0237 - Porque é... "impulse".

Posted by: valera in Untagged  on Print PDF

Estava aqui a trabalhar em casa e, como de costume, tinha a TV ligada na Sic Notícias. Estava a passar o programa Ciência Global e a entrevista (já passada até à exaustão) a uma investigadora que foi premiada.

Um programa dedicado à divulgação e promoção da investigação científica realizada em Portugal. Mas deste programa estão totalmente ausentes as Ciências Sociais.

Ouço o programa e vejo discutirem-se investimentos em investigação tecnológica e das ciências "duras"; vejo reportagens junto de empresas que se relacionam com centros de investigação uma vez mais nas ciências "duras"; vejo a ministra a falar de ciência tecnológica e informação interactiva no domínio das ciências "duras"; vejo e concluo que, em Portugal, como talvez na Europa e no Mundo, Ciência é cada vez mais física e técnica e cada vez menos social e humana.

Dir-me-ão que as ciências Físicas e Técnicas proporcionam o que as comunidades mais querem (numa visão de mercado): melhores soluções técnicas, melhor medicina, máquinas para produzir mais barato, mais rápido, com menos gente. Uma concepção de desenvolvimento tecnocrática, mercantilista, economicista, onde a dimensão humana é cada vez mais... menor. Ainda não consegui ver um programa destes com uma orientação para as Ciências Sociais. Ainda não vi programas com entrevistas a premiados em ciências sociais (e também os há). Os destaques mediáticos das realizações científicas nacionais não contemplam as tais Ciências Sociais. Porquê?

Os média criam, mas vão sobretudo atrás. Eles também respondem ao mercado e são cada vez mais dependentes dele e de outras coisas. O conceito de notícia é, hoje, uma questão sociológica muito complexa.

Mas, no fundo, o que tudo isto revela é a incapacidade de quem está em Ciências Sociais conseguir tornar-se socialmente relevante. Talvez pela ilusão de que basta existir um interesse de uns quantos sobre um assunto para que isso se torne interesse de todos. Talvez porque exista a ilusão de que basta a consagração na lei para existir a consagração na sociedade. Talvez porque exista um coluvião ou aluvião de mediocridade nessas áreas, que dificulta a construção da tal relevância social.

O problema é que é a sociedade que paga e não a lei ou a moral. Relevância social é o futuro sustentado de qualquer sector de actividade. (E perdoem-me a repetição).

António Valera

Comentarios (7)Add Comment
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escrito por António Valera, Março 13, 2011
A dicotomia existe, embora se desejasse que ela fosse apenas dualidade. Começa logo na organização administrativa do ensino. Porque razão o vizinho do geólogo é o químico e não o filósofo ou o sociólogo? O condomínio universitário das diferentes disciplinas mantém a matriz classificatória medieval e perpectua a dicotomia entre as ciências fisícas e naturais e as sociais e humanidades. Divisão entre matéria e ideia; entre corpo e alma: um assunto de milénios na relação do Homem com o mundo e consigo próprio. Sim, a simples planta de uma cidade universitária é um problema filosófico e epistemológico; é um testemunho das relações ontológicas, epistemológicas e sociais que uma sociedade mantém com o mundo e a forma como nele ele se organiza.

São raras as vezes em que se pensa a consequência social e estrutural da forma como se organiza administrativa e fisicamente as instituições de produção de conhecimento e ensino. Logo aí se geram fossos que mais tarde temos dificuldade em ultrapassar.


E o problema prolonga-se na forma como se organiza o sistema económico e as suas intituições. Quando se pretende introduzir, por exemplo, pensamento filosófico na discussão de um projecto comercial, não raras vezes se é confrontado com comentários do género "lá estão as filosofices" (ouvi-o por várias vezes), porque o ensino, respondendo a um apelo da forma como se organiza tradicionalmente o sistema produtivo, pelo menos desde Ford, privilegia a especialização e o pensamento compartimentado (para obter a máxima rentabilidade na execução de uma tarefa), esquecendo que a critividade e a inovação estão no pensamento relacional, aberto e não afunilado e restrito à aplicação de um qualquer receituário. Por isso há uma relação de dependência entre cursos e profissões, que só recentemente se começou a questionar.

Em países desenvolvidos, universidades juntam, por exemplo, matemática, filosofia e informática numa mesma instituição. Noutros locais, em anexo a universidades, organizam-se institutos por problemas e não por disciplinas: instituto para o problema "tal" e todas as áreas disciplinares ali são chamadas com a sua perspectiva de abordagem ao problema.

Mas para isto Portugal ainda não está preparado. Nem na Academia, nem entre as empresas; nem entre os profissionais. Estamos ainda muito apegados às nossas caixinhas, onde nos sentimos confortáveis. Por isso nos tem sido difícil navegar nesta era de globalização e de esbatimento (ou, melhor, reformulação) de fronteiras.

E, já agora, num mundo de pensamento relacional não cabe apenas aos cientístas sociais construirem a sua relevância social. Cabe a todos os que dela se apercebem, sejam dessa área ou de outra. A mim, não me passaria pela cabeça desvalorizar o conhecimento de um astrofísico, mesmo que esse conhecimento fosse, de momento, economicamente pouco rentável. É que ele é central para mim e para o que faço.
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escrito por Alberto Lago da Silva, Março 13, 2011
Será que tem de haver uma dicotomia entre ciências "duras" e as ciências sociais e humanas? Não será que deviam trabalhar em projectos conjuntos como acontece, por exemplo, no MIT ou em Carnegie-Mellon, para não falar de casos mais próximos de nós? Há dias estive com uma equipa que incluía engenheiros e pedagogos no desenvolvimento de um projectos para uma universidade, nas áreas da gestão e do direito. Quer a engenharia, quer a pedagogia eram relevantes para o objectivo a atingir. O tema é "relevância". Será que quem está nas ciências sociais e humanas consegue demonstrar essa relevância?
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escrito por Miguel Lago, Março 12, 2011
Em muitos casos nem é tecnocracia, é brutocracia...
Essa falta de paixão é imediatamente perceptível quando se ouvem certos arqueólogos responsáveis de escavações a descreverem, a não arqueólogos, os seus trabalhos, por exemplo durante visitas de campo. Em vez de histórias, de resultados, de problemas, de algo interessante que possa ser dito sobre o que foi intervencionado, ouvem-se massacrantes descrições de realidades estratigráficas.
Mas quando se está com o arqueólogo que sabe contar o seu trabalho, tudo se pode alterar. É preciso paixão.
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escrito por António Valera, Março 12, 2011
E o melhor contador de histórias é o que está envolvido com elas. A Arqueologia é uma paixão e é preciso estar apaixonado para fazer boa Arqueologia e contar as belas histórias que proporciona. E a tecnocracia em que a prática arqueológica caiu pouco ajuda, antes pelo contrário...
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escrito por Miguel Lago, Março 11, 2011
Claro, é necessário um inteligente equilibrio para tornar acessivél e estimulantes todos esses aspectos...para o máximo de pessoas possível.
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escrito por António Valera, Março 11, 2011
Pois. Mas não basta dizer que se podem contar histórias. É preciso saber contar. E das que não sejam da Carochinha.
É que há, frequentemente, uma cedência desmesurada ao "ouvido" do mercado/público. As histórias devem ser apelativas e acessíveis, é certo, mas com conteúdo, fundamento e ambição. E para isso é necessário ciência (problematização, investigação e síntese) e não apenas habilidade para transmitir discursos engraçados, datados e mais ou menos inóquos. A relevância social do conhecimento manisfesta-se através da provocação das mentalidades, da promoção da surpresa face a ideias instituídas, da descoberta que se pode provocar em cada um relativamente a cada um e ao mundo.

Uma verdadeira dimensão científica, sustentada numa teoria crítica que perceba o carácter instrumental do conhecimento na mudança social, é fundamental para dotar a divulgação arqueológica de uma verdadeira dimensão de retorno social. Digo eu.
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escrito por Miguel Lago, Março 11, 2011
É fundamental que os clientes interiorizem que pode valer a pena divulgar os projectos de Arqueologia que promovem a propósito dos seus empreendimentos ou obras. Nesse âmbito os media podem ser particularmente relevantes e o nosso papel, o dos arqueólogos, ainda mais. Hoje, numa reunião, o Alexandre Sarrazola dizia a um cliente que, precisamente porque as pessoas querem ouvir histórias, nós, a propósito das nossas escavações, estamos numa posição privilegiada para as contar, proporcionando uma aproximação dos cidadãos ao Património. Infelizmente, os clientes ainda têm muito medo das eventuais polémicas, por mais que saibam que estão a cumprir com todos os requisitos legais relativamente à Arqueologia. Por isso, continuam a preferir que tudo fique para lá dos tapumes, mesmo que muito bem feito; por isso, optam por não beneficiar das despesas que têm com a Arqueologia, tornando-as em investimentos. Alterar esta situação deveria mobilizar os arqueólogos, a tutela, a APA, as empresas de arqueologia, as universidades, os alunos, o eventual futuro sindicato,...

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