0234 - Era uma vez o património 49
Posted by: valera in Untagged on
Mar 08, 2011
Finalmente, a verdadeira "reforma"!

Está em curso mais uma reforma da tutela da Arqueologia portuguesa. O IGESPAR vai continuar a existir, sem se saber com que competências concretas (seguramente poucas). Quanto às Direcções Regionais de Cultura, irão receber novas atribuições, nomeadamente ao nível dos licenciamentos, acompanhamento e avaliação dos projectos.
Objectivamente, no nosso quotidiano, ou tudo vai continuar na mesma ou, o que é mais provável, tudo vai ficar pior. Por uma razão muito simples. As mudanças são exclusivamente orientadas pela necessidade de mostrar e propagandear que se está a cortar na despesa pública. Como o objectivo é mostrar e não propriamente cortar, faz-se de conta. Como? Extinguindo, fundindo ou alterando a orgânica de certos organismos e "mexendo" pessoas, daqui para ali. A despesa será a mesma ou superior porque, com esta pseudo regionalização, os técnicos, provavelmente com chefias ainda mais frágeis, terão ainda menos condições para trabalhar e virão vezes infindas a Lisboa, para tratar de inúmeros processos que, por muitas outras razões, não serão descentralizados.
O que falta a esta simulação de reforma é uma Visão de futuro, uma ambiciosa Política de Património com uma orientação relativa ao que pretendemos obter socialmente a partir dos investimentos (ou despesas?) realizados na nossa Arqueologia.
Falta assumir metas para a produção e difusão de conhecimento; faltam metas para a salvaguarda e valorização do Património numa óptica de usufruto dos cidadãos. Faltam uma estratégia e ideias que permitam cruzar a Arqueologia com outras dimensões da nossa sociedade, rentabilizando-se os recursos públicos e privados que são investidos em Arqueologia ano após anos e de que quase ninguém sabe dos resultados (também aqui a ERA procura ser uma referência pela divulgação do que realizamos).
Uma reforma inútil. Uma oportunidade perdida. Uma lamentável encenação.
Como reagir? No nosso trabalho diário, através do contacto com clientes, continuando a demonstrar que aquilo que produzimos é útil e vantajoso. Quanto ao salto para uma dimensão pública do nosso trabalho, temos muito a fazer. Aqui, é necessária criatividade, ambição, tempo e algum dinheiro. Sozinhos, será sempre difícil; articulados com outros, com áreas como as das artes, da cultura, da informação da comunicação ou das ciências e tecnologias, será mais frutuoso. Não deixa de ser difícil. E, talvez por isso, prevaleça o conformismo das rotinas e se fique tantas vezes pela pequena discussão ou intriga inconsequente.
Não esqueçamos que quem está neste momento no topo da Administração Pública do Património não tem a mínima noção do que é a nossa Arqueologia. Não conhece os sítios, não conhece o potencial científico e patrimonial das nossas descobertas e do que é diariamente destruído, nem imagina o valor das narrativas que podemos transmitir. Para romper essa ideia de uma Arqueologia inútil, profundamente instalada nesse patamar, temos nós próprios de redefinir o nosso modo de agir e a nossa (in)capacidade de comunicação.
Miguel Lago, Março de 2011

escrito por Pedro Teixeira, Março 24, 2011
escrito por P.D. Vale, Março 08, 2011

