas 10 razões, para que o post não se alongue demasiado.nBastará olhar para estas (sem esquecer tantas outras que aqui não estão) para perceber a complexidade do problema da Arqueologia portuguesa: tudo está ligado com tudo. Estaria a evocar as mesmas condicionantes se estivesse a falar de outros problemas, por que de facto o problema é um problema sistémico. nOu seja, de fora das responsabilidades não fica ninguém, repito ninguém, mesmo que uns sejam mais responsáveis que outros.nMas também fica claro que pensar que se consegue resolver uma parcela do problema sem actuar no global é um equívoco que só a imaturidade ou o desespero podem justificar. nNinguém por si consegue resolver, naturalmente. Mas consegue minimizar e, com o tempo e a persistência, ajudar a mudar. Eu sou uma pessoa interessada nas teorias da acção. São Filosofia, são Sociologia, são Psicologia Social, mas são fundamentais para entender a forma como funcionamos e para orientarmos as nossas convicções e actuações. O que cada pessoa pode fazer varia. A esfera de intervenção de cada um e o seu poder de intervenção são sempre diferentes de pessoa para pessoa, de tempo para tempo. Mas há sempre algo que resulta das nossas acções.nNem sempre é o pretendido e por isso o agir deve ser responsável. Mas é sempre possível fazer algo para melhorar (ou para piorar).nAgir numa modernização digital dos serviços do Igespar não resolveria os problemas da Arqueologia portuguesa, mas certamente minimizaria alguns e melhoraria claramente outros. Quanto à qualidade dos relatórios? Bom, talvez a exposição pública e a comparação contribuíssem para gerar um clima que obrigasse à sua melhoria generalizada (e aqui falo dos que têm origem nas empresas, mas também no mundo universitário e de outras instituições públicas).nQuanto à exigência é algo de que habitualmente sou acusado de sofrer. Há muito que defendo que o que falta a este país, ou seja, às suas gentes em geral (sempre "gente porreira") é a falta de uma cultura de exigência, expressa e sentida com naturalidade ( ou seja sem que gere de imediato incompatibilidades). Exigência para com os outros, mas também para com nós próprios. n
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escrito por Miguel Lago, Fevereiro 27, 2011
Em minha opinião, sendo a Arqueologia uma actividade de cariz público, com licenciamento caso a caso e avaliação também ela caso a caso, a aprovação de qualquer relatório deveria implicar, de imediato, a sua disponibilização pública, o mesmo sucedendo com toda a demais documentação do respectivo processo. Cada relatório deveria ser assim encarado, em termos de citação, como qualquer publicação.nA questão suscitada da falta de qualidade de certos (ou muitos) relatórios só ocorre por manifesta falta de exigência da nossa tutela e do meio arqueológico em geral. Se não têm profundidade, consistência ou qualidade, não deveriam ser aprovados. Infelizmente, a realidade é permissiva...ou porque o mercado não é como deveria ser, ou porque são amigos, ou então porque são "coitadinhos" dado não terem condições de trabalho...nExigência, é a palavra chave. Do que queremos, de como fazemos e de que resultados obtemos.n
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escrito por JL, Fevereiro 27, 2011
Esta chamada de atenção do Doutor António Valera tem toda a pertinência para a discussão que deveria ser promovida entre o IGESPAR, as Universidades, Empresas e Associações ou Grupos de Defesa do Património. Mas tal como noutros sectores, os organismos estatais tendem a querer estar em "offline" ou melhor, como a avestruz. Julgam que fazem melhor em não se envolverem em questões destas. Ou porque desvalorizam o pensamento dos outros, ou porque pensam - lá estão eles a querer exigir tudo e não vão nunca ficar satisfeitos. Ainda bem. A insatisfação alavanca quase sempre propostas de solução.
Já escrevi num outro comentário (em 2007), num panorama de crise, onde escasseiam os meios humanos, mas abundam os meios tecnológicos, com custos relativamente baixos, sobretudo com a ajuda incontestável do software gratuito, que é bem exemplo a plataforma "Joomla!" que o NIA recorreu, a solução pode passar pela informatização e desburocratização do registo que os arqueólogos têm de suportar, quer pela sua deontologia profissional, quer pelo enquadramento legal. A ideia de ACV de se poder preencher as fichas de sítio online é hoje uma incompreensível situação. E também os pedidos de autorização, pedidos de modificação das ditas, até os relatórios poderiam ser remetidos para uma área criada para o efeito, sobretudo os de progresso, nos acompanhamentos arqueológicos. O ambiente agradeceria. Ao profissional seria concedida uma senha de acesso, ou em alternativa uma autenticação por cartão do cidadão que hoje é quase uma brincadeira de crianças, noutros sites, inclusive o do Portal das Finanças. Também ao nível da assinatura digital é hoje tecnologicamente viável e gratuito inscrever-se num documento e tem enquadramento de validade legal. Nenhuma, e repito nenhuma entidade hoje, pode, de acordo com a legislação recusar um documento, a si endereçado com este tipo de assinatura.
Agora o mais controverso: A disponibilização dos relatórios em .pdf ou outro suporte análogo, online. Sabemos todos o quanto é penoso,e, vamos ser desassombrados, oneroso a deslocação ao Palácio da Ajuda para ter acesso aos relatórios aprovados pelo IGESPAR. Então imaginemos, uma pessoa que trabalhe em Vila Real, para ter contacto com estes relatórios teria de fazer centenas de quilómetros, com os custos inerentes a esta deslocação. No entanto, e isto teria de ser confirmado com alguém com conhecimentos jurídicos, por um documento ser público não quer dizer que sem o consentimento do autor(es) este possa ser descarregado por todos os que estejam registados. Para além desta dúvida, palpita-me que alguns investigadores não quereriam escancarar o seu trabalho para toda a gente. Não por uma questão de proteccionismo de informação, mas por uma questão dos próprios arqueólogos não estarem satisfeitos com o nível que alcançaram na redacção desse(s) relatório(s). É comum, a pressão orçamental dos projectos, nomeadamente nas empresas de arqueologia, não permitir um devido tratamento da informação recolhida em campo. Já assisti a casos de um volume imenso de recolhas materiais que nem sequer tiveram um estudo preliminar . Como realizar então um trabalho que orgulhe esse investigador? Por isso era tão imperioso estabelecerem-se critérios descritos com a minúcia necessária para que se pudessem alcançar os objectivos mínimos de um trabalho arqueológico e fazer orçamentos adequados.
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escrito por Miguel Lago, Fevereiro 22, 2011
Concordo a 200%!
Infelizmente, este tipo de assuntos não parece suscitar o entusiasmo e o empenho dos Arqueólogos. Aspectos como os que são mencionados, foram já amplamente sugeridos pela ERA e por outras empresas (provavelmente por muitas mais pessoas). Contudo, as prioridades são outras e as próprias chefias do IGESPAR parecem reféns de um nefasto situacionismo. Hoje, parece que a prioridade não é evoluir, mas antes não regredir. Assim, vamos perdendo, devagarinho, o que alguns anos antes parecia inequivocamente adquirido.

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