0245 - Património pensado
Posted by: valera in Untagged on
Mar 31, 2011
Porque há gente interessante a pensar as questões do património, permitam-me que transcreva um post da mailing list Museum:
"Das mensagens que recebi por causa deste assunto apresento, com o necessário segredo, um dos diálogos mais pertinentes. Fá-lo-ei em formato de ficção.
Pergunta-me o prestigiado interlocutor (WZX):
Acredita mesmo que essa reforma pode ser feita?
Respondo (PM-C):
Acredito.
WZX:
Num momento como este, em que estamos quase à beira do precipício e da catástrofe?
PM-C:
Se me permite, prefiro chamar mudança (no pleno sentido técnico e cultural do termo) ao que chamou de "precipício e catástrofe". São tempos em que as pessoas e as comunidades se limpam das sujidades acumuladas...
WZX:
Talvez. Mas continuo a não acreditar que seja este o momento adequado para essa reforma.
PM-C:
Acredito que é nesta altura que as diferenças estão menos convencidas de si próprias. E por isso talvez capazes de concederem ouvirem as outras.
É o ruído desse seu convencimento que as constrói como ‘diferenças'. E que impede em tempos normais o diálogo a partir de uma exterioridade delas mesmas. Afinal, é sempre esse ruído que ouvimos para conseguirmos ser nós.
Este é o momento para esse ‘encontro'. O nome e o formato dessa reunião/debate pouco importa. O que conta é o contrato de confiança que esse altruísmo poderá semear para ela se fazer.
O brilho de tantas iniciativas e congressos, de tantos nomes e anúncios, de tantos prémios e eleições associativas, teima em silenciar a voz da maioria dos conservadores e responsáveis pelo património. Daqueles que trabalham dia a dia junto dele e chamam a atenção para a sua degradação. São esses que lidam com a prática que mais clamam por essa reforma. A Lista Museum que tem sem dúvida todos os méritos mas mostra apenas essa parte luzidia, esse lado mistificador da realidade patrimonial do nosso país. Sim, de certo modo tento remar contra esse conformismo.
Tratar do património no concreto não ocupa colunas de jornal, não é notícia, nem dá estatuto. Não serve para o curriculum. Nos tempos de agora conta sobretudo a identidade comunicativa que Habermas referia, mesmo sem qualquer substrato ou efeito.
Parece que ninguém se dá ao trabalho de ouvir os trabalhadores do património. Bem tentam desesperadamente, como no recente Livro Branco dos Conservadores dos Museus de França. Mas ninguém se importa. Continua-se freneticamente na azáfama das conferências, dos anúncios, das proclamações, e de iniciativas que apenas usam o património como um signo.
Sim, há uma reforma a fazer, lá no concreto da coisa a que chamamos património. Que não se resolve no discurso nem com o texto. É possível e útil fazê-la. Há ferramentas conceptuais e metodológicas novas que a permitem realizar. Há novos resultados na ciência e na interpretação do património que ainda não foram utilizados em Portugal. É por isso que vale a pena, e este é o momento certo.
WZX:
Mas você não acha que é necessário sair do património para o podermos pensar e interpretar, e assim guiarmos a sua gestão?
PM-C:
Estou de acordo com esse sair conceptual, desde que materialmente nunca dele tiremos as mãos.
Quando iniciei o ano passado, em Junho, o trabalho na Universidade (Clássica) de Lisboa justifiquei o projecto do seguinte modo: - "Os resultados e as repercussões da pesquisa que fizemos após o doutoramento indicam que a Questão Patrimonial só pode ser pensada através de categorias de um tipo lógico mais amplo. O motivo deste trabalho é exactamente a procura dessa condição necessária ao prosseguimento da reflexão e do estudo do Património e da Museologia. De facto só se conseguem compreender na relação com um contexto exterior àquilo que engendram dentro de si, concretamente com Cultura e a Comunicação. E a consciência de que o ‘Museu' não é o Património, é sobretudo uma narrativa e um acto de comunicação com os indivíduos e a comunidade. Mas, por outro lado a Questão Patrimonial obriga a Cultura e a Comunicação a reflectirem sobre as dicotomias que são os seus actuais problemas: local/global; herdado/adquirido; individual/social; estrutura/agência; contexto/processo; semelhança/diferença; construção/desconstrução; passado/futuro; permanência/mudança; material/imaterial; objecto/representação; suporte/documento; documento/informação.
Existem dois dados relevantes na pesquisa que fizemos que podem trazer um contributo para essa reflexão. Referimo-nos à descoberta da Estrutura do Valor Patrimonial, e ao discernimento de uma limitação etnocêntrica nas habituais análises á questão patrimonial."
No passado mês de Fevereiro terminei o referido trabalho ao qual dei o título de "A Cultura perante o Património".
Como vê o meu acordo não é meramente circunstancial, ou para fazer conversa.
WZX:
Sim. Não sei se tem razão, mas é essa exterioridade a que me referia.
PM-C:
Aproveito para lhe enviar a Conclusão:
"Capítulo VII - CONCLUSÃO: "A compreensão do Património ocorre no domínio do fenómeno da Relevância. Em termos teóricos, o Estudo do Património visa a compreensão do processo que confere à realidade-existência a qualidade patrimonial, através de um modelo interpretativo que relaciona os processos de patrimonização, musealização e memória, cujo contexto é uma oscilação permanente entre Fenomenologia e Positivismo. Em termos práticos, visa obter um ‘suporte' com ‘documentos/dados' de partes da realidade-existência consideradas patrimonialmente relevantes cujo acesso pela ‘memória-cognição' não tenha limitações (espaciais, temporais, contextuais ou outras), eventualmente para obter uma vantagem adaptativa. Em que os designados ‘museu', ‘biblioteca', ‘arquivo', e outras infra-estruturas equiparadas servem para envolver alguns tipos de património, eventualmente para os melhor gerir e preservar.
O irresistível impulso contemporâneo de transformar a realidade em Património e pô-la em ‘museus' - desde objectos até cidades e mesmo regiões inteiras - será um sinal antecipador do futuro, ou o mero reflexo da conjuntura do presente? Seja qual for a resposta o Património parece ajudar os indivíduos a estarem juntos num sentimento de humanidade conjunta e global, decididamente antropocêntrico, que é o melhor antídoto para enfrentar a Mudança seja ela real ou imaginada. Talvez o frenesim contemporâneo de tudo querer patrimonizar e de tudo querer musealizar seja a expressão de alguma transformação prestes a ocorrer - tal como quando precisamos de «arrumar as coisas antes de uma longa viagem». Não por causa de qualquer arbítrio infundado. Mas por causa do mesmo esquema de sobrevivência que nos conduziu a sermos o que somos no processo da Vida. Por causa do receio - e da prudência - perante a inevitabilidade da Mudança. Para que tudo não termine para a espécie humana por causa da falta de tempo ou de espaço para onde irmos em resultado de um diletantismo imprudente.
Talvez seja para isso que sirva. Para nos prepararmos continuamente para a inexorabilidade da Mudança - essa condição sempre tão potente que simultaneamente nos pode fazer avançar ou levar à entropia e ao esquecimento. Não apenas para ficarmos com a memória da complexidade e das obras que fizemos, e somos capazes de fazer, sem se ter que regressar ao início ou refazer uma fase já ultrapassada. Não apenas para ficarmos com a memória do que fomos, mas também para, através do património, adquirirmos uma habilidade cada vez mais apurada para escolhermos o que é Relevante. E essa capacidade não é crucial apenas dentro da complexidade de cada contexto existencial, é-o também quando defrontamos o desconhecido ou a imprevisibilidade.
Este trabalho mostrou que durante o percurso histórico houve muitos objectos, muitos usos e muitos valores patrimoniais. E no futuro certamente muitos mais hão-de surgir. Mas mostrou também que de todas essas escolhas sobre o que é «vital e relevante» - a que damos o nome de Património - existem as estruturais, as conjunturais e as episódicas. As que estão na Estrutura do Valor Patrimonial provindas da anterioridade biológica; outras vindas da vida em sociedade; e outras, como o valor transformacional, acrescentadas pela complexidade cultural. Embora ainda não saibamos como se passa de umas para as outras sabemos que é possível fazer essa passagem, pelos contributos de E. Kandel, J. O'Keefe e J. Dostrovsky.
Esse processo de codificação da relevância - que mantém na Memória os critérios pelos quais escolhemos aquilo que é ‘património' - permanece perene desde há mil e oitocentos milhões de anos com o aparecimento da estratégia de vida Eucariote. Uma estratégia que guarda no núcleo da célula, protegidas por uma membrana, as informações vitais que hão-de ser transmitidas às gerações futuras. Assim mesmo. Tal como fazemos nos sítios que agora chamamos Museus. Uma estratégia que internamente, dentro do núcleo das células, funciona através de um processo comunicativo em grande parte semelhante ao que chamamos por ‘comunicação simbólica'. Porque ‘partes da matéria' são reconhecidas por outras ‘partes da matéria' não como realidades físicas mas como instruções diferenciadas, reguladas por um código que usa a combinatória de quatro ‘letras' formando o que se designa por genes, e cuja consequência é sintetizarem as proteínas que constituem a materialidade corpórea do ser humano, fazendo-o com uma assombrosa precisão de transmissibilidade. De tal forma que conseguimos vê-lo como uma espécie diferenciada das outras nas sucessivas gerações desde pelo menos há 195 mil anos. Ou seja, a física reconhece a física como mensagem ou, literalmente, como meta-física. Um processo de comunicação entre coisas do mundo físico sem qualquer interferência da consciência ou da acção humanas, e muito antes do aparecimento de Homo. E que só em 1865 com Johan Mendel, e depois em 1953 com James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins, o intelecto humano conseguiu discernir.
A conclusão principal é a de que o Património é - sejam quais forem os objectos e a materialidade que se considerem - um ‘código' e uma ‘codificação' que permitem à consciência (cérebro) fazer a gestão da Relevância e colocá-la em Memória. Os objectos e a materialidade funcionam como pretextos para a construção das instruções e mensagens da relevância que a cognição detecta na realidade-existência. E são elas que são verdadeiramente o Património - tal como vimos com Dryas Octopetala, com Messel, com Agnasta Gneiss, com Nuvvuagittug, com o Manto de Nossa Senhora de Guimarães, e em inúmeros outros casos durante este trabalho. Os objectos de Füsum que Kemal coleccionava compulsivamente no museu da inocência de Orhan Pamud não valem por si, mas pelo amor que sinalizam para a cognição (Pamud, 2010).
O Património é a ferramenta humana (Cultural) para gerir a Relevância. O resultado deste trabalho indica que existe uma codificação de nove critérios para a seleccionar, e consequentemente para dotar os objectos/realidade da qualidade que designamos por ‘patrimonial' ou ‘património'. E talvez todos os nove valores patrimoniais - que descobrimos existirem nesse mapa mental que designámos por Estrutura do Valor Patrimonial - trabalhem teleonomicamente para aperfeiçoarem a habilidade da mente nessa busca da relevância.
O Património tem um papel importante no projecto ambicioso e talvez utópico de sobrevivermos à Mudança. E só terá utilidade se puder ser ‘lido' pelo cérebro dos presentes e dos vindouros pertençam eles a que etnia, sociedade ou cultura pertencerem. E se servir sobretudo a um sentido neguentrópico da nossa Continuidade.
A questão patrimonial é pertinente para a Cultura porque são as soluções para continuarmos a existir na Vida e na Natureza que separam, provavelmente, o que é fundamental do que não é. Mas também é importante porque permite perceber como jogam as duas principais convicções contemporâneas: a do Desenvolvimento e a da Ciência. E o Património exige que a Cultura não se abstenha de falar delas como ideologias. Exige que não abdique da crítica permanente aos sistemas de validação da verdade próprios de cada época. Na interpretação do património é isso que impede a auto-referência e o impasse tautológico. É a procura dessa exterioridade que permite alcançar as analogias fundadoras de novos saberes, e as intuições de rompimento que derrubam os ciclos fechados e os impasses tomados como ‘o fim' ou ‘o limite', como por exemplo aquele a que Wittgenstein nos condenou, de o Ser e o Pensar ficarem irremediavelmente presos à alternativa de Dizer ou ficar em silêncio. Com o Património vimos que comunicar não se esgota no dizer. Nele nem comunicar é dizer.
Manuel Frias Martins (1995) intuiu uma analogia do Indefinido com a "matéria negra". Isto é, provocou uma relação entre uma categoria de ordem cultural e uma entidade do campo do infinitamente grande dita de ordem física. Esse dizer não fica preso apenas à metáfora ou ao território da crítica literária. Digam o que disserem nunca deixará de ter sido um acto. E sê-lo-á sempre, quaisquer que sejam as intenções do emissor e as significações do receptor, as quais ser-lhe-ão sempre visitas efémeras. Do mesmo modo também a codificação da Relevância no caso do Património poderia estabelecer uma analogia com a física, mas nesse caso encontrá-la-íamos na relação de atração que as partículas do infinitamente pequeno mantêm com o bosão de Higgs. E a sucessão de codificações (a existência de ‘códigos') que observamos empiricamente nos domínios biológico, social e cultural remetem para um fenómeno que necessita de reflexão. Pois aponta para uma anterioridade maior (talvez haja um código na física como o genético ou o patrimonial) e um efeito na posteridade a não desprezar. No caso do Património, Dizer ou Comunicar não dissolvem o acto que necessitam para poderem ter sido.
Os resultados alcançados por este trabalho derivam de termos perspectivado o Património através da Cultura e da Comunicação usando-as como um patamar lógico exterior de onde o pudemos analisar de fora. Afastando-nos do ponto de vista da museologia e da apologia dos museus. Se os resultados deste trabalho forem úteis, então, talvez possam ser um ponto-de-partida para uma nova abordagem à questão patrimonial. Sendo este o desafio que a Cultura tem na contemporaneidade, não apenas no que respeita à gestão do Património, mas também no campo disciplinar e académico do seu estudo." (Pedro Manuel-Cardoso, Fevereiro 2011, Lisboa: FLUL).
WZX:
Um Abraço Pedro. Até à próxima.
PM-C:
WZX, foi mais uma vez um prazer e um privilégio trocar consigo acerca deste fascinante problema que é o património. Muito obrigado. Até á próxima."
Pedro Manuel-Cardoso


