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Animalidade e ontologia humana no 3º milénio AC: necessidade de uma reconceptualização teórica da relação homem – animal na Pré-História Recente? A crítica à concepção de Ciência Moderna e a consciência de que todo o conhecimento é uma produção contingente têm gerado em Arqueologia inúmeras críticas à construção de um passado demasiado “familiar”. No que respeita à Pré-História Recente, a projecção acrítica de situações consideradas naturais e universais é ainda uma circunstância que suscita pouco controlo reflexivo como princípio orientador da investigação.Esta circunstância tem sido evidente no tratamento que a Arqueologia (e a Arquezoologia) tem feito da relação Homem / Animal, nomeadamente no que concerne à questão da domesticação. Dominada por tendências teóricas de pendor funcionalista e materialista e por um quadro mental de exteriorização ontológica do Homem relativamente à Natureza, esta relação tem sido abordada predominantemente no âmbito de um estrito economicismo: os animais são perspectivados como simples recursos à disposição dos grupos humanos, que os exploram e gerem de acordo com estratégias que obedecem a princípios da racionalidade economicista moderna. De uma maneira geral, estas abordagens descuram um problema central para compreender o fenómeno da domesticação: as implicações que nesse fenómeno tem (e que dele resultam sobre) a concepção que o Homem faz de si próprio e do mundo que o rodeia. Ocorrendo num mundo onde a familiaridade com o natural é ainda dominante, em que concepções animistas do universo enquadram o pensamento humano, o problema da relação Homem-Animal é muito mais que uma questão de subsistência e de gestão económica: é um problema cognitivo, de visão do mundo e de contingência histórica das concepções e descrições do humano. A presente comunicação procurará reflectir, a partir destes pressupostos críticos e de um conjunto de estatuetas de animais provenientes da necrópole do Complexo Arqueológico dos Perdigões, sobre a necessidade de uma reorientação teórica nestes estudos, com reflexos nos procedimentos de campo, nomeadamente no que respeita ao detalhe e qualidade do registo (que sabemos sempre dependente do questionário ou da ausência dele).Sublinhar-se-á que esta reorientação teórica não é ideologicamente neutra, sendo enquadrada por um contexto de dissolução de visões essencialistas e universalistas do humano e de uma reaproximação cultural à ideia de comunhão com a natureza, a qual tem sido personificada pelas ideologias ecologistas. Contudo, da mesma forma devemos resistir à projecção de um actual “paternalismo ecologista”, procurando “dar espaço ao passado” através de uma interrogação crítica dos dados empíricos, do raciocinar sobre eles a partir de diferentes pontos de vista, utilizando a analogia como procedimento metodológico. Esta comunicação constituir-se-á como o texto fundador de uma das linhas de investigação a desenvolver a partir do Complexo Arqueológico dos Perdigões pelo Núcleo de Investigação Arqueológica da ERA Arqueologia S.A.. “Animality and human ontology in the 3rd millennium BC: the need for a theoretical review of human – animal relationship in Recent Prehistory.” The critique of Modern Science and the conscience of knowledge contingency have supported accusations to a “familiar” Prehistory presented by the archaeological discourse, resulting in projections of contemporary situations, considered as natural and universal. This has been evident wile addressing human / animal relationship, namely regarding domestication. Dominated by functionalistic an materialistic approaches and by a contemporaneous Human ontology (human / nature separation), this relationship has been addressed mainly in an economic bases, where animals are seen simply as economic resources explored in the context of economic strategies of modern rationality.A central problem has been forgotten: the implications of human self representation and of world representation in the process of domestication. That process took place in a world dominated by a higher familiarity with the natural and by animistic conception of the universe, so the human / animal relationship is a cognitive and ideological problem, as much as an economic one. Supported in this critique and in the question raised by a set of animal statuettes from Perdigões necropolis, the present paper will debate the need for theoretical reorientation of research, with consequences for field procedures, namely in terms of the quality and detail of the archaeological record. It will be also stressed that this theoretical reorientation in not ideologically neutral, but related to a context of critique of essentialist and universalist values of humanity and of a “coming back to nature” ideology, expressed by ecological discourses. Nevertheless, this tendency also need reflexive control, giving “space to the past” to “reveal its differences” through a tight inquiry of empirical data, a diversity of approaches and using analogy as methodological procedure. This paper will constitute the base of departure of a research project to be developed in the Perdigões archaeological complex by the Archaeological Research Group (Núcleo de Investigação Arqueológica) of ERA Arqueologia S.A..
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