André Oliveira
A Casa da Câmara de Vila Real de Santo António: a métrica e a forma de um mercado
A presente comunicação refere-se aos trabalhos arqueológicos, realizados pela ERA- Arqueologia SA, no âmbito do projecto de reabilitação do edifício da Casa da Câmara de Vila Real de Santo António. Esta intervenção teve lugar entre Maio e Dezembro de 2007.
Para entendermos os pressupostos que nos levaram a esta intervenção temos de recuar à década de 60 do século XVIII, quando a viragem económica obrigou a Coroa portuguesa a aumentar a “substância do reino”, estruturando as suas finanças, ao aproveitar os recursos piscatórios do Algarve. A par deste intento reformador da Coroa, a conflituosidade com Espanha crescia do outro lado do Atlântico, fazendo com que os imperativos políticos e económicos desta contenda transformasse uma guerrilha de pescarias numa guerra diplomática, na costa de Monte Gordo. É neste contexto de tensão e reformismo que nasce Vila Real de Santo António, símbolo de um urbanismo gerador de poder. Reproduzia-se, assim, o molde ultramarino, da forma urbana como expressão de poder.
Fruto da confluência do pensamento racional, emanado pela “Escola Portuguesa de Arquitectura e Urbanismo” e dos mais fortes desígnios da administração pombalina, surge pela mão de Reinaldo Manuel dos Santos, esta peça única do urbanismo português. Um conjunto coerente que tem por base a expressão matemática, que advém da simples aplicação do portulano e da Rosa dos Ventos e Rumos (RVR) à causa urbana. Este último elemento, utilizado como uma espécie de ábaco, seria essencial para garantir o resultado geométrico da modelação da urbe.Todo o rigor aportado pela RVR e pelo sistema de sequência alfanumérica, presente no ritmo gerado pelo binómio – vãos cheios/vazios, explanado por toda a cidade, apresentou-se como o ponto-chave para a nossa intervenção.
Foi a conjugação do conhecimento deste pensamento matemático, com a metodologia arqueológica, que tornou possível reescrever a história deste quarteirão. Esta comunicação visa explorar apenas a dimensão arquitectónica, espacial e funcional da parte Este do mesmo, referida nas fontes como um Mercado setecentista e Logradouro. Ao contrário do restante edifício, não é conhecido um projecto de implantação para esta área, havendo apenas uma proposta da sua arquitectura e métrica, feita pelo Arq.º João Horta, com base na sequência rítmica dos arcos das salgas.
A intervenção permitiu desmontar esta teoria, para além de ter possibilitado a compreensão de estarmos perante um espaço que reproduz os modelos formais de anteriores mercados algarvios. Nesse sentido, o congénere em análise não resulta de um desenho imposto pela Casa do Risco.
Este trabalho permitiu à equipa de arquitectura da Casa da Câmara restituir a volumetria e métrica do edifício e da própria Praça Marquês de Pombal, a partir da descoberta dos vestígios pombalinos conservados.
The city hall of Vila Real de Santo António: metric and shape of a market
The current communication refers to the archeological works done by ERA- Arqueologia S.A., in the rehabilitation project of the Vila Real de Santo António’s City Hall Building. This intervention took place between May and 2007’s December.
In order to understand the assumptions which lead us to this intervention, we have do go back to 60th decade of the XVIII century. At this time, the economic crisis forced the Portuguese Crown to increase the “kingdom’s substance” through a new financial structure which exploit the Algarve’s fishery resources. Simultaneously to this intent of reform, the conflict with Spain was growing up in the other end of the Atlantic Ocean and because of that the political and economic’s imperatives of this strife transformed guerrillas of fisheries into a diplomatic war in Monte Gordo’s Coast. It was in this context of tension and reformism that Vila Real de Santo António was born, as a symbol of an urbanism generator of power, following an overseas mold.
Born from the confluence of the rational thinking of the “Portuguese School of Architecture and Urbanism” and the strong designs of Marquês de Pombal administration arose by the hand of Reinaldo Manuel dos Santos this unique piece of Portuguese urbanism. It was built following the mathematic expression 1+Ö2 which came from the application of the portolan chart and the compass rose in the urban design. This expression was used like an abacus to draw the city.
The key point of this intervention is the result of the mixture of the Compass Rose and the alphanumeric sequence of the filled and empty voids.
The archeological methodology combined with the mathematic thinking lead us to rewrite the history of this quarter. This communication only explores the spatial, functional and architectural dimensions of the eighteenth century´s Market and Logradouro in the quarter’s East side. Unlike the remaining quarter, it’s not known any project about these buildings’ architecture, although there is proposal, by Arq.º João Horta, based on the rhythmic sequence of salt’s arches.
With this intervention we counteract the existing idea and show that this building was constructed with different architectural parameters.
It was possible to the architectural team, involved in the Casa the Câmara’s rehabilitation, to give to the quarter and Marquês de Pombal square the original metric and volumetry.