0241 - Pensamento crítico
Posted by: valera in Untagged on
Mar 19, 2011
Publicado, neste blog, em Abril de 2008:
"Pois bem: resulta que o homem de ciência é o protótipo do homem-massa. E não por acaso, nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência, mas porque a própria ciência (...) o transforma automaticamente em homem-massa; quer dizer, faz dele um primitivo, um bárbaro moderno. (...)
Para progredir, a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. Os homens de ciência, não ela própria. A ciência não é especialista. (...) geração após geração, o homem de ciência foi constrangindo-se, recluindo-se, num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito (...) por ter de reduzir a sua órbita de trabalho, ia perdendo contacto progressivamente com as restantes partes da ciência, com uma interpretação integral do universo, que é a única merecedora dos nomes de ciência, cultura, civilização europeia.
A especialização começa, precisamente, num tempo que chama homem civilizado ao homem . O século XIX inicia os seus destinos sob a direcção de criaturas que vivem enciclopedicamente, embora a sua produção tenha já um carácter de especialismo. (...) Quando em 1890 uma terceira geração toma a direcção intelectual da Europa, encontramo-nos com um tipo de cientista sem exemplo na história. (...) Chega a proclamar como virtude o não inteirar-se de quanto fica fora da estreita paisagem que cultiva de forma especial, e chama diletantismo à curiosidade pelo conjunto do saber.
O facto é que, recluído na estreiteza do seu campo visual, consegue, com efeito, descobrir novos factos e fazer avançar a sua ciência, que só ele conhece, e com ela a enciclopédia do pensamento que conscieciosamente desconhece. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém recalcar a extravagância deste facto inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte graças ao trabalho de homens fabulosamente medíocres, e ainda menos que medíocres. Quer dizer que a ciência moderna, raiz e símbolo da civilização actual, dá acolhimento no seu seio ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. A razão disso está no que é, paralelamente, a maior vantagem e o perigo máximo da nova ciência e de toda a civilização que esta dirige e representa: a mecanização. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer na física e na biologia é tarefa mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer um, ou pouco menos.(...) A firmeza e exactidão dos métodos permitem esta desarticulação transitória e prática do saber. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina, e nem sequer é indispensável, para obter abundantes resultados, possuir ideias rigorosas sobre o seu sentido e fundamento.
Por isso cria uma casta de homens sobremaneira estranhos. (...) O especialista muito bem o seu cantinho pequenino de universo; mas ignora de raiz tudo o resto.(...) Não é sábio, porque ignora formalmente tudo o que não entra na sua especialidade; mas também não é um ignorante, porque é um "homem de ciência" e conhece muito bem a sua porçãozinha de universo. Teremos que dizer que é um sábio-ignorante, coisa sobremaneira grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem é sábio na sua questão especial.
E este, com efeito, é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências, tomará posições de primitivo, de ignorantíssimo; mas tomá-las-á com energia e suficiência, sem admitir - e isto é que é paradoxal - especialistas dessas coisas. Ao especializá-lo, a civilização fê-lo hermético e satisfeito dentro das suas limitações; mas esta mesma sensação íntima de domínio e valia levá-lo-á a querer predominar fora da sua especialidade (...) o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida.(...)
(Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas - 1ª edição em 1930)
E publicado, neste blog, em Novembro de 2007.
"A Filosofia ajuda a que os cientistas não passem tanto tempo sem perceber o que estão realmente a fazer"
(Desidério Murcho, conferência no Instituto de Biologia Molecular e Celular, Porto).
Onde se lê cientistas , leia-se...



Aproveito para dizer que estive a consultar o ultimo numero da revista Apontamentos e tenho que lhe dar os parabéns a si e a ERA Arqueologia. Aproveito para perguntar para quando esta prevista a publicacao de novo volume da revista ERA a vossa revista em papel?
Mais uma vez parabens a ERA e ao seu projecto.